Economia

Vitória de Meloni em Itália e crise cambial no Reino Unido abalam mercados

drew angerer/getty

Apesar das bolsas de Milão e Londres terem encerrado esta segunda-feira com ganhos ligeiros, o resto das praças na Europa fechou no vermelho e o mercado da dívida pública registou o disparo do spread italiano e um máximo de 14 anos nos juros das obrigações britânicas a 10 anos

26 setembro 2022 19:21

A vitória folgada de Giorgia Meloni, líder do partido de extrema direita Irmãos de Itália, nas eleições deste domingo para o Senado e a Câmara de Deputados em Itália e a crise cambial da libra abalaram os mercados europeus esta segunda-feira.

Apesar das bolsas de Milão e Londres terem registado ganhos ligeiros, o resto das praças na Europa fechou no vermelho e os juros no mercado da dívida subiram significativamente para as dívidas italiana e britânica.

Os juros das obrigações britânicas a 10 anos subiram para 4,3%, um máximo desde 2008 e o maior aumento diário desde 1957, segundo a Reuters. Os juros a 10 anos subiram quase meio ponto percentual durante a sessão. A libra, por seu lado, está há seis sessões consecutivas a cair face ao dólar, tendo-se depreciado 8% desde o final de agosto, e aproximando-se da paridade com a divisa norte-americana. O liberalismo despesista do novo governo de Liz Truss está a assustar os investidores.

A pressão sobre os mercados britânicos abrandou um pouco depois do Banco de Inglaterra ter declarado que não hesitará em subir ainda mais os juros (que estão em 2,25%) se “o considerar necessário”, mas remeteu a análise do problema para a próxima reunião - ainda distante - a 3 de novembro. O Chanceler do Tesouro procurou também tranquilizar dizendo que é fiel às contas certas e que apresentará a 23 de novembro um plano orçamental de médio prazo para reduzir o nível de endividamento. A reação negativa dos mercados cambial e da dívida britânicos irrompeu depois do Tesouro ter divulgado a 23 de setembro o maior choque fiscal dos últimos 50 anos e um pacote de ajudas de 150 mil milhões de libras (cerca de 170 mil milhões de euros).

No caso da dívida transalpina, o prémio de risco (spread) exigido pelos investidores disparou para 260 pontos-base, 2,6 pontos percentuais de diferença em relação ao custo da dívida alemã. O futuro governo de coligação das direitas, liderado pela primeira vez pela extrema-direita desde a queda do ditador Benito Mussolini em 1945, suscita muitas incertezas sobre as ‘melonomics’. Apesar da promessa de Meloni de estabilidade das contas públicas, os eixos do programa económico são um imposto fixo (flat tax) em simultâneo com um programa de infraestruturas e a promoção do Made in Italy em conjunto com o desincentivo às deslocalizações.

A viragem política em Itália e a crise cambial britânica associou-se ao que os analistas chamam de “tsunami macro”, com as principais organizações internacionais a preverem o risco de uma aterragem forçada ou mesmo uma recessão em 2023 à escala mundial e em algumas economias-chave - como os Estados Unidos e a Alemanha.

Em relação à zona euro, Christine Lagarde disse esta segunda-feira em audição no Parlamento Europeu que se prevê uma contração seguida no último trimestre deste ano e no primeiro do próximo ano. Nas suas projeções para 2023, o Banco Central Europeu (BCE) baloiça entre um crescimento medíocre de 0,9% e uma queda do PIB em 0,9%.

Lisboa entre as bolsas da União Europeia com maiores quedas

Apesar da crise cambial britânica - a libra fechou em 1,07 dólares -, o índice FTSE 100 da bolsa de Londres registou um ganho ligeiro de 0,03% esta segunda-feira. Mas, na semana passada, caiu em três das quatro sessões. Em Milão, o índice MIB fechou a subir 0,67%.

No entanto, o resto da Europa encerrou no vermelho. Segundo dados da Investing.com, as maiores quedas registaram-se em Budapeste (quebra de 2,3%), Varsóvia (recuo de 1,7% do índice WIG 90) e Lisboa (o PSI caiu 1,3%). Em Madrid, o Ibex 35 perdeu quase 1% e em Frankfurt o DAX recuou 0,5%. De acordo com índices MSCI, a zona euro perdeu 0,8% esta segunda-feira.

Moscovo liderou as quebras mundiais com um afundamento de 8%. Na Ásia, o vermelho pintou as principais bolsas: Seul liderou a cair 3%. O índice Nikkei 225 em Tóquio perdeu 2,7% e Xangai - a maior praça asiática - recuou 1,2%. O índice MSCI para as praças asiáticas caiu 2,2%.

A praça de Nova Iorque, com as duas maiores bolsas do mundo, está a negociar no vermelho e a trajetória é para uma queda de 1% esta segunda-feira. Na América Latina, cujos mercados também ainda não encerraram, a situação é mais grave do que na Europa e na Ásia.

Spread italiano dispara

Apesar da bolsa de ações de Milão se ter aguentado, o mercado da dívida italiana viveu esta segunda-feira mais uma sessão de turbulência.

Os juros a 10 anos no mercado secundário estão perto de 4,7%, um máximo de nove anos. O spread disparou para 260 pontos-base, um recorde desde o verão de 2013. Este nível de prémio de risco está muito acima da linha vermelha de 200 pontos-base (um spread de 2 pontos percentuais) traçada pelo governador do Banco de Itália aquando do ataque especulativo de junho.

O prémio exigido pelos investidores no caso da dívida italiana continuou a subir mesmo depois de Christine Lagarde ter garantido esta segunda-feira aos eurodeputados que o Banco Central Europeu não empurrará ninguém para fora do euro e que usará até esgotar todos os instrumentos de que dispõe (reinvestimentos de amortizações, programa recém-criado TPI e o já antigo OMT criado por Mario Draghi em 2012) para travar movimentos especulativos contra as dívidas.

Os juros dos restantes periféricos do euro subiram também no mercado secundário esta segunda-feira, mas a pressão foi menor. Os juros das obrigações do Tesouro português a 10 anos subiram de 3% no fecho da semana passada para 3,17% no encerramento da sessão esta segunda-feira. Em relação ao último leilão de títulos a 10 anos, a subida é já visível: a 14 de setembro, o Tesouro pagou 2,754% na emissão de dívida.

O spread português ficou esta segunda-feira em 108 pontos-base (pouco mais de 1 ponto percentual), abaixo dos prémios de risco dos restantes periféricos do euro: Eslováquia, Eslovénia, Espanha, Malta, Lituânia, Letónia, Chipre, Itália e Grécia.

O spread português ficou em 108 pontos-base (pouco mais de 1 ponto percentual), abaixo dos prémios de risco dos restantes periféricos do euro: Eslováquia, Eslovénia, Espanha, Malta, Lituânia, Letónia, Chipre, Itália e Grécia.

Sintoma claro de risco de crise pressentido pelos investidores, os juros dos títulos alemães e italianos a 10 anos fecharam mais altos do que o custo da dívida em outros prazos mais largos. Os juros das obrigações alemãs a 10 anos encerraram em 2,09%, enquanto a 15 anos ficaram por 2,03% e a 30 anos por 1,95%. No caso da dívida italiana, a 10 anos a taxa fechou em 4,69% face a 4,53% a 15 anos e 4,2% a 30 anos. Esta inversão não se verifica na dívida portuguesa.