Economia

A capa da primeira edição do Expresso agora é um NFT, mas afinal... o que é isso e para que serve?

18 janeiro 2023 18:05

d3sign via getty images

Os investidores dizem que o mercado dos NFT é uma “aproximação aos jovens e ao futuro digital”, mas, em resumo, o que são estes “tokens não fungíveis”? E para que servem?

18 janeiro 2023 18:05

No dia 6 de janeiro de 2023 o Expresso fez 50 anos. O dia foi celebrado junto de vários convidados, ligados direta ou indiretamente ao Expresso. Mas não foi só de passado que foi feita a celebração, o futuro também esteve presente: jornal de tradições e agora quinquagenário, no dia do seu aniversário o Expresso juntou-se ao mercado dos NFT.

Na plataforma Open Sea estiveram à venda 50 NFT da primeira capa do jornal, que chegou às bancas a 6 de janeiro de 1973. A manchete dava conta que “63 por cento dos portugueses nunca votaram”. Tratava-se de uma sondagem, rara daqueles dias da ditadura, e pondo o dedo na ferida da ditadura. Aos dias de hoje, a primeira capa do Expresso tornou-se uma relíquia, ou um bom negócio: os 50 NFT foram vendidos em dois dias.

Guilherme Sanchez, consultor em criptoativos, ajudou o Expresso no projeto e mostra-se, até, surpreendido: “Curiosamente a evolução tem sido positiva, mesmo estando o mercado em baixa”. Explica que foi escolhida a plataforma Open Sea por ser “atualmente o melhor marketplace”, ou seja, local de venda. A blockchain escolhida foi a Ethereum.

O NFT do Expresso vale pelo seu valor histórico, mas não só. Guilherme Sanchez lembra que “para aumentar o valor do NFT, quem o adquiriu recebeu também uma assinatura digital do jornal”.

A verdade é que, no dia 6 de janeiro, o valor de compra de cada um dos 50 NFT foi de 0,025 Ethereum, que corresponde a cerca de 30 euros. Atualmente o valor está em 0,12 Ethereum, cerca de 170 euros aos valores de conversão atuais.

Mas voltemos ao início e expliquemos tudo isto.

O que são NFT?

NFT é a sigla para ‘non-fungible tokens’, em português ‘token não fungível’, ou seja, uma ficha/símbolo única, que não pode ser substituída ou transacionada e que tem como base identificadora um ficheiro informático.

Nuno Costa, colecionador e criador de NFT, vira ao contrário a definição para facilitar a quem não compreende. “Um item fungível é por exemplo o dinheiro. Isto porque eu posso trocar uma nota de cinco euros por outra nota de cinco euros, o valor é o mesmo e dá para agregar. Um token não fungível é algo único, não é divisível e não pode ser replicado. Até pode ser copiado, mas nunca vai ser o original, porque é único” - e pode ser identificado como tal.

O paralelismo entre o mercado dos NFT e o mercado de arte é feito inúmeras vezes pelos investidores ou entendedores do mercado. Isto porque ambas as economias se movem pelo facto de ser o mercado a ditar o valor da obra, já que o valor intrínseco de uma obra de arte (o preço dos materiais e do trabalho envolvido) é muitas vezes inferior ao preço que as pessoas estão dispostas a pagar. A única diferença é que um NFT não é palpável e é, por agora, transacionado num mercado não regulado.

Quem investe em NFT confia que o que comprou poderá ser vendido por um preço superior - ou seja, que se vai valorizar. E o mesmo acontece na arte: são os compradores que ditam quanto vale aquele quadro quando se disponibilizam a pagar certo preço para o comprar.

Há um momento de pico de transações numa venda de NFT, porque quantos mais investidores estiverem interessados, maior é a atenção dada àquele digital. É o chamado FOMO (fear of missing out, em português, medo de ficar de fora), ou seja, “se estão todos a investir naquele NFT, porque é que não irei investir também?”, explica Nuno Costa, acrescentando que é desta forma que o valor de venda vai subindo.

A ideia de que o NFT é uma peça única também é comparável ao universo artístico, já que “não é possível replicar um quadro, mesmo que seja pintado pelo mesmo artista, um quadro é único porque as pinceladas vão ser sempre diferentes”. O mesmo se aplica aos NFT, já que só existe um único original, só esse é que tem valor e essa veracidade é provada através da blockchain.

Na opinião de Diogo Pereira Duarte, co-coordenador da área de Direito Financeiro da Abreu Advogados e professor na Faculdade de Direito de Lisboa, este é um mercado “com muita iliteracia, ignorância e especulação”. Para o justificar, dá o exemplo dos valiosos NFT dos macacos, que “assumiram valores pouco proporcionais relativamente à utilidade que têm.”

Blockchain: O livro de registos de todas as “criptotransações”

Através da tecnologia da blockchain – a base das criptomoedas – é possível ver o histórico dos proprietários e o número e data das vendas. A blockchain funciona, no fundo, como um livro de registos públicos.

Cada NFT tem um contrato digital que o remete para um código na Blockchain com todas as suas informações, que não podem ser alteradas. Nuno Costa explica que “é esse contrato que depois remete para um ficheiro. Pode ser um ‘gif’, uma imagem, uma música, e no futuro pode até ser o contrato de uma casa ou o passaporte, numa possível futura blockchain centralizada”.

É pela diversidade de utilização deste mercado digital que Nuno Costa e Guilherme Sanchez acreditam que os NFT vieram para ficar, ainda que a esfera atual não seja animadora.

Mercado em baixa

Segundo Nuno Costa “o mercado foi abaixo com a guerra na Ucrânia. O panorama macroeconómico mostra isso mesmo”. Neste momento o número de transações é muito menor, o que faz os preços estarem mais estagnados.

Explica que o investimento que fez em meados de 2020 em NFT teve um excelente retorno nos primeiros oito meses. Mas admite que, “se quisesse vender ao dia de hoje, estaria a perder cerca de 80% […] os que se estão a aguentar mais são os NFT históricos”.

Apesar disto, ambos os investidores antecipam um futuro animador, uma vez que, afirma Guilherme Sanchez, “este é um mercado com muito potencial, inovador no seu modelo e é um mercado capaz de trazer aquilo que era uma realidade colecionável, ‘old school’, para uma realidade colecionável digital". Acredita também que o mercado dos NFT é uma aproximação aos jovens e ao futuro do mundo digital.

Diogo Pereira Duarte acrescenta que o mercado dos NFT “tem inúmeras potencialidades” e sublinha “a utilidade da blockchain como modo de transferir valor pela internet”, realçando não ter dúvidas de que "será o futuro digital”. No entanto, contrapõe, “a especulação deste mercado faz com que algumas entidades se aproveitem da iliteracia de algumas pessoas, utilizando também o FOMO [fear of missing out, ou em tradução direta, o “medo de ficar de fora”], daqueles que querem enriquecer rapidamente.”

Para já, podemos dizer que é um mercado ainda pouco explorado. Ao longo do tempo iremos descobrir se estes ativos digitais vieram para ficar.

Tem curiosidade sobre o mercado dos NFT ou acha que é uma moda passageira? Envie-me as suas sugestões e opiniões por e-mail.