Acelerador de Sustentabilidade

Medidas para tornar a agricultura mais ecológica

4 novembro 2022 19:02

Ana Baptista e Carlos Monteiro

carlos monteiro

Guia: o sector que alimenta o mundo também se está a tornar mais sustentável, mas ainda há muito a fazer. A tecnologia e a digitalização ajudam, mas é a mexer nas tradicionais práticas agrícolas que se obtêm melhores resultados

4 novembro 2022 19:02

Ana Baptista e Carlos Monteiro

Ter uma agricultura mais sustentável não é só reduzir as emissões, principalmente as de metano (da criação dos bovinos) e as de óxido nitroso (do uso de fertilizantes). Acima de tudo, é fazer uma melhor gestão das práticas agrícolas, dos resíduos, do consumo de água e energia, dos transportes usados e até da mão de obra contratada. O primeiro passo a dar é, por isso, medir o impacto no ambiente, na saúde humana e na sociedade, e isso exige uma análise de todo o ciclo de vida do produto, desde a origem dos adubos até à forma como o produto é vendido e exportado.

Quais as medidas mais imediatas a adotar?

Escolha culturas e formas de trabalhar o terreno adequadas ao clima e ao tipo de solo, porque isso vai evitar usar pesticidas. Mesmo só utilizando os que são permitidos pela União Europeia, o mais sustentável é usá-los o menos possível. Deve também conjugar vários tipos de culturas e criar ­áreas de proteção ecológica, como reservas animais ou floresta, para equilibrar o ecossistema natural. Poderá ainda criar áreas de polinização, por exemplo plantando rosmaninho para atrair abelhas. Reutilize ao máximo os resíduos e a matéria orgânica, que pode usar para fazer fertilizantes naturais (compostagem) ou biomassa, que pode vender para a produção de energia ou para produzir a sua própria energia, mas para isso tem de investir numa central. Faça ainda um consumo eficiente da água, como armazenar a água da chuva e/ou optar por sistemas digitais de rega. Por fim, reduza os plásticos e/ou substitua-os por papel e cartão reciclado, e, se usa vidro, prefira o reciclado.

Então, como reduziras emissões?

Na criação de animais, comece por mudar a alimentação. Já existem soluções à base de microalgas ou de suplementos que nos bovinos fazem com que libertem menos gases e, no geral, fazem com que fiquem mais cheios com menos comida. Não só reduz as emissões como poupa dinheiro. Depois, plante árvores de espécies duradouras. Por exemplo, se cria porco preto, plante sobreiros: captam carbono, produzem bolotas para os animais e pode usar os dejetos como fertilizante natural. E, por falar em fertilizantes, se os compra, saiba como são produzidos e de onde vêm, porque se vierem de longe está a emitir mais por causa do transporte. Mas o melhor é fazê-los através da compostagem.

E para baixar as emissões do consumo de energia?

Comece por gerir melhor os consumos. Pode fazê-lo por si, mas a tecnologia é um aliado da sustentabilidade e já há sistemas digitais que o fazem. Para o consumo — neste caso elétrico — que não consegue mesmo reduzir, instale painéis solares e/ou sistemas de armazenamento, que lhe permitem usar a energia guardada para regar à noite.

E baixar a dos combustíveis?

Mais uma vez tem a ver com uma melhor gestão do negócio, e uma das opções é aumentar as vendas locais, como fazer parcerias com supermercados ou restaurantes que apostam no modelo ‘do prado para o prato’. Nas exportações, e se não puder escolher mercados mais próximos, escolha opções de transporte mais amigas do ambiente. Outra solução é introduzir carros e até máquinas elétricas, como empilhadoras.

Isso custa muito dinheiro?

Todas as medidas que envolvem infraestruturas ou tecnologia vão ter um custo, mas a maior parte delas são intervenções nas práticas agrícolas, e “isso não custa nada, basta pensar”, diz a equipa de sustentabilidade da consultora EY. Mas o mais importante, acrescenta, é perceber que estas alterações também contribuem para reduzir custos e aumentar os rendimentos. Por exemplo, se usar menos pesticidas e fertilizantes químicos, irá poupar dinheiro. E ao introduzir no mercado produtos provenientes de uma agricultura mais sustentável pode vendê-los a um preço superior. ­Aliás, de acordo com a consultora, há uma procura crescente por alimentos biológicos ou provenientes de empresas ambiental e eticamente responsáveis.

Mas há apoios públicos?

Sim, €3,37 mil milhões para se candidatar ou utilizar até 2030. Destes, €36 milhões são o que sobra do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e são para produção sustentável e inovadora; €635 milhões estão no Portugal 2030 para projetos de economia circular, uso eficiente dos recursos e renováveis, e €2,65 mil milhões são do Plano Estratégico de Política Agrícola Comum (PEPAC), onde se incluem €2,13 mil milhões de apoios diretos quando implementadas medidas de sustentabilidade e mais €525 milhões para projetos em zonas rurais e regadios coletivos. Está ainda previsto um reforço de €46 milhões do Programa de Desenvolvimento Rural (PDR) 2014-2020, mas só para instalar painéis solares.

E posso recorrer à banca?

Sim. Quase todos os bancos têm linhas de crédito específicas que, por serem para projetos sustentáveis, têm apoios do Banco Central Europeu e podem ter condições mais favoráveis, mesmo em tempo de juros mais altos.

O Acelerador das Empresas

O acelerador das empresas Seis meses, seis sessões de formação, seiseventos em seis cidades, seis temas — descarbonização,energias renováveis, turismo, agricultura e imobiliário maissustentáveis e economia circular —, seis guias: depoisda descarbonização, das renováveis e do turismo, é agora a vez da agricultura. O quinto e sexto guias, respetivamente sobre economia circular e imobiliário, serão publicados a 25 de novembro e a 9 de dezembro. Esta é a base do Acelerador de Sustentabilidade, um projeto para as pequenas e médias empresas (PME) organizado pelo Expresso e o BPI. Estratégias, conselhos e passos para descarbonizar e ter um negócio sustentável.

Textos originalmente publicados no Expresso de 4 de novembro de 2022