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Europa tem que reindustrializar-se e encurtar cadeias de abastecimento

1 junho 2022 22:29

Fátima Ferrão

António Nogueira Leite, economista e chairman da Hipoges, Nelson Pires, diretor-geral da Jaba Recordati, e Sandra Balão, professora associada do ISCSP, participaram na conferência 'Parar para Pensar: Globalização', a primeira de seis que decorrerão ao longo das próximas semanas. A conversa foi moderada pela jornalista da SIC, Marta Atalaya (à esquerda)

nuno fox

Países da União Europeia precisam de garantir sustentabilidade energética e autossuficiência alimentar. Portugal pode ser porta de entrada da energia no ‘velho continente’, dinamizar a indústria e aproveitar a tecnologia e mão de obra qualificada para consolidar o investimento no sector aeroespacial, em que está a dar os primeiros passos

1 junho 2022 22:29

Fátima Ferrão

A Europa tem, defendem os especialistas, de deixar de ser apenas uma plataforma neutra de negócios e começar, desde já, a trabalhar para reduzir a sua dependência de outros mercados, perante um risco geopolítico que passou a ser real. A globalização, cuja ascensão teve início na década de 80 do século XX, tende a perder pujança, uma tendência que já se manifesta há mais de uma década, desde a crise financeira de 2008. Que disrupções provocaram dois anos de pandemia e que impactos estão já a sentir-se como efeito direto e indireto da guerra na Ucrânia? Questões que motivaram a conversa que decorreu esta tarde na sede do Grupo Impresa, em Paço de Arcos, e que serviu de arranque à terceira edição da iniciativa ‘Parar para Pensar’, promovida pelo Expresso com o apoio da Deco Proteste.

Sob o signo da globalização e dos seus desafios, a jornalista da SIC, Marta Atalaya, conduziu o debate que juntou António Nogueira Leite, economista e chairman da Hipoges, Nelson Pires, diretor-geral da Jaba Recordati, e Sandra Balão, professora no Instituto de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP). De entre as principais conclusões fica a ideia, unânime, de que a Europa precisa de reconstruir a sua indústria, reduzindo a dependência de países de outros continentes, como a China, e de que a pandemia demonstrou ao mundo que as cadeias de abastecimento devem ser de proximidade, evitando constrangimentos em momentos de turbulência. “As cadeias de abastecimento longas provaram ser ineficientes e pouco rentáveis”, diz Nelson Pires que, acrescenta: “temos que fabricar mais perto, o que abre espaço a novas oportunidades para a indústria europeia”.

Por outro lado, os participantes no debate defendem que a União Europeia (UE) tem que trabalhar no sentido da independência energética. “Esta é uma oportunidade para Portugal que pode ser uma porta para a Europa”, salienta Nelson Pires. Uma opinião partilhada por António Nogueira Leite que refere o esforço que o Governo está a fazer para que o porto de Sines possa receber o gás liquefeito proveniente do norte de África, e de outros pontos do mundo, com vista à distribuição pelos restante estados-membros. “Temos a possibilidade de conseguir concretizar a tão almejada ligação da Península Ibérica com a Europa através dos Pirenéus e que, até agora, tem tido o bloqueio da França”. Se isto acontecer, reforça o economista, o país poderá tirar partido do investimento precoce na adoção de energias limpas para criar uma autonomia saudável. “E para atrair os parceiros certos para acelerar a indústria a montante desta atividade”, acrescenta.

Rita Pinho Rodrigues, da Deco Proteste, interviu antes do painel de discussão

Rita Pinho Rodrigues, da Deco Proteste, interviu antes do painel de discussão

nuno fox

Sandra Balão defende também que Portugal pode reforçar a presença em novos sectores, como o da indústria aeroespacial, aproveitando a tecnologia e o conhecimento e competências em engenharia, pelos quais já é internacionalmente reconhecido. “Este pode ser mais um elemento positivo para a consolidação da indústria nacional”.

Outras conclusões:

  • “Portugal deve focar-se em pequenos nichos de mercado que a Europa abandonou, tais como, a produção de medicamentos biológicos, o desenvolvimento do sector agrícola, ou a engenharia do mar, tirando partido da sua localização geográfica e da mão de obra especializada”, disse Nelson Pires.
  • “Há hoje uma maior consciência, entre os países da UE, de que a segurança e a defesa são áreas prioritárias de investimento”, defende Sandra Balão. Na perspetiva da professora do ISCSP, a opinião pública dos países mostra-se agora mais favorável a este reforço. “Há vontade política e orçamento da União neste sentido”, reforça.
  • “A sociedade vai continuar a ser mais global do que nos anos 80, e menos do que há 10 anos”, acredita António Nogueira Leite que não tem dúvidas de que “há muito a aprender com estas crises”.