Economia

Millenials e Geração Z recusam viver só para trabalhar: eis o que querem (e algumas dicas para manter equilíbrio entre lazer e trabalho)

12 janeiro 2023 18:38

Carlos Paes

Carlos Paes

Animação gráfica e Infografia

maskot - getty images

Há quem mude de emprego por outro a ganhar menos, quem garanta não ter disponibilidade para trabalhar todo o dia e, sobretudo, quem deixe bem claro as condições em que quer funcionar. O Expresso resume dicas para manter o work-life balance e fala com três jovens em início de carreira sobre as opções de carreira das gerações mais novas

12 janeiro 2023 18:38

Carlos Paes

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Animação gráfica e Infografia

As gerações do digital, com mente aberta, preocupadas com o ambiente e emocionalmente angustiadas. As gerações que se preocupam com o dinheiro que recebem ao final do mês, mas sobretudo em garantir que terão tempo para jantar com os amigos, ir visitar as terras natais ou viajar pelo estrangeiro.

Serão estas as gerações que irão mudar o paradigma do mercado de trabalho, ou terá sido o mundo do emprego que contribuiu para a diferença na mentalidade destas gerações?

O facto é que a instabilidade do mercado português reflete-se no comportamento dos jovens. É o que explica Liliana Dias, psicóloga e membro do Conselho de Especialidade de Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações, da Ordem dos Psicólogos Portugueses: “As novas gerações perguntam-se por que vão investir em certa organização se não sentem qualquer tipo de reconhecimento, oportunidades ou perspetiva de crescimento.”

Por isso, também por isso, muitos procuram melhores condições noutras empresas ou noutras áreas - e outros tantos acabam por emigrar.

“Por que é que me vou estar a esforçar tanto?”

Para Marta Grilo, recrutadora na Noesis, de 31 anos, a instabilidade do mercado de trabalho português não é a única razão para mudança. “A minha geração ainda nasceu na mentalidade de que temos de trabalhar mais do que as 8h por dia. E sinto que depois da pandemia isso mudou”, explicou ao Expresso.

Marta é da mesma opinião que Liliana Dias — Os jovens pensam que não havendo recompensa por parte da empresa “por que é que me vou estar a esforçar tanto? […] se para mim é melhor parar à hora que está no contrato e ter tempo para ler um livro, fazer uma caminhada ou ir ao ginásio, por que não haverei de o fazer?”.

Foram os pequenos “prazeres da vida” que mais valorizámos durante a pandemia e que muitos, agora, não quiseram deixar de lado: não se justifica perder o acesso a esses "prazeres" a troco de tão pouco.

Claro que cada profissional é diferente e nunca é demais sublinhar isso. Há quem queira destinar mais horas do seu dia ao trabalho, há quem não o faça nunca, há quem só o faça às vezes. E tudo isso está certo. Mas a necessidade de ter algum tempo para desligar e descansar é generalizada.

É o caso de Tiago Aires Pereira, com 23 anos e natural de Viana do Castelo, que trabalhou num reality show durante nove meses, quatro deles como “estagiário” - ainda que tivesse experiência profissional na área onde se licenciou, comunicação social. Durante o período de “estágio” recebia €438 por mês e trabalhava por turnos.

Tiago disse ao Expresso que saiu no final do projeto. "Precisava de mais tempo para a minha vida pessoal, não me sentia valorizado nem com possibilidade de evoluir na empresa. Folgava durante a semana e não conseguia estar com a minha família nem amigos”, realça.

Surgiu uma vaga como produtor de conteúdos na B Produções, onde ganhava um pouco menos,- e a recibos verdes - mas mesmo assim decidiu candidatar-se. Tiago diz que que agora tem um trabalho "com horário estável e condições. Apesar de não ser a profissão que quero ter no futuro, sinto-me valorizado e tenho tempo para aproveitar a minha vida pessoal, especialmente porque tenho de volta os meus fins de semana.

Que condições procuram os jovens? O teletrabalho já é quase requisito

A recrutadora da Noesis partilha com o Expresso que, quando tem uma entrevista com jovens, as perguntas que mais surgem são sobre a estabilidade da empresa, progressão de carreiras, os salários e a flexibilidade e cumprimento de horário, porque “ou ainda estão a estudar ou querem fazer um mestrado no futuro, ou simplesmente não querem sentir-se 'escravos', o que, infelizmente, era a realidade e a mentalidade dos nossos pais.”

Agora também é quase indispensável a pergunta da possibilidade de teletrabalho, “é quase um requisito da maior parte dos candidatos […] o trabalho 100% presencial já quase não é uma realidade no nosso país”.

Trabalhar só quatro dias

A semana de quatro dias está a florescer no mercado de trabalho português, impulsionada pelo projeto-piloto do Governo, onde diferentes empresas são candidatas e que será posto em prática já no verão deste ano.

No caso de Carlota Tavares, foi assim desde o início. Tem 24 anos e trabalha há um ano na ARX Portugal Arquitetos, que já tinha como dado adquirido este método de trabalho.

Os funcionários trabalham quatro dias por semana, mas cumprem 38h de trabalho. “Consigo que a minha vida não seja só trabalho, torna tudo mais fácil. Tenho mais tempo para sair de Lisboa, viajar, descansar e tratar de assuntos como ir aos correios, ao banco ou limpar a casa, tudo à sexta-feira", refere.

Carlota partilhou com o Expresso que se mudar de empresa no futuro, a possibilidade de trabalhar quatro dias por semana “vai ter muito peso na decisão”, isto porque com este método “o trabalho não é o protagonista na minha vida, e eu acho que devemos caminhar por aí”.

Work-life balance

O conceito “work-life balance” ou “equilíbrio entre trabalho e a vida” é um pouco exigente e difere de pessoa para pessoa ou do tipo de trabalho desempenhado.

Para alguns jovens só faz sentido trabalhar 100% em teletrabalho (para ter a possibilidade de ser um nómada digital), para outros pode ser preciso estar sempre no escritório para aumentar a concentração e produtividade e outros ainda preferem uma versão híbrida.

Em qualquer caso há dicas transversais, que podem ser interpretadas tendo em conta cada um dos cenários. A psicóloga Liliana Dias fez uma lista que o pode ajudar a manter o equilíbrio.

Se não estiver a cumprir nenhum destes pontos, pode ser preocupante. É normal sentir algum cansaço e stress, mas no limite, pode mesmo tratar-se de burnout. Liliana Dias ajuda-nos a compreender este fenómeno, que é "provocado pela exaustão emocional”.

Mercado de trabalho vs. jovens

Para Liliana Dias, em Portugal, “a precariedade laboral falha a promessa" para com os jovens. "A promessa seria que eu vou investir na minha formação, vou conseguir trabalhar na área que quero, evoluir e ganhar autonomia financeira. Quando a promessa não é cumprida, o próprio jovem questiona quais as prioridades”.

Os Millennials e a Geração Z estão a mudar o mercado de trabalho ao torná-lo mais digital e menos linear, já que agora, o “novo normal é saltar de empresa para empresa", admite Marta Grilo. Mas o mercado também começa a adaptar-se aos jovens, valorizando as suas experiências fora do âmbito profissional e adaptando-se ao trabalho à distância ou com cargas horárias diferentes.

“Eu acho que é uma relação e um ajustamento mútuo. Os jovens têm de se esforçar e ser interessados em alcançar mais e as instituições têm de criar os contextos para que isso aconteça”, explica Liliana Dias.

Mas esse contexto não é apenas salarial. Existe todo um conjunto de falta de condições de trabalho, falta de progressão na carreira e trabalho extra não recompensado que pesam diariamente.

Foi pela ausência destas peças essenciais à sua vida que Maria (nome fictício), de 22 anos e residente de uma cidade no Alentejo, acabou por não aceitar a renovação de contrato. Depois de um ano de trabalho, e para continuar a exercer aquela profissão, “mudaram as condições”.

Maria tinha de mudar o local onde trabalhava, para uma cidade a 1h30 da sua residência, sem aumento salarial. Apenas lhe disponibilizavam viatura da empresa para deslocações. “O horário de trabalho era o mesmo, das 8h às 17h. Tinha de sair de casa às 6h e como o trabalho não era certo, muitas vezes só conseguia sair às 21h e já chegava quase às 23h.”

Por isso, não aceitou, porque “não teria vida para além do trabalho”. “Tenho a ajuda dos meus pais, estou em início de vida e ainda quero estudar, mas nem todos têm esta sorte”, explica, como motivos que lhe permitiram decidir sair.

Diz que “é por estas e por outras” que os jovens trocam muito mais vezes de empresas do que antigamente. “É a única forma de subir na carreira e subir salários”, se não for assim, “acabamos por nos conformar ao que nos é oferecido ou vamos embora do nosso país”.

Como tem sido a sua experiência no mercado de trabalho? Concorda com estes depoimentos? Partilhe a sua opinião, críticas ou sugestões comigo, por e-mail.