Economia

Sociedade de advogados PLMJ perde o sétimo sócio

2 setembro 2019 12:59

Desde final de 2018 são já sete os sócios que deixam o escritório de advogados. Três saíram em julho e agora foi a vez do penalista João Medeiros, depois de 27 anos na casa onde estagiou. Sociedade justifica bater de porta com processo de reestruturação

2 setembro 2019 12:59

João Medeiros é o sétimo sócio que deixa a PLMJ, um dos maiores escritórios de advocacia nacionais, e deverá passar a integrar a Vieira de Almeida (VdA), outra das grandes sociedades portuguesas, mas o processo não estará ainda fechado, apurou o Expresso. A VdA escusa-se a comentar o assunto, tal como João Medeiros: “A relação com a minha sociedade de advogados enquadra-se no meu dever de sigilo profissional. Agradeço o contacto, mas não prestarei quaisquer declarações a qualquer meio sobre essa temática”.

O advogado era sócio coordenador da área de Criminal, Contraordenacional e Compliance e estava na PLMJ desde 1992, onde estagiou. São mais de 25 anos de experiência profissional que o tornaram num “dos mais reputados advogados de direito penal em Portugal, sendo presença constante e de relevo nos diretórios nacionais e internacionais da especialidade”, menciona uma nota sobre o jurista ainda disponível no site da PLMJ.

E tem atuado, sobretudo, em casos relacionados com criminalidade económico-financeira e marca presença em mediáticos processos nacionais, como o caso EDP em que representa o presidente da elétrica António Mexia, num processo em que também é arguido o antigo ministro da Economia Manuel Pinho. Além do direito penal e processual penal, João Medeiros dedica-se à vertente contenciosa do direito da concorrência e à negligência médica.

Recentemente, o jurista foi um dos visados no ataque informático à PLMJ que violou a segurança de milhares de emails de João Medeiros relacionados, nomeadamente, com a Benfica SAD, que representa no âmbito do processo E-toupeira.

Foco nas empresas e nos clientes premium

Fonte oficial da PLMJ, em comunicado enviado ao Expresso, enquadra a saída de João Medeiros num processo de reestruturação iniciado em finais do ano passado em que a área de direito penal também está a sofrer mudanças, com o objetivo “que cada vez mais se centre na prestação de serviços a empresas”. “Neste quadro de mudanças, João Medeiros deixará de colaborar com a sociedade. A PLMJ agradece ao advogado o seu contributo, desejando-lhe as maiores felicidades pessoais e profissionais”, menciona a nota de imprensa, que cita o managing partner, Luís Pais Antunes: “Vamos continuar a ser uma referência na área de Penal, mas queremos recentrar a nossa oferta corporate”.

O Expresso apurou que, apesar de querer centrar a atividade mais na área das fusões e aquisições, a PLMJ pretende continuar a atuar nas várias áreas do direito, “prestando apoio às empresas em todas as vertentes”, segundo fonte ligada ao escritório.

A este respeito, a PLMJ menciona ainda que “permanece fiel à sua estratégia de ser uma sociedade independente, multidisciplinar e full service, sem prejuízo de um maior foco estratégico na prestação de serviços às empresas em todas as áreas de prática – incluindo a penal, a contraordenacional e de compliance – assim como na seletividade reforçada dos serviços prestados e da sua base de clientes”.

Saídas de peso

Na PLMJ bateram com a porta, em escassos meses, sócios de diferentes áreas de prática, nem todos levaram membros das equipas (como costuma acontecer no sector) e há saídas individuais de juristas seniores.

Em julho saiu Manuel Santos Vítor, que estava na PLMJ desde 1989 e foi para a Abreu Advogados, onde também desde essa altura passou a estar Nuno Cunha Barnabé, outrora coordenador de fiscal e patrimónios familiares e da swiss desk (assessoria a clientes do mercado suíço) na PLMJ. Nesse mesmo mês deu-se a saída do sócio João Magalhães Ramalho, que agora coordena a equipa de fiscal da Telles.

Os outros três sócios saíram entre o final do ano passado e os primeiros meses de 2019. Tomás Pessanha, do escritório do Porto, especialista em fusões e aquisições, levou consigo toda a equipa para a Garrigues, no Porto. Seguiu-se Pedro Melo que passou da PLMJ para a Miranda & Associados, onde integra a equipa de coordenação da área de direito público e regulatório. No final de 2018, José Ricardo Gonçalves, de direito penal e de direito laboral, tinha deixado o escritório do Porto da PLMJ para trabalhar por conta própria.

Reestruturação agitada

De acordo com o comunicado da PLMJ, a sociedade iniciou, em outubro de 2018, um processo de reorganização “que conta com o apoio de uma das principais consultoras internacionais”. O objetivo é ter um maior foco estratégico nos clientes mais importantes, bem como a alteração significativa dos procedimentos de gestão. “Um outro aspeto em grande parte implementado é a reorganização da estrutura produtiva, com a tendencial concentração das várias equipas que se dedicavam a atividades concorrente em grandes áreas de prática sob a mesma coordenação”.

O processo não estará a ser pacífico como prova a saída dos sete sócios. Não é segredo que o ambiente competitivo sempre pautou o escritório, mas nos últimos anos o nível de rivalidade entre colegas e entre diferentes departamentos subiu de patamar, mencionaram ao Expresso diferentes fontes ligadas à PLMJ no âmbito de um artigo publicado no início de agosto. O foco nos resultados e no aumento da rentabilidade nas diversas áreas de prática são um fator de pressão, somados ao facto de haver discordâncias sobre o modelo de governação da sociedade.

A fundação da PLMJ remonta ao final da década de 60 e resulta da associação entre António Maria Pereira e Luís Sáragga Leal, com a integração, nos anos 70, de Francisco de Oliveira Martins e José Miguel Júdice.