Economia

Paulo Fernandes compra TVI com Abanca e Mário Ferreira

13 setembro 2019 19:50

Pedro Lima

Pedro Lima

Editor-adjunto de Economia

Paulo Fernandes, presidente-executivo da Cofina

clara azevedo

Negócio de compra da Media Capital pela Cofina deverá ficar fechado na próxima quarta-feira e envolverá um investimento de 255 milhões de euros. Paulo Fernandes vai partilhar o capital da TVI com o espanhol Abanca e o empresário Mário Ferreira, que vão tornar-se acionistas da Cofina

13 setembro 2019 19:50

Pedro Lima

Pedro Lima

Editor-adjunto de Economia

O negócio da compra da Media Capital, proprietária da TVI e da Rádio Comercial, pela Cofina, deverá ser fechado na próxima quarta-feira. A Cofina, apurou o Expresso, irá pagar pela Media Capital cerca de 255 milhões de euros menos dívida, um valor bastante abaixo dos 440 milhões de euros que estiveram em cima da mesa quando em 2018 a Altice tentou comprar a dona da TVI.

A Cofina já tem dois financiadores internacionais, o banco Santander e o Société Générale. Mas a operação será também financiada através de um aumento de capital na Cofina em torno dos 80 milhões de euros. É através desta operação que irão entrar dois novos acionistas no grupo de media liderado por Paulo Fernandes, o banco espanhol Abanca e o empresário da área do turismo Mário Ferreira.

A 14 de agosto a Cofina confirmou que está em negociações exclusivas com a espanhola Prisa, que controla a Media Capital, depois da notícia avançada pelo Expresso.

Este negócio esteve para ser apresentado no fim do dia de ontem, quinta-feira 12 de setembro, altura em que acabava o prazo para as negociações exclusivas entre Prisa e Cofina, mas foi travado por alguns acionistas por ainda existirem dúvidas sobre o financiamento da operação. Dúvidas essas que terão sido ultrapassadas na manhã desta sexta-feira.

O empresário Mário Ferreira entra no negócio dos media. Na foto ao lado do primeiro-ministro, António Costa na cerimónia de inauguração do navio cruzeiro World Explorer, nos Estaleiros West Sea de Viana do Castelo, 6 de abril de 2019.

O empresário Mário Ferreira entra no negócio dos media. Na foto ao lado do primeiro-ministro, António Costa na cerimónia de inauguração do navio cruzeiro World Explorer, nos Estaleiros West Sea de Viana do Castelo, 6 de abril de 2019.

arménio belo

Fonte oficial da Cofina diz que “a Cofina está neste momento em processo negocial com a Prisa, para aquisição da Media Capital, nesse sentido é extemporâneo comentar cenários”. O Abanca diz que não faz comentários atendendo a que estão em curso as negociações entre a Cofina e a Prisa. Também Mário Ferreira declinou comentar. O empresário do Porto tinha tentado entrar neste negócio sozinho tendo inclusive feito reuniões informais com acionistas da Prisa mas acabou por se juntar a Paulo Fernandes.

No âmbito deste aumento de capital está previsto que Paulo Fernandes aumente a sua posição, que se situa atualmente nos 13,88%, sabe o Expresso. E ao que tudo indica Paulo Fernandes irá investir mais de 20 milhões de euros neste aumento de capital, um montante semelhante com que irá avançar Mário Ferreira. Os outros acionistas da Cofina, que têm sido parceiros de Paulo Fernandes noutros negócios, também deverão participar no aumento de capital mas não na totalidade, ou seja, vão diluir a sua participação. Não foi possível apurar com quanto irá ficar o Abanca, que é acionista da Media Capital, com uma participação de 5,05%, mas juntos os três (Paulo Fernandes, Mário Ferreira e Abanca) ficarão com cerca de 51% da Cofina. O Expresso apurou ainda que a operação de compra está a ser montada por José de Lemos, antigo presidente do Central Banco de Investimentos. Contactado o mesmo desmente o envolvimento pessoal mas não o da empresa Clearwater International, do qual é sócio fundador.

Juan Carlos Escotet Rodríguez, chairman do Abanca

Juan Carlos Escotet Rodríguez, chairman do Abanca

j.roller vanessa casteleiro (dr)

Abanca: da Venezuela a Portugal

O Abanca comprou em março de 2018 a rede de retalho e banca privada do Deutsche Bank em Portugal com isso tornando-se o décimo maior grupo financeiro a operar no país. E recebeu recentemente autorização do Banco Central Europeu (BCE) para concretizar a compra do Banco Caixa Geral, o banco que a CGD tem em Espanha.

É controlado pelo empresário Juan Carlos Escotet Rodríguez, com dupla nacionalidade espanhola e venezuelana, que nasceu em Madrid e cujos pais emigraram para a Venezuela. Escotet fundou o banco Banesco e começou a investir em Espanha entre dezembro de 2012 e junho de 2014, passando a controlar o Abanca, que tem sede na Galiza.

O Abanca tem na sua origem a Novacaixagalicia, que resultou da fusão entre a Caixa Galicia e a Caixanova. Além de Espanha, Portugal e Venezuela, o seu grupo financeiro está nos EUA, Panamá, Porto Rico, República Dominicana, Brasil, Colômbia, Suiça, Alemanha, França e Reino Unido. Controla em Portugal o grupo de vinhos Sogevinus, detentor das marcas Calem, Barros, Burmester, Kopke e Velhotes.

Um grupo multiplataforma

Os dois grupos Cofina e Media Capital combinados ficam com um canal generalista (TVI), generalista no cabo (CMTV) e de informação no cabo (TVI24), que juntos irão ter 23,1% de share. A Cofina tem rejeitado desfazer-se da área da imprensa, contrariando rumores que surgiram mal o negócio foi noticiado, nomeadamente o de que a atual direção do "Correio da Manhã" pode ficar com os jornais. Otávio Ribeiro deverá permanecer o homem forte da Cofina para os media, mas Sérgio Figueiredo continuará na TVI.

Para a Cofina faz todo o sentido que o negócio se faça conjugando os jornais e revistas que detém - "Correio da Manhã", "Record" "Jornal de Negócios" e "Sábado" -, numa lógica de multiplataforma, ou seja, recorrendo aos conteúdos destes meios para o negócio da televisão e da rádio da Media Capital - como já acontece com as sinergias entre a área da imprensa da Cofina e a CMTV.

A apetência da Cofina pela televisão tem muitos anos. Aliás, a incursão dos investidores que controlam este grupo, com Paulo Fernandes à cabeça - os mesmos que detém as empresas industriais Altri, da pasta e papel, e Ramada, dos aços -, no sector dos media aconteceu no final dos anos 90 e o seu desenvolvimento acabou por constituir uma surpresa.

A primeira década deste século viu a Cofina absorver vários meios de comunicação e a entrar em vários grupos com posições no seu capital: teve participações na Impresa (proprietária do Expresso e da SIC) e na própria SIC, na TVI, na Lusomundo Media (hoje Global Media, proprietária do "Diário de Notícias", "Jornal de Notícias" e TSF) ou no "Sol". Faltava dar o salto - ao longo dos anos tornou-se evidente o interesse do grupo em ter uma televisão generalista de canal aberto.

Uma oportunidade que surge agora, apesar de a Prisa ter a Media Capital à venda desde 2010 e de já ter tido vários candidatos à sua compra.

O Abanca tem 5,05% da Media Capital enquanto a Prisa tem 94,69%. Já a Cofina conta com um núcleo de 5 acionistas que têm negócios em conjunto há muito tempo, nomeadamente na área da indústria (a Ramada, nos aços, e a pasta e papel, na Altri) e que controlam a maioria do seu capital. O maior acionista é a Promendo, com 19,98%, detida por Ana Mendonça. Depois surge a Caderno Azul, de João Borges de Oliveira, com 15,01%, a Actium Capital, de Paulo Fernandes, com 13,88%, a Livrefluxo, de Domingos Oliveira de Matos, com 12,09%, e a Valor Autêntico, de Pedro Borges de Oliveira, com 10,02%. O Crédit Suisse e o Santander também são acionistas, com 4,91% e 2,12%, respetivamente.