Economia

FMI mais pessimista que governo. Economia portuguesa afunda-se 10% em 2020

13 outubro 2020 13:30

rodrigo garrido/reuters

Portugal vai registar este ano a terceira pior crise entre os países da União Europeia. Mas vai crescer mais do que a zona euro no próximo ano. São as previsões avançadas esta terça-feira pelo World Economic Outlook do Fundo Monetário Internacional

13 outubro 2020 13:30

O Produto Interno Bruto (PIB) português deverá registar um colapso de 10% em 2020, segundo a previsão do Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgada esta terça-feira no World Economic Outlook (WEO). Será o terceiro maior trambolhão do PIB este ano na zona euro, de acordo com as previsões do principal relatório de análise macroeconómica e de recomendações que a instituição internacional publicou no segundo dia da sua assembleia geral anual. Pior só as quebras de 12,8% em Espanha e de 10,6% em Itália.

A previsão da amplitude da crise portuguesa gerada pela pandemia da covid-19 é muito mais pessimista do que a do Governo de António Costa apresentada na proposta de Orçamento para 2021 entregue na segunda-feira no Parlamento.

O ministro das Finanças João Leão avançou com uma previsão de contração de 8,5% em 2020, que fica a meio caminho entre a mais pessimista de 9,3% por parte do Conselho de Finanças Públicas (CFP) e a mais otimista de uma quebra de 8,1% avançada pelo Banco de Portugal.

O WEO salienta que as economias desenvolvidas mais sensíveis ao colapso no turismo – entre as quais se encontra Portugal - registaram as maiores quebras do PIB.

Défice externo vai agravar-se

O FMI adianta ainda que, depois de saldos positivos entre 2013 e 2018, a conta externa portuguesa vai registar défices crescentes. De -0,1% do PIB em 2019, agrava-se para -3,1% em 2020, -3,5% em 2021 e -3,7% em 2025. O problema de um persistente défice externo regressa, ainda que em níveis distantes dos máximos de 10,9% em 2009 e 10% em 2010, antes da intervenção da troika.

O WEO não avança com previsões para a evolução do défice orçamental e da dívida pública portugueses em 2020 e 2021, que só serão apresentadas na quarta-feira depois da divulgação do Fiscal Monitor, o relatório sobre finanças públicas que é coordenado por Vítor Gaspar, o ex-ministro das Finanças do tempo da troika que é diretor do Departamento de Finanças Públicas do FMI.

Recorde-se que, na proposta de Orçamento para 2021, João Leão aponta para défices de 7,3% em 2020 e de 4,3% no ano seguinte. Só em 2022, o défice deverá cair abaixo do limiar dos 3%. Em termos de peso da dívida no PIB, o Ministério das Finanças avança com um rácio de 134,8% em 2020, que desce no ano seguinte para 130,9%, já abaixo de 131,5% registado em 2016.

No entanto, o FMI sublinha que o ambiente da política monetária expansionista praticada pelo Banco Central Europeu vai continuar a ser muito favorável. Nos pressupostos das previsões do WEO, a taxa Euribor a 3 meses cairá em 2021 para um valor ainda mais negativo, descendo de -0,4% em 2020 para -0,5% no próximo ano.

Não há retoma em ‘V’

Apesar da retoma económica em Portugal se estar a registar a partir do terceiro trimestre de 2020, o FMI avança com uma previsão de crescimento em 2021 de 6,5%, insuficiente para que o PIB regresse ao nível anterior à pandemia. O que frustra a possibilidade de uma recuperação em ‘V’. Esta previsão é, mesmo assim, muito mais otimista do que a avançada pelo ministro João Leão na proposta de Orçamento para 2021, onde se aponta para um crescimento de 5,4% no próximo ano. A previsão mais pessimista foi avançada pelo CFP, que não vai além de 4,8%. Na ótica do governo e do CFP, a retoma em ‘V’ está ainda muito mais distante. Nas previsões de Leão, só no final de 2022 o colapso de 2020 estará superado.

Maior parte dos clientes vai crescer menos

A própria dinâmica da zona euro e da maioria dos principais clientes de Portugal no próximo ano não ajuda. Apenas Espanha (7,2%) e China (8,2%) vão crescer mais do que Portugal. O conjunto da zona euro vai crescer 5,2%. Alemanha, Angola, Estados Unidos, França, Itália e Reino Unido vão crescer menos do que Portugal.

A médio prazo, a dinâmica da economia portuguesa, também não é famosa, ainda que fique acima da média da zona euro, o que significa que Portugal vai conseguir continuar a convergir depois de passada a pandemia.

Nas previsões para 2025, o FMI aponta um crescimento de 1,7% para Portugal, face a uma média de 1,4% na zona euro, e de dinâmicas muito mais fracas na Alemanha, Espanha e Itália.