Economia

Fundo privado constrói refinaria em Cabinda

29 dezembro 2020 10:12

Gustavo Costa

Correspondente em Luanda

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foto getty

Mercador de armas russo-israelita afastado por incumprimentos contratuais

29 dezembro 2020 10:12

Gustavo Costa

Correspondente em Luanda

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55 anos depois da primeira descoberta de petróleo em Cabinda, a população do enclave a norte de Angola poderá finalmente ver concretizado um dos seus maiores sonhos, com a instalação no Malembo de uma refinaria com capacidade para produzir 60 mil barris por dia.

“Com esta obra, João Lourenço rasga uma página de dimensão histórica na vida das populações locais, satisfaz uma das suas mais sentidas reivindicações e esbate os apetites independentistas de muita gente na região”, disse ao Expresso Ruy Mingas, deputado do MPLA e acionista do polo universitário de Cabinda da Lusíada.

Eleito em 2017 como uma das grandes apostas políticas da nova governação angolana, este projeto passou agora para as mãos da Gemcorp Capital LLP — um fundo de investimento especializado em mercados emergentes baseado em Londres — que garante financiar e construir a refinaria até 2022.

A Sonaref, uma subsidiária da Sonangol, deterá 10% de participação, mas o investimento será inteiramente privado. “O risco será exclusivamente nosso e em finais de 2021 estaremos a produzir os primeiros 30 mil barris”, garante Reginald Crawford, responsável do projeto em Angola.

Com este investimento, avaliado em 600 milhões de dólares, a Gemcorp surge agora de braço dado com as autoridades de Luanda apostada em tornar Cabinda autossuficiente em produtos refinados e em lançar as bases para a criação da sua indústria petroquímica.

Liderado pelo búlgaro Atanas Berliner, proveniente do Goldman Sachs e do VTB Capital International, aquele fundo é visto como uma “instituição sólida e gerida por gente comprometida”, segundo o governador do Banco Nacional de Angola (BNA), José Massano.

Apesar do consórcio United Shine Limited (USL) liderado pelo empresário russo-israelita e mercador de armas Arcadi Gaydamak ameaçar interpor um processo contra Angola por ter sido afastado do negócio, o ministro angolano dos Petróleos, Diamantino Azevedo, considerou, em declarações ao Expresso, “irreversível” o processo de adjudicação da empreitada à Gemcorp.

Acusado de estar envolvido numa “conspiração”, o governante angolano qualifica o consórcio de Gaidamak como uma “fantasia”, cuja “falta de crédito” precipitou a sua “rápida dissolução” por “desentendimento entre os sócios”.

“Queriam vender-nos uma refinaria usada de 1952 a um preço especulativo e sem garantia de financiamento por parte do VTB. Não sendo sérios, avançámos com a proposta mais competitiva e que mais garantias dava de cumprimento dos prazos estabelecidos”, disse o ministro Diamantino Azevedo.

Para o afastamento da USL, a Sonangol argumenta que este consórcio não apresentou “garantias de financiamento” e revelou “incapacidade de capitalização societária” e falta de “robustez financeira ao nível de capitais próprios para assegurar a realização do projeto”.


Outras irregularidades apontadas pela petrolífera angolana referem-se “à falta de apresentação de estudos técnicos suplementares, comercial e financeiro nos prazos estabelecidos e de títulos comprovativos da titularidade da refinaria que deveria ser adquirida no exterior e montada em Cabinda”. Reginald Crawford sustenta, por sua vez, que a Gemcorp foi “escolhida pela familiaridade” que tem “com o mercado angolano e pela experiência acumulada com a instalação, na Libéria, de uma refinaria num período muito curto, que pode servir de modelo para o que o governo pretende para Cabinda”.

Projetado especificamente para Cabinda, esta refinaria terá como empreiteiro líder a Vfuels Oil e Gas Engineering, dos Estados Unidos, e será construída com recurso a tecnologia de ponta norte-americana testada no Texas.

“Implementaremos em três fases e o uso do conteúdo local será uma das principais preocupações do nosso processo de seleção”, disse o responsável da Gemcorp.

Sem quaisquer contribuições financeiras do Estado, será integralmente suportada com recursos próprios da Gemcorp, que se dispõe a criar 2 mil empregos, dos quais 400 diretos e 1600 indiretos.