Projetos Expresso

Biotecnologia como uma esperança da Humanidade?

O que tem a carne a ver com biotecnologia? Vários engenheiros biomédicos têm dedicado os últimos anos a produzir carne verdadeira sem abater um único animal. Cada vez mais, este será o futuro à mesa
O que tem a carne a ver com biotecnologia? Vários engenheiros biomédicos têm dedicado os últimos anos a produzir carne verdadeira sem abater um único animal. Cada vez mais, este será o futuro à mesa
Getty Images

Inovação: entre 2011 e 2019, o volume de negócios do sector cresceu 33%, mas é preciso mais para aproximar Portugal da média europeia. Peritos apontam que o país tem massa crítica e recursos humanos, falta mais captação de investimento

Francisco de Almeida Fernandes

O desenvolvimento da ciência é um processo permanentemente inacabado e a bio­tecnologia é disso exemplo. Da saúde à alimentação, são várias as áreas que a engenharia genética está a revolucionar ao ritmo dos avanços tecnológicos. Nas ciências da vida, a pandemia foi, até agora, o pináculo do seu potencial. “Sem bio­tecnologia estávamos ainda todos com máscaras, apavorados e dentro de uma gruta”, afiança o investigador Bruno Silva-Santos, do Instituto de Medicina Molecular (iMM). Os peritos apontam que Portugal tem as condições para vingar neste sector a nível internacional, mas para que o sonho seja alcançado é preciso quebrar barreiras ao seu desenvolvimento.

“A biotecnologia, apesar de ainda ser um sector de pequena dimensão, tem um grande potencial de transformação”, acredita Simão Soares. O presidente da associação P-Bio não tem dúvidas de que o país “pode ser um hub” de especialização nesta área, com capacidade para ter presença forte nos “mercados globais”. Entre 2011 e 2019, o volume de negócios do sector cresceu 33%. Mas é preciso mais. De acordo com dados do estudo “Portugal Biotech”, o volume de negócios destas empresas inovadoras atingiu, em 2019, o patamar de €36,5 milhões — uma média de €337,8 mil por cada empresa. Na União Europeia a média fixa-se nos €10,4 milhões por empresa.

O contributo para o equilíbrio da balança comercial por via da exportação poderá vir a crescer. Atualmente, metade das biotech nacionais exportam já cerca de 60%, valores que podem aumentar em percentagem e em valores absolutos se forem ultrapassadas as barreiras que ainda estrangulam o crescimento. Entre as principais, o investigador Henrique Veiga Fernandes, da Fundação Champalimaud, destaca a retenção de talento especializado, um ecossistema de empresas “dinâmicas e prontas para assumir o risco”, bem como a capacidade de atração de investimento a médio e longo prazo. “O financiamento público e privado precisa de ser sustentável [no tempo e na previsibilidade] e um compromisso da sociedade”, aponta.

A “importância estratégica” da bio­tecnologia em Portugal é inegável, considera a presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). A também investigadora nesta área aponta que um dos trunfos do país é a sua “massa crítica”, bem como “o conhecimento e infraestruturas de qualidade”. Estes são elementos fundamentais para o desenvolvimento do sector, que a comunidade científica pretende que seja capaz de gerar casos de sucesso como o da Lymphact, uma empresa nascida nos laboratórios do iMM e da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. “Fomos, creio, a única empresa de biotecnologia com eco internacional”, afirma Bruno Silva-Santos, que recorda a venda da startup em 2018.

A investigação que liderou sobre imunoterapia aplicada à leucemia conquistou resultados positivos no tratamento da doença oncológica e hoje, quatro anos depois, faz parte de um ensaio clínico que decorre nos Estados Unidos. Os resultados sobre a eficácia da terapêutica só serão conhecidos daqui a dois anos, mas nem por isso o trabalho no laboratório parou. “Estamos a começar com o cancro colorretal e vamos investigar [a aplicação a] outros cancros sólidos”, partilha. O sucesso alcançado com a Lymphact, atualmente parte da farmacêutica Takeda, levou o iMM a reformular a visão sobre o empreendedorismo científico, de tal forma que conseguiu recentemente captar €30 milhões de investimento estrangeiro para uma nova ideia, que permanece, para já, secreta. Porém, lamenta: “Temos um país pobre e na área do investimento é realmente muito pobre.”

Apostar para crescer

Em Portugal há três clusters da biotecnologia que estão a merecer o apoio e investimento dos municípios de Oeiras — que se prepara para abrir uma bioincubadora —, Cantanhede e Braga. Neste último caso, a Startup Braga tem “mais de 40 projetos na área e cerca de €18 milhões de financiamento angariado”, confirma o responsável, Luís Rodrigues, que sublinha ainda os mil postos de trabalho criados ao longo dos anos por todas as empresas ali acolhidas. Em Cantanhede, o município apostou, há duas décadas, na construção do Biocant, um parque tecnológico com quatro edifícios dedicados à promoção da inovação em biotecnologia. Além da fixação de talento, o sector tem dinamizado a economia local e, espera João Moura, poderá vir a ter forte impacto nas contas do país. “Temos potencial para ter um papel importante na Europa e no mundo”, acredita o antigo presidente da autarquia.

FRASES DO EVENTO

“Penso que o nosso país tem uma oportunidade dourada para desenvolver o filão do conhecimento. Acreditamos neste sector”

António Costa Silva
Ministro da Economia

“Além de capital intensivo, os recursos humanos são altamente especializados e não conseguimos todos os que pretendíamos para o desenvolvimento desta área”

Filipe Assoreira
Chairman da P-Bio

“Portugal tem o dobro das patentes da média europeia e isso quer dizer alguma coisa. O sector tem impacto positivo na economia, e acredito que também é possível aqui”

Anant Murthy
Diretor-geral da Argenx

DOIS BONS EXEMPLOS DO QUE SE FAZ PELO MUNDO

Disrupção na alimentação

Formado em Engenharia Biomédica, Vítor Espírito Santo trabalha na Califórnia, EUA, onde ajuda a produzir carne em laboratório. A ideia passa por evitar o abate animal, reduzir a pecuária e, com isso, contribuir para a sustentabilidade do planeta. É diretor de Agricultura Celular na Eat Just, empresa que, além da carne, produz ovos in vitro. O mesmo sabor, mas sem o custo para o ambiente.

Combustíveis mais verdes

As viagens de avião representam 2% a 3% das emissões de CO2 para a atmosfera, uma realidade que a finlandesa Neste quer alterar. A solução é o desenvolvimento de biocombustíveis a partir de resíduos de várias indústrias para o sector da aviação. Atualmente produz cerca de 100 mil toneladas por ano, mas espera vir a atingir 1,5 milhões até ao final de 2023. Esta alternativa, que permite reduzir até 80% as emissões de CO2, será utilizada nos aviões da TAP através de uma parceria com a ANA e a Galp, que quer passar a produzir a solução em Sines.

BIOMEET 2022

Portugal está entre os países mais inovadores na área da biotecnologia e a P-Bio organizou em boa hora a Biomeet 2022, evento ao qual o Expresso se associou. Juntou na Semana Europeia da Biotecnologia cientistas, líderes empresariais e decisores políticos em torno da importância da biotecnologia para o desenvolvimento científico e económico do país.

Textos originalmente publicados no Expresso de 23 de setembro de 2022

Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail: clubeexpresso@expresso.impresa.pt

Comentários

Assine e junte-se ao novo fórum de comentários

Conheça a opinião de outros assinantes do Expresso e as respostas dos nossos jornalistas. Exclusivo para assinantes

Já é Assinante?
Comprou o Expresso?Insira o código presente na Revista E para se juntar ao debate
+ Vistas