Economia

Governo nunca confirmou indemnização de Alexandra Reis que era comentada na TAP desde fevereiro

2 janeiro 2023 16:37

Alexandra Reis

Nos corredores do poder na transportadora sabia-se que Alexandra Reis não tinha saído da TAP de mãos a abanar e que a indemnização tinha sido significativa, apesar de a gestora ter rescindido por mútuo acordo e renunciado ao cargo. A pergunta foi feita pelo Expresso ao Ministério das Infraestruturas em maio, que não confirmou a informação e, desde então, manteve-se sempre em silêncio

2 janeiro 2023 16:37

Fontes conhecedoras do processo de saída de Alexandra Reis da TAP afiançavam, em maio de 2022, que a gestora tinha saído com uma "indemnização milionária", mas não havia prova disso, nem foi possível obtê-la. O valor apontado situava-se num intervalo entre meio milhão e um milhão de euros. A pergunta foi feita pelo Expresso oralmente ao gabinete do Ministério das Infraestruturas, que não confirmou a informação.

Tratava-se de uma fonte credível, e o Expresso ouviu outras fontes da transportadora que confirmaram que circulava informação sobre a indemnização de Alexandra Reis num círculo restrito, mas desconheciam, porém, o valor da mesma. O jornal decidiu avançar com a informação, numa notícia online, reservada a assinantes, mas optou por não puxar para o lead a questão da indemnização da gestora, uma vez que não tinha provas físicas, nem uma confirmação oficial. A notícia saiu então no momento em que o Expresso noticiou que a ex-administradora da TAP ia para a administração da NAV Portugal..

O Ministério das Infraestruturas manteve-se sempre em silêncio sobre o tema, e o assunto não foi abordado quando Alexandra Reis foi nomeada para a presidência da NAV, cargo para o qual tinha sido convidada seis semanas depois de sair da TAP, nem quando foi convidada para secretária de Estado. Só a 26 de dezembro é interrompido o silêncio. Foi apenas dois dias depois da polémica ter explodido com a notícia do Correio da Manhã, de que Alexandra Reis tinha saído da TAP com uma indemnização de 500 mil euros, que o ministro das Finanças, Fernando Medina, e o ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, pedem, em despacho conjunto, informação à TAP sobre o enquadramento jurídico da saída da gestora e o montante de indemnização atribuído.

O valor da indemnização veio a público na véspera do dia de Natal. E a notícia caiu como uma bomba. O ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, e dois dos seus secretários de Estados demitiram-se, admitindo o Ministério que Hugo Mendes, o secretário de Estado com a responsabilidade da transportadora, era conhecedor da indemnização de Alexandra Reis..


Fernando Medina, que tinha convidado Alexandra Reis para o Tesouro, afirmou desconhecer a indemnização, até porque quando a gestora saiu da TAP o ministro das Finanças era João Leão. O ex-governante revelou, no entanto, também ao Expresso que nada sabia. Mas as Finanças têm a dupla tutela da TAP, e tudo o que são questões financeiras passam pelo seu crivo. Além disso, Gonçalo Pires, o administrador financeiro da transportadora, e um dos gestores que assinou o pagamento da indemnização de Alexandra Reis, foi escolhido e nomeado pelas Finanças. Por isso, se o Ministério das Finanças não sabia, devia saber.

Notícia inesperada, mas recebida com alívio

Tinha passado pouco mais de meio ano quando Alexandra Reis, que acumulou poder enquanto esteve como administradora executiva interina, deixou a comissão executiva da TAP. A sua saída, embora imprevista, já que foi no início do mandato, foi recebida com alívio pelos trabalhadores, uma vez que Alexandra Reis não era muito popular entre os trabalhadores, pelo papel que desempenhou nas rescisões e despedimentos feitos no âmbito do plano de reestruturação.


Tinha sido um choque de personalidade com a presidente da TAP, Christine Ourmières-Widener, sido o gatilho para a saída de Alexandra Reis da transportadora. Sabe-se agora, noticiou o Jornal Económico, que terá sido a oposição da gestora à mudança e às novas contratações que estavam a ser feitas por Christine Ourmières que levaram ao confronto entre as duas, e à subsequente saída de Alexandra Reis. Com perfil determinado e capacidade de execução, a gestora era uma das únicas vozes que se oponha à gestora francesa, e então nova líder da companhia.

Alexandra Reis tinha assegurado a transição da TAP das mãos do acionista privado norte-americano David Neeleman para o controlo público. Tinha sido chamada para a liderança da TAP em meados de 2020. Na altura da sua saída alegou a TAP que o faria porque o acionista que a tinha puxado para a administração, Humberto Pedrosa, já tinha saído do capital da TAP SA.