Guerra na Ucrânia

Assassinato da filha do "ideólogo" do Kremlin: investigadores russos culpam Ucrânia, média estatais pedem vingança, Putin envia condolências

22 agosto 2022 13:27

As autoridades russas dizem ter resolvido o caso do assassinato de Darya Dugina

anadolu agency

O Serviço Federal de Segurança da Rússia disse que o ataque foi realizado por uma mulher ucraniana, que chegou à Rússia em julho com a filha. As autoridades russas garantem que o “crime foi preparado e cometido pelos serviços secretos ucranianos”.

22 agosto 2022 13:27

Natalia Vovk: assim se chama, de acordo com as autoridades russas, a mulher ucraniana responsável pelo ataque que conduziu Darya Dugina à morte. O Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB) acusou os serviços especiais ucranianos de planearem e concretizarem o assassinato da filha do ideólogo russo ultranacionalista, Aleksandr Dugin, informou a agência de notícias Interfax.

A Ucrânia já tinha rejeitado o envolvimento no homicídio ocorrido na noite de sábado, nos arredores de Moscovo. O veículo da comentadora política e filósofa russa tinha sido artilhado com bomba.

Os investigadores russos afirmaram agora que o assassinato de Darya Dugina foi preparado e realizado por agentes dos serviços especiais da Ucrânia, que terão viajado para a Estónia após o ataque.

O FSB detalhou que o ataque foi realizado por uma mulher ucraniana nascida em 1979. De acordo com a história contada pelas autoridades russas, a mulher, Natalia Vovk, e a sua filha adolescente chegaram à Rússia a 23 de julho e passaram um mês a preparar o ataque. Para isso, alugaram um apartamento no mesmo bloco habitacional de Darya Dugina e investigaram o estilo de vida da filha do intitulado "cérebro de Putin".

A autora do homicídio terá participado num evento nos arredores de Moscovo na noite de sábado, no qual Darya Dugina e o pai se encontravam presentes. Depois, terá provocado uma "explosão controlada" do carro em que Dugina seguia e terá fugido da Rússia para a Estónia, segundo o FSB.

As condolências de Putin

O Presidente russo, Vladimir Putin, enviou condolências à família: "Um crime desprezível e cruel acabou prematuramente com a vida de Daria Dugina, uma pessoa brilhante e talentosa com um coração verdadeiramente russo", disse numa mensagem divulgada pelo Kremlin.

Em 2014, Dugin disse à BBC que a guerra entre a Rússia e a Ucrânia era "inevitável" e pediu a Putin que interviesse militarmente "para salvar a autoridade moral da Rússia".

Darya Dugina, de cerca de 30 anos, seguiu os passos do pai como comentadora ultranacionalista que promove a ideia de uma Rússia imperialista e agressiva, e aparecia com frequência na televisão estatal.

Fontes próximas à comentadora foram rápidas a culpar a Ucrânia pelo ataque, e alguns dos elementos do seu círculo mais íntimo apelaram mesmo a que fossem iniciados ataques de retaliação contra o país. O Kremlin ainda não comentou o atentado.

"O assassinato da minha filha foi um ato terrorista do regime ucraniano nazi"

O pai de Darya Dugina, Aleksandr Dugin, já reagiu à morte da filha, tendo considerado o óbito produto de "um ato terrorista do regime ucraniano nazi". O filósofo russo afirmou ainda: "A minha filha foi brutalmente assassinada à minha frente. Ela era uma linda mulher ortodoxa, patriota, repórter de guerra, especialista em televisão e filósofa. Só precisamos da nossa vitória. A minha filha sacrificou a sua jovem vida. Então, por favor, conquistem-na!".

É uma narrativa que tem encontrado adeptos entre os principais protagonistas da comunicação social russa. Algumas personalidades dos 'media' estatais russos estão a apelar a que sejam realizados ataques contra "centros de tomada de decisão" na Ucrânia, após a morte de Darya Dugina.

Fúria e apelo à vingança nos órgãos de comunicação estatais russos

Nesta manhã, um programa da televisão pública russa prestou homenagem a Dugina, uma convidada regular. "Ela morreu pela ideia do 'Mundo Russo'", disse a apresentadora Olesya Loseva.

Um convidado em estúdio sugeriu que a resposta fosse uma “santa fúria”, e o programa prosseguiu mostrando uma fotografia de morteiros pertencentes às forças pró-russas na Ucrânia. Em algumas das peças de guerra podia ler-se: "Isto é para Darya!” Se o assassinato de Dugina pretendia intimidar a Rússia, gritaram vários convidados, “terá o efeito oposto”.

Margarita Simonyan, editora-chefe do canal televisivo RT, apoiada pelo Kremlin, escreveu no Telegram quais os alvos que deveriam ser definidos na Ucrânia: "Centros de decisão! Centros de decisão! Centros de decisão!!!"

Em resposta à publicação, Volodymyr Rogov, um funcionário pró-Rússia que trabalha numa região ocupada da Ucrânia, partilhou as moradas do serviço de segurança da Ucrânia (SBU), da administração presidencial e da direção dos serviços secretos.

Tigran Keosayan, outra personalidade da televisão em Moscovo, posicionou-se no seu canal Telegram, dizendo estar "cansado de tanta conversa" e apelando às detenções arbitrárias: "Não entendo por que não prender todas as criaturas que zombam da morte de Darya. Não entendo por que é que os nossos 'adormecidos' em Kiev ainda não acordaram. Não entendo por que é que nas cidades do meu país é possível arrecadar dinheiro abertamente para as Forças Armadas da Ucrânia. Não entendo por que ainda existem prédios na rua Bankova, em Kiev."