Economia

Chineses da CCCC com 30% da Mota-Engil, depois de 14 meses de "namoro"

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Pouco mais de um ano após ter assinado um acordo de entendimento durante a visita de Marcelo Rebelo de Sousa à China, a Mota-Engil abre 30% do capital à quarta maior empresa mundial do sector de construção e obras públicas.Chineses paga o dobro do valor de mercado e a família Mota mantém-se como maior acionista.

27 agosto 2020 22:36

A China Communications Construction Company (CCCC), quarta maior empresa mundial de construção e líder em pontes e vias de comunicação, vai tomar uma participação superior a 30% no capital da Mota-Engil, maior empresa portuguesa do sector. África e América Latina serão os principais mercados onde a empresa portuguesa deverá ganhar ainda mais músculo com este “casamento”, após um rápido “namoro”, iniciado em abril do ano passado, durante a visita do Presidente da República a Pequim. Em fevereiro deste ano, a Mota-Engil obteve uma contrato da CCCC de 270 milhões de euros na Colômbia e, em abril, estreia-se a liderar o consórcio com a CCCC que ganhou o primeiro troço ferroviário da Tren Maya, avaliado em 636 milhões de euros.

A Mota-Engil revelou esta quinta-feira que concluiu as negociações para um acordo de parceria estratégica e investimento com “um dos maiores grupos de infraestruturas do mundo, com uma atividade significativa a nível mundial”, que se irá tornar “um acionista relevante e um parceiro de longo prazo”. O negócio deverá estar concluído até ao final deste ano e será feito acima do valor de mercado.

No âmbito do acordo hoje anunciado, a Mota Gestão e Participações (MGP) a holding da família Mota que controla 65% do grupo português venderá uma participação relevante, cujo montante não foi revelado. O acordo pressupõe ainda que, num segundo momento, exista um aumento de capital com a emissão de 100 milhões de novas ações reservado a acionistas, soube o Expresso. A Mota-Engil SGPS tem hoje 237,5 milhões de ações emitidas e quer a MGP quer a CCCC assumiram o compromisso de subscrever o aumento de capital. Concretizadas as duas operações, a família Mota manter-se à como principal acionista, embora reduza a sua participação de 65% para 40%, enquanto a CCCC deverá ficar com um pouco mais de 30% do capital do grupo português.

A transação pressupõe uma valorização da Mota-Engil em cerca de 750 milhões de euros, em função do preço oferecido pelo grupo chinês, valor que mais do que duplica a capitalização bolsista da empresa portuguesa que era de 344 milhões de euros, no encerramento da sessão de quarta-feira e véspera do anúncio da operação. A família Mota deverá encaixar cerca de 175 milhões de euros, parte dos quais serão reinvestidos na empresa quando acompanhar o aumento de capital.

A notícia foi saudada pelo mercado, com o título a chegar a ser suspenso por alguns momentos, para fechar a sessão desta quarta-feira a valorizar 27,5% para 1,846 euros, tendo chegado a cotar-se a 1,85 euros por ação.

A Mota-Engil ganha...

Se para alguns analistas ouvidos pelo Expresso, a entrada da CCCC no capital da Mota-Engil não terá efeitos imediatos no mercado nacional, a operação permitirá à empresas portuguesa ganhar músculo para os grandes concursos internacionais. Com um a liderança algo desproporcionada face à realidade nacional – a Mota- Engil tem um volume de negócios da ordem dos 3 mil milhões, seguida pela Teixeira Duarte (700 milhões) e pela Casais (500 milhões)- a entrada da CCCC permitirá à empresa nacional manter e expandir a atividade nos mercados internacionais, sobretudo em África e na América Latina. Alguns analistas salientam ainda que a operação poderá permitir um melhor acesso ao financiamento bancário num país em que, à exceção da CGD, os maiores bancos são espanhóis e por isso menos tentados a ajudar uma empresa portuguesa que concorre diretamente com a terceira ou quarta maior espanhola.

Em África, onde a Mota Engil é líder em Angola e Moçambique, entre outros mercado, a entrada dos chineses poderá contribuir para ajudar a manter e até reforçar essa posição. O apport chinês traduz-se não só em financiamento, mas também a acesso a outras tecnologias e matéria-primas a melhor preço, por exemplo.

Como exemplo, surge a pré-qualificação do consórcio que integra a Mota-Engil e a CCCC para construção de uma ponte em Lagos, capital da Nigéria, como confirmou esta quinta-feira Manuel Mota, CEO da Mota-Engil África, numa conferência telefónica com investidores. A Mota é assim um dos seis pré-qualificados num concurso avaliado em 1,9 mil milhões de euros, mais do dobro do valor do corredor de Nacala, em Moçambique, a maior obra de sempre da Mota-Engil no continente africano. Manuel Mota confirmou ainda que a Mota-Engil venceu o concurso para uma PPP rodoviária no Gana, entre a capital Accra e a cidade portuária de Tema, avaliada em 440 milhões de euros. “O financiamento deverá ficar fechado nos próximos meses”, acrescentou Manuel Mota.

… e os chineses também

A entrada no mercado europeu, numa altura em que a própria Comissão Europeia está proteger os setores estratégicos de compras por empresas de países terceiros, nomeadamente de capitais chineses, é talvez um dos maiores focos de interesse da CCCC. O EXPRESSO sabe que ainda antes da aproximação da CCCC à Mota-Engil, companhias chinesas terão tentado entabular conversações com outras empresas nacionais.

A presença da Mota Engil na Europa, onde além de Portugal tem um grande peso na Polónia, mercado em que está desde 1996, – onde cresceu 62% nos primeiros seis meses do ano – e na Irlanda onde está desde 2007 são outra fonte de interesse para a CCCC. Mas é talvez o forte registo histórico da Mota-Engil em África e, de algum modo, na América Latina, que constituirá a maior fonte de interesse para o grupo chinês. Com grande presença no Peru, México, Colômbia e Brasil, a Mota-Engil ganhou este ano um contrato de 270 milhões da CCCC e da Three Gorges ( que controla a EDP) na Colômbia. Ou no México onde a empresa portuguesa detém 58% do consórcio onde participa a CCCC para a construção do primeiro troço da Tren Maya, avaliado em 636 milhões e que é a maior obra de sempre lançada pelo Governo mexicano. Apesar da pandemia, Peru, México e Brasil têm planeado grande investimentos em obras públicas.

Mercado nacional a recompôr-se

O desaparecimento ou a compra por estrangeiros das grandes empresas portuguesas de construção e obras públicas têm marcado a última década e meia e alteraram profundamente o panorama do setor. Uma situação a que não é alheia uma conjugação de fatores como a falta de apoio público às empresas como acontece em Espanha, França ou na Alemanha, crises várias e a ausência de visões empresariais mais adequadas à realidade. Em julho de 2019, os chineses da China State Construction Engineering Corporation (CSEC) compraram por 31,1 milhões de euros à Teixeira Duarte metade de uma subsidiária responsável por um grande negócio imobiliário em Oeiras. A Soares da Costa, outrora a maior empresa nacional, é hoje controlada por capitais angolanos e praticamente desapareceu. Pioneira na venda a estrangeiros, foi a Somague da família Vaz Guedes, que integra hoje o universo da espanhola Sacyr. A MSF, outra empresa de referência nas obras públicas, está em processo de falência, entre outros exemplos.

A aproveitar os lugares entretanto deixados vagos têm-se assistido no norte do país a alguma afirmação e expansão de empresas como o caso da Casais ou da DST, de Braga, ou de empresas que apostaram muito na internacionalização em Angola como os casos da ACA Construções de Estarreja ou da MCA – Manuel Couto Alves de Guimarães, entre outros.