Economia

Colecionador de arte perdeu 2 milhões em NFT. E a sua queixa tornou-se… um NFT

6 janeiro 2022 19:43

Foi um ataque de ‘phishing’ que culminou num roubo de 15 obras de arte digitais a um colecionador norte-americano. Entretanto, conseguiu recuperar alguns, mas o susto foi grande

6 janeiro 2022 19:43

Há frases que se tornaram lugares comuns. Como “o mundo dá muitas voltas”. Ou “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. E ambas se podem aplicar à história do roubo de pelo menos 15 NFT – acrónimo de non-fungible token, ou ativo não-fungível – da carteira digital de Todd Kramer, co-fundador da galeria Ross + Kramer, de Nova Iorque.

O também colecionador de arte norte-americano foi espoliado de obras digitais avaliadas em 2,2 milhões de dólares (cerca de 2 milhões de euros ao câmbio atual) por piratas informáticos. Cinco dos NFT roubados faziam parte da coleção Bored Ape Yacht Club, um conjunto de 10 mil imagens de símios que estão a ser comercializadas no mercado pelo equivalente a centenas de milhares de dólares – tendo alguns dos NFT já superado o milhão de dólares.

O proprietário foi, no dia 30 de dezembro, para o Twitter queixar-se do roubo, em desespero, apelando a que o ajudassem num mercado sem regulação, descentralizado e, por conseguinte, sem interlocutores óbvios a quem se dirigir em caso de crime. Entretanto apagou o tweet.

Depois do roubo, alguns dos NFT já tinham sido vendidos pelo ladrão. Já outros, postos à venda na plataforma OpenSea, foram congelados por esta última. Uma medida que, apesar de não impedir a venda em outras plataformas, neutralizava qualquer transação na plataforma mais popular para a compra e venda destes ativos digitais. O que, mesmo assim, fez com que muitos protestassem: num protocolo verdadeiramente descentralizado como o da cadeia de blocos (blockchain) não haveria lugar a decisões deste tipo, com um único interveniente a impedir que ativos digitais troquem de mãos.

Graças a alguns compradores dos NFT roubados, Kramer recuperou alguns dos ativos perdidos. O problema foi manter os NFT numa “carteira quente” – isto é, ligada à rede e vulnerável a acessos maliciosos – e não numa “carteira fria”, uma carteira desconectada da Internet e, por conseguinte, protegida de ataques de hackers. Kramer foi só mais um a ser vítima de uma comunicação fraudulenta que lhe roubou a chave da sua carteira digital, conhecida por phishing, de acordo com o ArtNews.

Entretanto, outra página especializada nos mercados da arte, a Artnet, conta que um utilizador de seu nome CarbonPaper fez uma captura de ecrã do tweet de Kramer, converteu-a num NFT e pô-lo à venda na Open Sea. Está à venda por 0,05 Ether, perto de 149 euros com o comentário “get rekt noob! 😉 maybe be a little safer next time crypto bro!! :p”, o que, numa tradução aproximada, significará algo como um apelo para ter mais cuidado da próxima vez.

Texto: Pedro Carreira Garcia

Ilustração: Getty Images