Projetos Expresso

Emprego científico representou €126 milhões em 2020

3 maio 2021 15:29

Francisco de Almeida Fernandes Infografia: Xolitos

Garantir condições de carreira a jovens investigadores é prioridade da União Europeia

josé fernandes

Projetos Expresso. Financiamento. Portugal triplicou, desde 2018, o apoio aos investigadores, garante Manuel Heitor, ministro da Ciência. UE tem mais €23 mil milhões para a inovação

3 maio 2021 15:29

Francisco de Almeida Fernandes Infografia: Xolitos

A coordenação entre economia e ciência é, defende Manuel Heitor, cada vez mais importante para aumentar a disponibilidade de financiamento à investigação e desenvolvimento (I&D). “Para termos mais investimento, temos de ter mais valor, mas para termos mais valor precisamos de mais investimento”, explica o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior em entrevista ao Expresso. Este é, de resto, o plano traçado pelo Governo para a próxima década — chegar a 2030 com 3% da riqueza produzida pelo país canalizada para I&D. “Desde 2000, a Europa tem estado estagnada nos 2% do PIB. Em 2015, Portugal tinha 1,2% e hoje tem 1,6%, portanto temos de crescer mais em termos de financiamento”, diz o responsável pela pasta.

Apesar da trajetória crescente, há ainda muito trabalho por fazer para garantir que o ecossistema inovador português seja pujante e consiga competir a nível internacional. Enquanto o ministro pede “mais pessoas e um reforço ao financiamento das instituições”, o reitor da Universidade do Porto, António de Sousa Pereira, acredita que é preciso “reduzir as desvantagens competitivas das instituições nacionais, reforçando os seus recursos”. João Gonçalves, investigador do iMED, considera esta questão fundamental e diz que “não podemos demorar 20 anos a comprar equipamentos que têm um tempo de vida de três ou quatro anos”. Sousa Pereira, que preside também ao Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, afirma ainda que existe “muita burocracia administrativa, emprego científico precário e um corpo de investigadores envelhecido”, fatores que diminuem a competitividade das instituições.

O desenvolvimento de carreiras científicas na Europa foi, atesta Manuel Heitor, “o tema central da presidência portuguesa” ao longo dos últimos meses. “A ideia de que é preciso ter mais investigadores passa por ter melhores condições de carreira, sobretudo para os jovens”, diz. Este “obstáculo” comum aos diferentes Estados-membros pode ser ultrapassado com recurso aos diferentes programas comunitários de apoio, como o Horizonte Europa. Lançado este ano pela liderança portuguesa do Conselho da União Europeia, o pacote de incentivos ao I&D cresceu cerca de 43%, para €96 mil milhões, face ao seu antecessor, o equivalente a mais €23 mil milhões disponíveis para a inovação científica. “A nova geração de fundos comunitários representa uma oportunidade imperdível de retomar o investimento na requalificação e reequipamento das instituições de ensino superior”, garante António de Sousa Pereira. Apesar de uma dotação orçamental maior, o reitor diz que “mais importante é a estratégia para aplicar com eficácia e proficiência o dinheiro disponível”, mas reconhece que o plano traçado no Horizonte Europa é “acertado” e equilibrado pelas áreas em que aposta — ambiente, competitividade europeia e cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Colaboração é essencial

Em território nacional, a principal fonte de financiamento a projetos de investigação científica é a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), cujo orçamento tem vindo sempre a aumentar desde 2017. Ainda assim, os investigadores queixam-se da dificuldade em aceder aos fundos pela baixa percentagem de aprovação dos concursos (no último, em novembro, rondou os 5%) e, sobretudo, da falta de regularidade. “Se os investigadores o sentem, há sempre a possibilidade de melhorar”, diz Manuel Heitor, acrescentando que “não devemos desistir de aumentar mais o investimento da FCT”.

Contudo, o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior mostra que entre as “várias formas de financiar a ciência” há muitas que têm vindo a crescer. É o caso da formação avançada, com oferta regular e a duplicação, nos últimos cinco anos, do número de bolsas atribuídas, mas também do emprego científico. Esta rubrica orçamental dirigida a investigadores doutorados triplicou, representando “cerca de €126 milhões” investidos em 2020. “Podemos dizer que é pouco e que precisamos de mais, mas a execução da FCT não deixou de crescer desde 2015”, refere.

Além do financiamento, a colaboração entre academia e indústria e o estabelecimento de redes europeias de inovação são questões apontadas como fundamentais para o aumento da competitividade europeia. Um exemplo desta interação está “nos laboratórios colaborativos, que são coordenados pela indústria e onde aparecem como participantes importantes as universidades”, detalha João Carlos Lima, professor da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Sousa Pereira considera que ainda “há um longo caminho a percorrer” neste campo, embora sublinhe a evolução positiva das últimas décadas. Quer a política, quer a educação reconhecem que o reforço de I&D é a chave para uma Europa mais resiliente, justa e sustentável.

Investigação científica na base do crescimento europeu

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Textos originalmente publicados no Expresso de 30 de abril de 2021