Guerra na Ucrânia

Emboscadas, sabotagens e denúncias: como os cidadãos comuns resistem à ocupação russa

2 junho 2022 17:59

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

A ironia faz parte da guerra. Aqui um elemento das forças de defesa ucranianas usando uma máscara dos Anonymous na nuca

aris messinis/getty images

Tiros certeiros e ataques à bomba já mataram largas dezenas de russos e de pró-russos. Há canais nas redes sociais que ensinam a praticar boicotes e que identificam alvos a abater. Como em todas as guerras, há elementos ativos nos dois lados da barricada

2 junho 2022 17:59

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Denúncias às autoridades - sobre a localização de veículos do exército russo, por exemplo - e atos de sabotagem mais ou menos isolados - que já resultaram em dezenas de mortos - têm sido uma arma importante da resistência ucraniana à invasão por parte da Rússia.

Diz-se que o homem se adapta a tudo e é precisamente isso que fazem estes resistentes, que são muitas vezes também sabotadores, cujos nomes e casos em que estiveram envolvidos se vêm conhecendo a conta-gotas.

Não há como ignorar o impacto da soma destes esforços: “Todas as noites lutamos contra grupos de sabotadores”, diz um soldado russo estacionado perto de Enerhodar durante uma comunicação via telefone intercetada no início do mês de maio. Mesmo os nervos de aço são continuamente testados por estes atos isolados e imprevisíveis: “Queremos sair daqui”, concluiu o mesmo elemento do exército russo citado numa reportagem do MailOnline.

Um homem aponta para o veículo destruído de um sabotador russo que foi apanhado em Kiev

Um homem aponta para o veículo destruído de um sabotador russo que foi apanhado em Kiev

nurphoto/getty images

Situada no sudeste da Ucrânia, Enerhodar seria corretamente descrita como uma cidade pequena, contando uns 53 mil habitantes antes do início da guerra. A sua importância é porém grande, uma vez que fornece milhares de trabalhadores para as duas centrais nucleares da região, uma das quais é a maior da Europa.

Quem são os responsáveis?

Um artigo no “New York Times” descrevia nos últimos dias de maio a dificuldade em apurar a origem de uma explosão que abalou o centro de Mariupol, no dia 30, criando abundantes e espessas colunas de fumo mesmo à porta da sede regional pró-Kremlin.

Nem as autoridades ucranianas nem as russas conseguiam deslindar quem teve a responsabilidade pelo ataque, porém o alvo não deixa dúvidas: era o líder autoproclamado da região, Yegvegney Balitsky, e a explosão fez três vítimas, entre as quais uma mulher identificada como sua sobrinha.

A provar-se que os autores do atentado eram ucranianos, tratou-se do “ato mais ousado de insurgência” praticado contra as forças russas que ocupam a cidade do sul da Ucrânia desde os primeiros dias da guerra. Ao todo, consta que estes guerrilheiros, aliados às forças especiais, já assassinaram pelo menos 100 soldados russos naquela cidade.

Bombas e tiros certeiros

“Esta manhã houve um ataque terrorista com vista a destabilizar a vida pacífica da cidade”, comunicaram na segunda-feira passada. via Telegram. as autoridades russas instaladas em Melitopol, citadas pelo “MailOnline”. O comunicado descrevia um veículo carregado de explosivos que explodira no centro da cidade, às 7h40, ferindo dois voluntários de “ajuda humanitária”, e prometia uma investigação rigorosa: “O Governo ucraniano continua a sua guerra contra a população civil e a infraestrutura das cidades”.

Os repórteres britânicos do “MailOnline”, site do "Daily Mail", recolheram testemunhos de habitantes locais que explicam, pelo menos em parte, o recrudescimento dos ataques e atos de sabotagem: “Ao princípio, os ocupantes eram reservados por isso o movimento guerrilheiro não era tão ativo. Mas agora eles começaram a tirar as propriedades às pessoas, a ficar-lhes com os carros e com os telemóveis. Andam a roubar as lojas comerciais e a torturar as pessoas que ocupavam os postos oficiais - vemos estes atos como uma resposta a isso”, explica Dmytro Orlov, o presidente da câmara eleito de Enerhodar.

No final de abril, o site “Odessa-Journal” contava a história de Kuleshov, o famoso blogger pró-russo que foi assassinado em Kherson, no sul da Ucrânia. O crime foi reportado pela imprensa local e confirmado pelos amigos do blogger. Kuleshov foi morto às 8h15 de 20 de abril, após ser alvejado num carro perto da entrada da sua casa, no distrito de Shumen. Sabia-se que o blogger trabalhou na polícia até 2015 e que, em 2016, começou a desenvolver intensa atividade nas redes sociais, aproximando-se do téorico da conspiração pró-russo Kirill Stremousov.

A invasão russa deu novo protagonismo a Kuleshov, que fazia frequentes diretos a partir dos campos de batalha. A ocupação russa de Kherson transformou-o num voluntário pró-russo.

A frente da informação é "menos sangrenta" mas também é determinante

Seja qual for o alcance das ações de boicote, o seu impacto não é de desprezar. A investigação do “Mail” apurou que ativistas criaram um canal no Telegram, com mais de 3500 seguidores, que publica fotografias dos alegados colaboradores, fornecendo detalhes sobre as atividades que desenvolvem, bem como os seus contactos pessoais. Para não deixar dúvidas sobre os seus intentos, o canal identifica os elementos das tropas russas com um sinal vermelho no centro da testa.

Segundo o criador do canal, que manteve o anonimato, ele destina-se a sublinhar que “a população não aceita as forças de ocupação russas” e para dar uma oportunidade aos cidadãos de “participar na exposição de traidores e colaboradores”. “A frente da informação é menos sangrenta mas não menos importante”, remata.