Economia

FMI melhora projeção de crescimento português este ano para 4,5% e vê inflação nos 6%

16 maio 2022 13:07

stefani reynolds

Análise anual do Fundo Monetário Internacional à economia portuguesa aponta para um crescimento do PIB este ano de 4,5%. Um valor acima dos 4% antecipados há um mês

16 maio 2022 13:07

O Fundo Monetário Internacional (FMI) espera que a economia portuguesa cresça 4,5% este ano, quando há apenas um mês, no World Economic Outlook, apontava para 4%.

O valor consta do comunicado sobre a conclusão da missão a Portugal dos técnicos do FMI, no âmbito do artigo IV da organização, publicado esta segunda-feira. Ainda assim, fica abaixo dos 4,9% antecipados pelo Governo e muito longe dos 5,8% da nova projeção da Comissão Europeia, divulgada esta segunda-feira.

Nesta análise anual, o FMI constata que a economia portuguesa "ganhou terreno em 2021, após uma recessão profunda induzida pela pandemia". Até porque, "refletindo a relevância do turismo, a economia foi mais atingida do que a zona euro". E destaca a "resposta decisiva" das políticas públicas, impulsionadas pela resposta ao nível da União Europeia (UE) e do Banco Central Europeu (UE), que "ajudaram a moderar os efeitos da pandemia sobre famílias e empresas".

Ao mesmo tempo, a forte campanha de vacinação "permitiu um levantamento cedo das restrições sobre a atividade e apoiou a recuperação até ao início de 2022", aponta o FMI.

Rupa Duttagupta, chefe da missão a Portugal, destacou, em conferência de imprensa digital, a "impressionante resiliência da economia portuguesa" durante a crise pandémica. Mas "a guerra na Ucrânia é um novo choque, que vai penalizar a recuperação", alertou.

Apesar de os laços diretos com Rússia e Ucrânia serem limitados, os impactos da guerra através de preços mais elevados das commodities, mais estrangulamentos nas cadeias de abastecimento globais, enfraquecimento da confiança, procura externa mais moderada e condições financeiras mais apertadas "vão pesar sobre a recuperação e aumentar os preços", destaca o FMI.

"As pressões inflacionistas alargaram-se", aponta o Fundo. Ainda assim, "a inflação ao nível dos salários permanece contida", estando "muito abaixo do resto da zona euro", vincam os técnicos do FMI. Ou seja, ainda não se assiste ao que os economistas chamam efeitos de segunda ordem da escalada dos preços, que sinalizariam pressões inflacionistas mais persistentes.

O FMI projeta que a inflação em Portugal, em termos de média anual, atinja os 6% este ano, um valor muito acima da projeção do Governo, que aponta para os 4% tendo em conta o Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC) - a referência na zona euro -, e 3,7% tendo em conta o Índice de Preços no Consumidor. Para 2023, o Fundo espera que a inflação comece a recuar, na sequência do declínio dos preços energéticos e alimentares.

A inflação "surpreendeu-nos e por isso revemos em alta para 6%", disse Rupa Duttagupta, apontando, contudo, que "ainda acreditamos que grande parte desta inflação resulta dos preços da energia, que esperamos que comecem a recuar na segunda metade do ano, ainda que de forma lenta". Assim, "esperamos que a inflação comece a retroceder em 2023", afirmou a chefe da missão do FMI a Portugal.

Por isso, "concordamos com a posição do Governo", de não avançar com um aumento intercalar para os salários da função pública, afirmou Rupa Duttagupta.

Crescimento, PRR e turismo sustentam crescimento

Neste contexto, o FMI espera um crescimento de "cerca de 4,5% em 2022 e 2% em 2023". E salienta que "isto representa uma revisão em baixa acumulada de cerca de um ponto percentual em relação ao cenário pré-guerra".

Ainda assim, é uma revisão em alta face aos 4% de crescimento projetados pelo FMI para a economia portuguesa há um mês, no âmbito do World Economic Outlook. A explicação está em "nova informação sobre o turismo e a procura interna", salientou Rupa Duttagupta.

Uma expansão impulsionada pelo consumo privado - suportado pela libertação de poupança acumulada pelas famílias durante a crise pandémica -, pelo investimento público no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), e com a retoma do turismo, que deve atingir o nível pré-pandemia em 2023, antecipa o Fundo.

Os riscos para a economia portuguesa "estão inclinados no sentido descendente", alerta o FMI, avisando para uma "excecional incerteza" por causa da guerra na Ucrânia e a possibilidade de novas vagas da covid-19. Ao mesmo tempo, "condições financeiras mais apertadas podem afetar o crescimento e a posição orçamental", vinca o Fundo, lembrando que "apesar do declínio projetado, a dívida pública vai permanecer desconfortavelmente elevada".

Pelo lado positivo, a continuação da forte recuperação do turismo e retornos mais elevados dos investimentos associados ao PRR podem "melhorar o cenário", aponta o FMI.

Neste contexto, os técnicos do Fundo deixam várias recomendações ao Governo. A começar pela política orçamental. "A situação orçamental melhorou marcadamente em 2021 e esperamos que continue a melhorar em 2022", mas "há algum reequilíbrio a fazer", considerou Rupa Duttagupta.

Antecipando um défice de 2,4% do PIB este ano - mais elevado do que os 1,9% projetados pelo Governo -, que considera "apropriadamente acomodatício", o FMI avisa que "a partir de 2023, um ajustamento orçamental gradual será necessário para reconstruir espaço orçamental, lidar com os gastos relacionados com o envelhecimento populacional, aumentar o investimento público, e reduzir os riscos relacionados com a dívida".

A missão recomenda um ajustamento orçamental "amigo do crescimento".

"À medida que as condições normalizem, o nosso conselho é que a política orçamental entre numa trajetória de consolidação amiga do crescimento", disse Rupa Duttagupta. O que passa por reformas fiscais visando uma maior eficiência, eliminação de distorções e alargamento da base fiscal.

E o mesmo responsável recomendou uma "contenção" a proliferação de incentivos fiscais, bem como "revisitar as taxas reduzidas de IVA" e "fortalecer instrumentos menos distorcedores, como os impostos ambientais e imobiliários".

A nível estrutural, Rupa Duttagupta notou que o PRR "é uma tremenda oportunidade" ao nível do investimento em educação e formação.