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Como aderir e poupar com as energias renováveis

23 setembro 2022 16:04

Ana Baptista e Carlos Monteiro

carlos monteiro

Guia: já aqui lhe explicámos que descarbonizar não é uma moda, é uma emergência social, mais ainda com a guerra na Ucrânia e a subida do preço do gás. Se ainda não começou a substituir os combustíveis fósseis por energias verdes, agora é a altura

23 setembro 2022 16:04

Ana Baptista e Carlos Monteiro

Em Portugal, 34% do consumo de energia final já é verde, o que nos coloca no lote dos países mais avançados em termos de incorporação de renováveis. Mas ainda não chega, e as empresas têm um papel crucial nesse processo. E com as opções que existem hoje “não há razão para não o fazer”, diz Nuno Brito Jorge, fundador da GoParity.

Porque devo investir em renováveis?

Além de contribuir para a descarbonização, quando instala uma tecnologia renovável reduz a sua fatura, porque passa a consumir a energia que produz em vez de a comprar à rede. Além disso, se produzir a mais, ainda pode vender o excedente à rede.

Qual o primeiro passo?

Conhecer o perfil de consumo, ou seja, quanto gasta, a que horas e que tipo de energia. Para isso basta pedir um ciclo anual de faturas ao comer­cializador ou um diagrama de cargas à E-Redes. Ambos são gratuitos. Depois deve perceber o que é melhor para a sua atividade. “Se gasta muito de dia e pouco à noite, a melhor opção é o solar. Mas se for uma fábrica que funciona 24 horas, já terá de juntar um sistema de armazenamento”, explica Nuno Brito Jorge. Pode também optar por minieólicas, que são uma boa solução em áreas rurais, ou por uma central de biomassa, “mas isso já faz mais sentido para indústrias que tenham os resíduos”, diz o especialista em energia João Peças Lopes.

Tenho uma fábrica de cerâmica/vidro. O que devo fazer?

Como estes fornos precisam de gás natural para chegar a altas temperaturas, a única alternativa, diz Peças Lopes, é o hidrogénio verde, mas ainda não há produção no país. Quando houver, basta modificar os queimadores, porque a compra e entrega do hidrogénio é igual à do gás natural, com a vantagem de que pode ser mais barato. Por agora, para reduzir os consumos — até porque o preço do gás está sete vezes mais caro face ao início do ano — aposte na eficiência energética ou invista em sistemas de captura ou de compensação de carbono.

Preciso de licenças para fazer estes projetos?

O Decreto-Lei nº 15/2022 diz que, quando uma empresa instala uma tecnologia renovável, passa a ser produtora de energia e, por isso, precisa de uma licença de produção e exploração, que é emitida pela Direção-Geral de Energia e Geologia no prazo máximo de um ano. Há, contudo, vários tipos de licenças, daí que seja útil consultar o decreto-lei.

Quanto custam estes projetos?

Depende da atividade que exerce, da tecnologia escolhida e dos megawatts instalados. Hoje, o solar é o mais barato — até um euro por cada watt instalado — e depois as eólicas e a biomassa.

Que modelos de investimento existem?

Pode contratar uma empresa para fazer a instalação, tira a licença, paga-lhe e já está. Mas também pode juntar-se a outras empresas numa comunidade de energia e dividir o custo da instalação e da gestão. Pode também fazer um Acordo de Compra de Energia (PPA na sigla em inglês), no qual um produtor de eletricidade renovável faz o investimento e acorda ficar a vender-lhe toda a energia produzida. Pode ainda não instalar nada e comprar certificados de origem, que atestam que a eletricidade que consome é 100% renovável.

Quanto tempo demora a recuperar o investimento?

Também depende do tipo de projeto e se vai ou não vender o excedente à rede. Hoje, com o custo dos equipamentos a descer e o preço da energia a subir, o tempo de recuperação do capital pode ser reduzido em dois anos.

E há modelos sem investimento inicial?

Sim e são “uma boa opção para quando o capital não é muito”, diz Peças Lopes. Liga a um comercializador, ele assume o investimento e depois fica a pagar-lhe uma percentagem do que poupa na conta da luz por ter uma instalação renovável. E no final do contrato pode comprar o equipamento mais barato. Outra opção passa por alugar uma instalação.

Há apoios públicos?

Sim. No Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) há €908 milhões, dos quais €185 milhões para hidrogénio e renováveis, €50 milhões para eficiência energética e €715 milhões para a descarbonização da indústria. No Innovation Fund há €38 mil milhões e no Portugal 2030 mais €867 milhões, dos quais €200 milhões são para a produção de energia a partir de renováveis e €52 milhões para projetos de autoconsumo e comercialização de renováveis. Os restantes €615 milhões são para a descarbonização da economia.

Como me candidato?

Para o PRR, usa-se o site do IAPMEI, do Fundo Ambiental e do Balcão 2020. No Innovation Fund usa-se o Funding and Tender Portal, da Comissão Europeia; e o PT2030, que arranca em 2023, deverá ser como no PRR.

O que é o Acelerador de Sustentabilidade?

O Acelerador de Sustentabilidade é um projeto dirigido, maioritariamente, a Pequenas e Médias Empresas (PME) — que são a maioria do tecido empresarial português — e consiste na realização de sessões de formação onde se apresentarão os passos para ser mais sustentável em seis temas: descarbonização; energias renováveis; turismo, agricultura e imobiliário mais sustentáveis; e economia circular. No total, serão seis sessões ao longo de seis meses e em seis cidades do país, que serão orientadas por representantes do BPI, da Nova Business School, da consultora de gestão EY, e da consultora de inovação Beta-i. Em simultâneo, serão publicados na edição impressa do Expresso, também ao ritmo de um por mês, seis guias sobre como as empresas podem acelerar a sustentabilidade. O primeiro, sobre descarbonização, saiu em julho, e este é já o segundo, sobre renováveis. O terceiro guia, sobre turismo sustentável, será publicado a 21 de outubro; o quarto e o quinto, respetivamente sobre agricultura sustentável e economia circular, saem a 4 e 25 de novembro. O último ainda não tem data.

O acelerador das empresas

Seis meses, seis sessões de formação, seis eventos em seis cidades, seis guias, seis temas — descarbonização, energias renováveis, turismo, agricultura e imobiliário mais sustentáveis e economia circular. Esta é a base do Acelerador de Sustentabilidade, um projeto para as pequenas e médias empresas (PME) organizado pelo Expresso e o BPI. Estratégias, conselhos e passos para descarbonizar e ter um negócio sustentável.

Textos originalmente publicados no Expresso de 22 de setembro de 2022