Economia

Guerra: sanções à Rússia podem custar 27 mil milhões de euros ao mundo da moda

4 março 2022 11:15

A Mango é a primeira cadeia de moda espanhola a anunciar o encerramento de lojas na Rússia. Foto: Getty Images

O cerco do setor da moda à Rússia está a apertar. Entre as sanções e a suspensão de atividade de marcas internacionais, os grandes armazéns russos também são afetados. Em Portugal a Rússia é um destino residual das exportações têxteis, com um peso de 0,2%

4 março 2022 11:15

Swift or not Swift: as sanções à Rússia bloqueiam um mercado de 30 mil milhões (de dólares) para a moda”. É com este título centrado no sistema que suporta as comunicações das transações financeiras internacionais que a Moda.Es, uma publicação espanhola dedicada à informação económica no sector da moda, faz uma estimativa do impacto da sanções impostas pelo Ocidente à Rússia, o nono maior mercado do mundo da moda no ranking global, onde aparece entre a Itália e o Canadá.

Dados da empresa de estudos de mercado Euromonitor Internacional citados pela Moda.es indicam que a Rússia, com os seus 142 milhões de habitantes e um PIB per capita de 26.500 dólares (24 mil euros ao câmbio atual), deveria gerar negócios no valor de 30 mil milhões de dólares (27 mil milhões de euros) em 2022 e passar a barreira dos 34 mil milhões (31 mil milhões) em 2026.

Portugal, em 2021, exportou diretamente para a Rússia 8,3 milhões de euros em têxteis e vestuário, representando aquele país 0,2% do total dos 5,4 mil milhões de euros vendidos ao exterior pela fileira têxtil nacional. O valor pode não ser elevado no contexto das vendas ao exterior, mas é preciso considerar também efeitos indiretos, através de clientes da indústria têxtil nacional designadamente espanhóis, admitem dirigentes do sector ao Expresso, conscientes de que o efeito será sentido na moda como no vestuário de segurança.

Moda russa vale 500 milhões para maior cliente dos têxteis lusos

E no caso de Espanha, que responde com algumas das suas marcas por mais de 20% das exportações têxteis lusas, o mercado russo vale 500 milhões de euros de exportações para insígnias internacionais como Inditex ou Mango ou Tous, com uma rede de 800 lojas na Rússia e dificuldades naturais em operar no território por fatores vários, do transporte aos seguros. Mais: as sanções, designadamente as que visam diretamente os oligarcas russos, terão também impacto em marcas de luxo internacional como a LVMH ou a Kering e Richemont, importantes neste mercado.

Aliás, a Mango já anunciou na quinta-feira a suspensão da sua atividade na Rússia, com encerramento das 120 lojas, 65 das quais são franquiadas, e da plataforma de comércio eletrónico, a par do corte no envio de artigos para o país. A segunda maior do sector da moda em Espanha em volume de negócios foi a primeira a tomar esta posição no vizinho ibérico.

De acordo com o Portugal Têxtil, publicação detida pelo CENIT – Centro de Inteligência Têxtil, uma organização sem fins lucrativos controlada pela ANIVEC/APIV – Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confeção, Dirk Vantyghem, diretor-geral da confederação europeia do sector Euratex, admite que a Rússia “é o quinto maior cliente de têxteis e vestuário europeus” e considerando que os produtos mais vendidos pela Europa são têxteis técnicos e de defesa, admite que “as empresas serão afetadas pelas sanções”.

O roteiro russo da moda

E o que se passa nos grandes operadores russos do sector neste momento? “Continuam a operar, mas com dificuldades em realizar pagamentos ao estrangeiro e em receber mercadorias“, explica a Moda.es, referindo nomes como os grandes armazéns Tsum, já centenários, com mais de 60 mil metros quadrados no centro de Moscovo, perto do Teatro Bolshoi e da Praça Vermelha, onde vende 700 marcas internacionais de moda premium, da Dolce&Gabbana, a Valentino, Ermenegildo Zegna, Louis Vuitton, Saint Laurent, Prada ou Chanel.

Na rota da moda no país, o artigo “De Ozon a Tsum: os reis russos da moda afastados pelas sanções” refere ainda outros nomes de referência na moda russa, como os grandes armazéns Gum, fundados no século XIX, com instalações junto à Praça Vermelha, por onde passam 60 mil visitantes diariamente para comer no restaurante, ir à farmácia, ao banco ou fazer compras de marcas como Brunello Cucinelli, Agent Provocateur, Chaument, Chanel, Cartier, Falconeri, Furla, La Perla, Louis Vuitton, Max Mara e Pomellato, entre outras.

Os armazéns Tsum juntam mais de 700 marcas<em> premium</em> junto ao Teatro Bolshoi Foto: Getty Images

Os armazéns Tsum juntam mais de 700 marcas premium junto ao Teatro Bolshoi Foto: Getty Images

Em São Petersburgo, o destaque é para o The Passage, outro armazém do século XIX, na Avenida Nevsky, especializado em marcas de moda, perfumaria e cosmética, acessórios e calçado.

No mundo das vendas online, também já afetado pelas sanções, um dos principais operadores no país é La Moda, do Global Fashion Group, que distribui produtos de marcas internacionais (Mango, Oysho, Hugo Boss, Topshop, Tommy Hilfiger, Under Armour, Nike e Levi’s) na Rússia, mas também na Bielorrússia e Ucrânia, tendo somado vendas de 453,3 milhões de euros em 2020.

Outro operador de peso neste segmento éno país é o Wildberries, que no ano passado faturou 11 mil milhões de euros numa base alargada de produtos que inclui alimentação e cosmética, a par de marcas como a Ray Ban, Wrangler, Tom Tailor, Puma e Benetton, precisa a publicação espanhola.

Várias marcas internacionais têm vindo a juntar-se ao cerco internacional da moda à Rússia através da suspensão de atividade, envio de mercadorias ou encerramento de lojas no país. Neste cerco da moda que envolve um grupo cada vez mais alargado, estão lado a lado nomes como a H&M, Burburry, Marks &Spencer, Puma, Bohoo, Bestseller e Asos, além da Mango.