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“É preciso garantir a viabilidade da agricultura portuguesa”

A nova PAC começa a ser implementada a partir de 1 de janeiro de 2023
A nova PAC começa a ser implementada a partir de 1 de janeiro de 2023
D.R.

PAC: a adaptação aos novos desafios climáticos e demográficos é imperativa na nova Política Agrícola Comum. Pacote de medidas de apoio a Portugal supera os €6 mil milhões até 2027

Habituámo-nos a encontrar alimentos sempre disponíveis, em todas as épocas e a preços baixos, sem imaginar o ciclo produtivo que está por detrás de cada produto. Mas a pandemia, a guerra na Ucrânia, as alterações climáticas e a necessidade de produzir mais e melhor, garantindo a sustentabilidade, a qualidade e a quantidade dos produtos a um preço adequado, colocam novos e urgentes desafios à agricultura europeia. São imperativos de uma política que no pacote de apoio a Portugal consagra €6 mil milhões para os próximos quatro anos.

Como se equilibra produtividade e sustentabilidade? De que forma se podem atrair jovens, garantindo a renovação geracional? Como é que a agricultura pode ajudar a combater as alterações climáticas? Estas e outras questões vão estar em análise, no próximo dia 27 de outubro, no debate organizado pelo Expresso sobre “Desafios da Política Agrícola Comum: O Que Mudou na Europa”.

Entre as maiores dificuldades atuais está, para António Serrano, que liderou o Ministério da Agricultura entre 2009 e 2011, “assegurar a continuidade e viabilidade de todo um sector produtivo”. Num domínio confrontado com diversas exigências, é necessário, defende, “produzir de forma mais sustentável, num enquadramento de alterações climáticas profundas. O sector tem de produzir mais alimentos mas em simultâneo reduzir pressão sobre os ecossistemas, o solo e a água, entre outros, além de contribuir para a redução das emissões de CO2 e metano”. Este professor catedrático da Universidade de Évora e membro do Conselho Consultivo para a Reforma da PAC do Ministério da Agricultura aponta ainda para as condições particulares do país: “Enquanto agricultores, os portugueses enfrentam o desafio de garantir que haja atividade viável, sustentável e equilibrada que evite a desertificação, situação que leva depois a outros problemas.”

Também Francisco Cabral Cordovil, autor da obra “Agricultura e Política Agrícola”, sublinha a “especial acui­dade em Portugal, dada a vulnerabilidade aos grandes incêndios florestais, a períodos de secas severas e prolongadas, à erosão e à diminuição da matéria orgânica nos solos”, considerando que “estamos longe de lhes conferir a prioridade e a concentração de esforços que merecem”. Sobre o contexto de crise energética, escassez de recursos e alta inflação, compete às instituições democráticas responder a estes desafios, “com confiança e determinação, sem prometer facilidades, promovendo políticas inovadoras e eficazes, fundadas numa pedagogia de verdade e numa ética de solidariedade e responsabilidade”.

Arquitetura ecológica

“Temos de incentivar a transição para cadeias de abastecimento diversificadas e práticas de gestão de recursos que façam sentido para o planeta e para as gerações futuras”, alerta Jorge Pinto Antunes, chefe de gabinete adjunto do comissário europeu para a Agricultura. Além das explorações agrícolas, é determinante envolver toda a sociedade e sensibilizar para a importância de “reduzir as perdas e o desperdício alimentares e estimular mudanças no sentido de regimes alimentares mais saudáveis e menos intensivos em termos de recursos”. Atualmente, trabalha-se em iniciativas para “aumentar a resiliência da nossa agricultura, impulsionar a competitividade dos produtos alimentares sustentáveis e permitir escolhas mais saudáveis por parte dos consumidores”, revela Jorge Pinto Antunes, sublinhando uma das prioridades especiais do atual comissário para a Agricultura, Janusz Wojciechowski: “Conseguir cadeias de abastecimento mais curtas e mais justas e lutar contra o comportamento comercial desleal.” O especialista garante que nova PAC “é mais ecológica, justa e eficaz, produzindo resultados para os agricultores e para os cidadãos”, e que, neste contexto, “proporciona instrumentos para reforçar a resiliência do sector agrícola e assegurar a continuidade da produção alimentar. Inclui uma combinação de elementos, salvaguardas e princípios — a chamada ‘nova arquitetura ecológica’ — para assegurar uma maior ambição da PAC no que diz respeito à proteção do ambiente e do clima”.

Com implementação a partir de 1 de janeiro de 2023, a nova PAC contempla um financiamento de €6,782 mil milhões para Portugal, dos quais 3% dos pagamentos diretos se destinam a apoiar o rendimento de jovens e novos, contribuindo para a renovação geracional.

Da terra à mesa

Conhecer 50 produtos da terra e do mar, a partir de histórias inspiradoras e de sucesso, desde a produção até ao consumidor, em casa ou no restaurante, é o objetivo do projeto “Da Terra à Mesa”. Todas as semanas, em boacamaboamesa.expresso.pt, pode saber mais sobre estes produtos — únicos, diferenciadores, certificados ou inovadores, explicados por quem os produz, transforma e comercializa.

Mirtilo

Idanha-a-Nova é a maior região produtora nacional deste fruto, considerado um superalimento.

Alfarroba

Conhecida como “ouro algarvio”, é um exemplo de tradição e inovação, com aplicações alimentares e na saúde.

Alho da Graciosa

Pouco conhecido, este é um dos muitos produtos DOP (Denominação de Origem Protegida) com origem nos Açores.

Pêssego

O aromático fruto é produzido na Cova da Beira por um professor universitário.

Flor de Sal

Em Castro Marim, o local onde é produzida, dá origem a uma incrível paisagem, que já se tornou destino turístico.

Melão Casca de Carvalho

Singular, raro e efervescente, é um presente de verão que só se encontra entre o Minho e o Douro Litoral.

Ameixa de Elvas

Sempre doce, ao natural ou em calda, acompanha típicas sobremesas alentejanas e está classificado como produto DOP.

Grão de Bico

Em Santarém, o Casal Vouga é uma variedade que resulta da inovação de um jovem agricultor.

Futuro da PAC

Ao longo dos próximos meses, o Expresso vai discutir o futuro da Política Agrícola Comum (PAC). Como garantir o fornecimento de alimentos? Que produtos são mais sustentáveis? Em que culturas devemos apostar? Este ciclo de debates é cofinanciado pela União Europeia.

Textos originalmente publicados no Expresso de 21 de outubro de 2022

Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail: pbrilhante@impresa.pt

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