Economia

Recessão mundial em 2020 vai ser menos severa do que se previa, diz FMI

13 outubro 2020 13:30

Gita Gopinath, economista-chefe do Fundo Monetário Internacional e responsável pelo World Economic Outlook

mint/getty

Graças ao pacote gigantesco de ajuda às economias, o Fundo Monetário Internacional fala, agora, de uma quebra de 4,4% da economia mundial, inferior aos mais de 5% que previa em junho. A retoma global em 2021 vai ser impulsionada pela China e pela Índia, avança o World Economic Outlook divulgado esta terça-feira

13 outubro 2020 13:30

A recessão mundial em 2020 não vai ser tão profunda quanto o Fundo Monetário Internacional (FMI) previa em junho, adianta o World Economic Outlook (WEO) divulgado esta terça-feira.

A quebra da economia mundial deverá ficar por 4,4%, em vez de 5,2% que se previa em junho, avançou Gita Gopinath (na foto), a economista-chefe do FMI, na conferência de imprensa de apresentação do WEO. O FMI iniciou na segunda-feira a sua assembleia geral, ainda que em moldes virtuais.

A revisão em alta da previsão para 2020 deveu-se a dois ‘salvadores': a China que não entrou sequer em recessão no primeiro semestre, e que deverá crescer perto de 2% este ano, e a intervenção massiva imediata dos governos e dos bancos centrais.

O pacote gigantesco de ajuda às economias, concertado entre as políticas orçamental e monetária por todo o mundo, permitiu duas coisas, diz Gopinath: “evitar uma repetição da catástrofe financeira de 2008 e 2009” e conter a recessão mundial apenas ao primeiro semestre deste ano. O WEO aponta para uma ajuda de 20% do PIB nas economias desenvolvidas e de 5,5% no caso das economias emergentes e em desenvolvimento.

O relatório considera como passos relevantes dados em 2020 a aprovação do Fundo de Recuperação da União Europeia, a alteração da estratégia da Reserva Federal norte-americana (apontando agora para uma meta mais flexível de inflação e prometendo a manutenção dos estímulos até que o pleno emprego regresse) e a iniciativa de lançamento de programas de aquisição de ativos (conhecidos pela designação em inglês de quantitative easing, QE no acrónimo) pela primeira vez por parte de muitos bancos centrais das economias emergentes. O QE deixou de ser uma bazuca exclusiva dos bancos centrais dos países desenvolvidos, como nos casos mais em destaque do Banco Central Europeu, Reserva Federal norte-americana, Banco de Inglaterra ou Banco do Japão.

Menos pessimista sobre Brasil, China, EUA, França e Itália

O FMI está, agora, menos pessimista em relação a cinco das grandes economias do mundo. O WEO melhorou as previsões para 2020 do Brasil, China, Estados Unidos, França e Itália.

O crescimento da economia chinesa este ano será de 1,9% em vez de 1% avançado em junho, e as contrações do Produto Interno Bruto (PIB) no Brasil, EUA, França e Itália serão menores do que o previsto há cinco meses.

Por exemplo, a economia norte-americana, em vez de cair 8%, vai quebrar 4,3% e o FMI pressupõe que os resultados das eleições presidenciais em novembro "não vão implicar disrupções sérias", como enfatizou a economista-chefe na conferência de imprensa. No caso de França, em vez de uma recessão de 12,5%, a nova previsão aponta para uma queda de 9,8%. Em relação a Portugal, o FMI avança com uma quebra de 10% em 2020, a terceira maior na zona euro, não tendo em junho publicado nenhuma previsão.

Os economistas do FMI admitem que o ponto de viragem no comportamento do PIB mundial deverá ter-se situado em abril deste ano, o que, em economês, se designa por cava ou vale, momento a partir do qual a economia começa a crescer, saindo da recessão.

Avançam ainda que a contração no segundo trimestre não foi tão severa quanto se antevia na maioria dos países e que a retoma da economia chinesa logo entre abril e junho foi muito mais robusta do que se esperava.

As revisões em alta contrabalançam o agravamento das previsões da contração para a Índia (quebra de 10,5% em vez de recuo de 4,5%) e para as economias do sudoeste asiático (queda de 3,4% em vez de contração de 4,8%). No caso de Espanha, o principal cliente de Portugal, o FMI manteve a previsão avançada em junho, para um colapso de 12,8%, o maior na zona euro.

Recuperação em ‘V’ não vai ser para a maioria

O FMI está relativamente otimista sobre 2021, mas reviu ligeiramente em baixa a previsão avançada em junho. O crescimento mundial deverá situar-se no próximo ano em 5,2%, em vez de 5,4% avançado em junho. O que permitirá à economia mundial superar, totalmente, o rombo de 2020. À escala global, prevê o FMI, a retoma será em ‘V’.

Mas esta média global encobre uma realidade muito assimétrica nas principais economias do mundo. Na realidade, só a China - que vai crescer 10% em termos acumulados em 2020 e 2021 - e as economias do sudoeste asiático se encaixam no ‘V’. A China porque não entrou sequer em recessão durante 2020 e as economias do sudoeste asiático porque vão crescer em 2021 o suficiente para anular o colapso do ano anterior. O resto das grandes economias não regressará aos níveis anteriores à pandemia até final do próximo ano. A maioria concluirá a retoma em 2022 e em algumas regiões, como na América Latina, a recuperação vai estender-se por 2023, frisou Gopinath.

Apesar da melhoria na previsão sobre a recessão mundial, o WEO não deita foguetes. A pobreza global agravou-se com a pandemia, sublinha Gopinath. O retrocesso que se observava desde 1990 foi revertido com o impacto da covid-19. Mais 90 milhões de cidadãos caíram na extrema pobreza, com um rendimento diário inferior a 1,9 dólares (€1,6). Muitos países pobres correm o risco de insolvência, se a comunidade internacional não perdoar parte das dívidas. E, além disso, há riscos que não podem ser ignorados, e que, a materializarem-se, levarão a uma retoma mundial muito mais demorada.

Os técnicos do Fundo apontam para seis riscos principais: ressurgimento da vaga pandémica; descontinuação prematura das ajudas orçamentais e dos estímulos da política monetária (que, por exemplo, levou a uma recaída em recessão na zona euro em 2011); tensões geopolíticas em diversos pontos chave do globo; agravamento da guerra comercial entre EUA e China e rompimento das negociações entre o Reino Unido e a União Europeia; e aceleração na frequência e dimensão dos desastres naturais.