Economia

Marido de vice-governadora esteve reunido na CGD sobre projeto ruinoso de Sines

28 maio 2019 12:51

luís barra

Fernando Freire de Sousa foi um dos nomes ligados ao grupo Matos Gil que, por estar na La Seda, se encontrou com gestores da CGD sobre projeto Artlant

28 maio 2019 12:51

Uma das reuniões que preparou a entrada da Caixa Geral de Depósitos no projeto Artlant, em Sines, no ano de 2006, contou com a presença de Fernando Freire de Sousa. O antigo responsável da catalã La Seda de Barcelona, atual presidente da CCDR Norte, é marido da vice-governadora do Banco de Portugal, Elisa Ferreira, que tem defendido não ter qualquer razão para pedir escusa para não decidir sobre as consequências da auditoria feita ao banco público, onde a Artlant surge como um dos devedores ruinosos.

Segundo explicou na audição da comissão parlamentar, o grupo IMG, Matos Gil, reuniu-se por duas vezes com a Caixa Geral de Depósitos, uma em 2006, na presidência de Carlos Santos Ferreira, e outra em 2008, sob a liderança de Fernando Faria de Oliveira.

O encontro de 2006 foi realizado “a pedido” da Caixa, e contou com “sete a oito pessoas”. Nesse encontro, analisou-se o “interesse estratégico” do projeto petroquímico que estava em cima da mesa no grupo La Seda, de que o grupo IMG era acionista, e que os gestores do banco queriam localizar em Sines.

Aí, estiveram presentes pela CGD, vários nomes: Carlos Santos Ferreira, que presidia, Maldonado Gonelha, José Pedro Cabral dos Santos e Jorge Tomé. Do lado do grupo La Seda e do acionista IMG, Manuel Matos Gil, Nuno Gaioso Ribeiro e Fernando Freire de Sousa. Resultou da reunião um pedido de informação detalhada para a CGD.

A Caixa envolveu-se na La Seda de Barcelona como accionista, em 2006, e acabou por ser também sua financiadora. O Grupo IMG havia entrado em 2003. Da mesma forma, o banco público esteve desde o início ligada ao projeto Artlant, em Sines. Esta era sociedade da indústria petroquímica da La Seda de que a Caixa se tornou accionista e credora, e que custou mais de 500 milhões de euros. Só no ano passado o banco conseguiu vender a fábrica, com um encaixe de 28 milhões.

A recusa de pedido de escusa

O projeto é referido na auditoria feita pela EY aos atos de gestão do banco público, sendo um dos que é apontado como tendo fugido à normalidade nos procedimentos na instituição financeira. O relatório desencadeou várias avaliações, por parte do Banco de Portugal, a antigos administradores da CGD pelo seu envolvimento em operações ruinosas. Como o governador, Carlos Costa, foi administrador do banco entre 2004 e 2006, pediu escusa para não tomar decisões sobre o tema, que já levaram a não autorização para o exercício de funções na banca a ex-gestores (exemplos de Norberto Rosa e Pedro Cardoso).

Quando a auditoria foi conhecida, e após o pedido de escusa, Elisa Ferreira foi questionada pelos jornalistas sobre se poderia também pedir escusa, o que foi dito, na altura, que não se justificava. Aí, no início deste ano, o Banco de Portugal esclareceu que “não se pronuncia, nem tem essa competência, sobre a qualidade de gestão de empresas comerciais, nem sobre os projetos de financiamento que submetem à consideração dos bancos sujeitos a supervisão”. Pelo que, estando o marido da vice-governadora no lado dos empresários, não fazia sentido qualquer consequência.

Só que, aí, havia também uma justificação temporal. “A contratualização dos primeiros créditos concedidos pela CGD à Artlant, de valor ainda reduzido, data de 7 de maio de 2008, e foi a partir de 2010 que a exposição creditícia da CGD perante a Artlant aumentou significativamente”, continuava o supervisor, citado pela imprensa, acrescentando que o marido de Elisa Ferreira tinha saído da La Seda em abril de 2008. Agora, sabe-se que houve uma reunião em 2006.

Mesmo depois de confrontado com a presença de Freire de Sousa no capital da La Seda quando o banco já era acionista, “a vice-governadora do Banco de Portugal [reiterou] a sua posição de que não existem razões que possam influenciar, ou que possam dar a aparência de influenciar, a sua atuação em matéria de supervisão da CGD”, disse, por exemplo, ao Eco, em Fevereiro passado.

Reunião com Governo

Além dos eventos na instituição financeira, Manuel Matos Gil esteve igualmente num encontro com membros do Governo de José Sócrates em 2006, depois de a La Seda ter comprado o grupo turco Advansa, que já tinha feito um acordo com a antiga Agência Portuguesa para o Investimento para investir no país.

O novo investidor – a espanhola La Seda – não estava interessado em investir em Portugal: “vem o novo interlocutor que quer construir em Espanha”. E nessa reunião, onde esteve Sócrates e Manuel Pinho, tenta-se "lutar para que o projeto ficasse em Portugal”. E ficou.

Portugal foi bem-sucedido e a Caixa esteve envolvida na operação. Mas foi de má memória. Manuel Matos Gil acusa o banco de ter tomado decisões erradas.

Manuel Matos Gil foi mais um dos nomes ligados a grandes devedores da Caixa Geral de Depósitos que estiveram na comissão parlamentar de inquérito, depois da presença de Joe Berardo, Diogo Gaspar Ferreira e o grupo liderado por Manuel Fino.

Esta semana, estarão no Parlamento antigos administradores do banco a explicar as operações que conduziram o banco à necessidade de capitalização, entre eles António Tomás Correia e Celeste Cardona.