Economia

O que nos vai trazer a moda em 2023? "Desaceleração global", diz estudo internacional

30 novembro 2022 13:37

picture alliance / getty images

A guerra na Ucrânia, a inflação crescente e as pressões nas cadeias de abastecimento são ameaças para o sector da moda no próximo ano, antecipa um relatório da The Business of Fashion e da McKinsey

30 novembro 2022 13:37

A indústria da moda está a preparar-se para a “desaceleração global”, conclui o relatório sobre “O Estado da Moda em 2023”, da The Business of Fashion e McKinsey & Company. Num cenário marcado pelas sombras da guerra da Ucrânia, do aumento da inflação e das pressões das cadeias de abastecimento, o maior potencial de crescimento vai estar no Médio Oriente e na América do Norte, diz o estudo. Mas será o luxo a puxar pela fileira, com as vendas globais nesta categoria a crescerem 10%, bem acima dos 3% previstos para o resto da indústria.

“56% dos líderes mundiais da indústria da moda preparam-se para a desaceleração”, assume o trabalho divulgado esta quarta-feira, na BoF, um espaço para pensar a indústria da moda. Isto, depois de a fileira ter vivido uma “forte recuperação” no pós-pandemia, com as receitas a crescerem 21% à escala global e a apresentarem uma subida de 13% no primeiro semestre do ano.

No entanto, “uma série de desafios sem precedentes estão a pôr em causa esta tendência e a travar o crescimento à medida que o ano avança” e a ameaça de recessão está a aproximar-se de muitas economias, sublinha o relatório. Entre os executivos do sector, 85% admitem que a inflação vai continuar a representar um desafio e 58% acreditam que a crise energética vai continuar a enfraquecer o mercado.

“Um dos anos mais difíceis”

“A economia está a enfrentar um dos anos mais difíceis – a inflação crescente, o aumento do custo de vida e a guerra na Ucrânia estão a criar uma conjuntura desafiadora para a indústria da moda. Apesar disso, o The State of Fashion 2023 indica que a indústria aumentou a resiliência para enfrentar estas pressões” refere Imran Amed, fundador e presidente executivo da The Business of Fashion.

“A indústria de moda estava a recuperar da Covid-19, com a receita global a crescer 21% em 2021, e a margem EBITDA [resultado antes de juros, impostos, depreciações e amortizações] média a subir 6 pontos percentuais. No entanto, a deterioração das condições macroeconómicas e geopolíticas está a ter um forte impacto no segundo semestre de 2022”, diz Ana Paula Guimarães, sócia na McKinsey.

"Embora o consistente desempenho da indústria – com crescimento de receita de 13% no primeiro semestre deste ano – forneça uma base sólida, prevê-se que 2023 continue a ser um ano desafiador: o crescimento das vendas globais de moda será alavancado pelo segmento de luxo – até 10%, em comparação com até 3% para o restante da indústria”, acrescenta a mesma responsável.

Sobre o mercado, o relatório indica que com o aumento da inflação os padrões de consumo começam a alterar-se e, entre abril e julho deste ano, quase três quartos dos consumidores norte-americanos procuraram marcas de baixo custo. Já as famílias de rendimentos mais elevados serão menos afetadas por esta crise e vão continuar a comprar, em particular, bens de luxo.

Ao mesmo tempo, as empresas vão reavaliar as geografias onde operam: a economia da China, que era considerada um motor de crescimento da indústria, deve abrandar em 2023, com o PIB a crescer apenas 3,2% contra 8,1% em 2021, pelo que muitos procuram oportunidades noutras geografias, pelo menos no curto prazo, refere o estudo.

O lado verde

Entre os mercados com perspetivas de crescimento promissoras no próximo ano, a maioria dos gestores (88%) destaca o Médio Oriente. “O mercado de luxo no Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) deverá gerar 11 mil milhões de dólares de vendas em 2023, com 60% dos gastos em luxo pelos consumidores do CCG a ocorrerem internamente. Além disso, espera-se que 50% dos executivos de moda aumentem a presença das suas empresas na América do Norte, no próximo ano. No geral, prevê-se que o comércio retalhista nos EUA encerre 2022 com as vendas no valor mais elevado das últimas duas décadas. Ao mesmo tempo, o Japão e a Coreia do Sul estão a renovar a sua reputação como motores de crescimento de confiança na região da Ásia-Pacífico”, lê-se neste trabalho.

Relativamente à apropriação injustificada de trunfos ambientalistas do lado de algumas marcas (greenwashing), 79% dos executivos de moda apontam a falta de normas a nível da indústria que os ajudem a avaliar o seu desempenho em termos de sustentabilidade como o maior obstáculo para melhorar a forma como os consumidores encaram os seus esforços.

Mais: “Novas regulamentações que proíbam o greenwashing exigem uma maior vigilância por parte das marcas sobre a informação de sustentabilidade que partilham. Por exemplo, em França, a nova legislação prevista para 2023 irá exigir que as marcas coloquem etiquetas no vestuário e nos têxteis com a "pontuação" ambiental de cada artigo, a fim de ajudar os consumidores a tomarem decisões de compra mais informadas”, sublinha o trabalho.

10 temas que irão moldar a indústria da moda em 2023

1. Fragilidade global: Uma série de fatores desestabilizadores, incluindo o aumento das tensões geopolíticas, continuam a enfraquecer uma economia mundial já frágil, prevendo-se que o PIB global desacelere para cerca de 2,5% em 2023. 56% dos executivos de moda esperam que as condições na indústria se agravem no próximo ano.

2. Realidades regionais: O mapa mundial de oportunidades de crescimento para marcas de moda mudou, com regiões como o Médio Oriente e países como os EUA a emergir como prioridades para o ano que se avizinha. Metade dos executivos de moda esperam expandir a presença das suas empresas na América do Norte em 2023.

3. Gastos em duas vertentes: A inflação irá desafiar o comportamento dos consumidores. Enquanto os compradores com elevados rendimentos e poupanças, acesso ao crédito e maior segurança no emprego vão continuar a gastar em moda, os consumidores de rendimentos mais baixos vão reduzir ou cortar nas despesas discricionárias. 74% dos consumidores de moda dos EUA optaram por marcas ou produtos menos caros, entre abril e julho de 2022.

4. Moda fluida: À medida que as diferenças entre roupa masculina e feminina diminuem, as marcas têm uma oportunidade de repensar os processos e operações comerciais a fim de explorar esta evolução. Metade dos consumidores da Geração Z adquiriram moda fora da sua identidade de género.

5. Roupa formal reinventada: Espera-se que o vestuário formal para ocasiões especiais seja a categoria de moda mais resiliente, com o aumento da preocupação dos consumidores com a forma como se vestem para o escritório e eventos especiais. 39% dos executivos de moda esperam que as vendas de roupa para ocasiões especiais estejam entre as três principais categorias de crescimento em 2023.

6. O retorno do DTC (venda direta ao consumidor): Os custos de marketing digital estão a aumentar à medida que as taxas de crescimento do comércio eletrónico normalizam após o pico atingido na pandemia, o que torna desafiante a construção de um negócio de DTC online sustentável e rentável. Um terço dos executivos de moda citam os desafios aos canais de venda direta ao consumidor como um dos principais temas que terá impacto nos seus negócios no próximo ano.

7. Combater o greenwashing: O roadmap estratégico da Comissão Europeia para tornar os têxteis mais duráveis e recicláveis até 2030 está a focar-se no greenwashing, enquanto as associações para a defesa do consumidor na Europa estão a acompanhar de perto as estratégias de sustentabilidade das marcas de moda. 79% dos executivos de moda apontam a falta de normas a nível da indústria que os ajudem a avaliar o seu desempenho em matéria de sustentabilidade como o maior obstáculo para melhorar a forma como os consumidores encaram os seus esforços no sentido de reduzir os danos para o ambiente.

8. Fabrico à prova do futuro: 65% dos executivos de moda estão a considerar a possibilidade de subcontratação para criar novos centros dedicados a servir os seus mercados domésticos de consumo. Dois terços dos executivos esperam que a digitalização seja a ferramenta mais importante para permitir que os fornecedores cresçam no ano que se avizinha.

9. Marketing digital reforçado: Os regulamentos de privacidade e as mudanças tecnológicas fizeram subir o custo do marketing digital pago, levando as marcas a gastar pelo menos três vezes mais para adquirir um cliente em 2022, face a 2013. 79% dos executivos de vestuário e calçado dos EUA classificam os meios de comunicação do retalho como o canal de marketing mais eficaz.

10. Revisão organizacional: 55% dos executivos apontam a crise de talento como um dos principais fatores de impacto nos seus negócios em 2022. A educação e a formação geram entre duas vezes e meia a três vezes mais retorno do investimento do que o recrutamento, impulsionando a motivação empresarial para investir nas lacunas de competências da mão-de-obra. 90% dos executivos de moda preveem um défice de competências nas suas organizações.