Economia

CEO RESET. Em que investiria a Isabel Vaz se tivesse de começar de novo?

1 abril 2019 16:54

Joana Nunes Mateus

Joana Nunes Mateus

texto

jornalista

Isabel Vaz é a primeira de dez grandes gestores de Portugal a revelar em que negócio investiria se tivesse €50 mil para começar tudo de novo. A sua aposta? Um avatar para experimentar roupa na internet

1 abril 2019 16:54

Joana Nunes Mateus

Joana Nunes Mateus

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jornalista

Quem nunca deixou de comprar roupa pela internet por recear que aquela peça não lhe vai assentar tão bem como nos modelos lindíssimos que aparecem nos sites das grandes lojas de moda online? E quem nunca teve de pegar no carro para ir ao centro comercial provar se aquela roupa que viu na internet lhe fica assim tão bem? É neste contexto que surge a ideia de Isabel Vaz de desenvolver um gémeo digital para sites de moda — um fashion digital twin.

Em causa está uma figura digital, feita à semelhança de cada consumidor, de modo a permitir-lhe ganhar um corpo no mundo virtual da internet e experimentar as roupas que lhe ficam melhor nos sites de comércio eletrónico. “A minha ideia era fazer um avatar de moda. Quando entro num destes sites, gostava de ter um digital twin meu. Isto para conseguir experimentar aquelas roupas, sapatos ou malas, ou o que for, em mim e não naquelas modelos fantásticas que eles apresentam e depois quando chegamos a casa não têm nada a ver”, diz.
Isabel Vaz é a presidente da Comissão Executiva do Grupo Luz Saúde e a primeira de dez grandes CEO que aceitaram o repto lançado pelo Expresso e a consultora EY para fazerem reset e refletirem sobre como começariam de novo com €50 mil. Porquê esta quantia? Porque é o valor que a Comissão Europeia costuma atribuir às startups que apresentam as ideias mais promissoras em termos de inovação e de impacto no mercado.

Se começasse de novo e tivesse acesso a €50 mil, em que negócio investiria? Em que sector? Com que estratégia? Foi a estas perguntas que Isabel Vaz respondeu com uma aposta que se inspira nos avanços tecnológicos da saúde para cruzar a moda e o digital.

Um avatar para cada um
“Acho que as grandes oportunidades que existem hoje, seja em que sector for, estão em fazer da experiência do cliente uma coisa espetacular”, diz a CEO do Hospital da Luz, que está neste momento a desenvolver um gémeo digital para a saúde, de modo a inovar na relação com o cliente nesta área de futuro que é a medicina personalizada.

Assim como o avatar da saúde permitirá alertar para o excesso de peso e o nível de glicemia ou preparar uma intervenção cirúrgica mais dirigida àquilo que são as características específicas de cada doente, também o avatar da moda permitirá a cada consumidor experimentar e escolher as peças de roupa que melhor assentam às especificidades do próprio corpo. “Para mim, que sou uma cliente e que, como todas as mulheres, gosto de uma boa malinha, de sapatinhos, de roupinha nova, daquela coisa típica de precisarmos de mais uma camisa branca no nosso armário... eu gostava de ter uma experiência melhor do que aquela que tenho hoje. Portanto, a minha startup seria neste mercado, que vale hoje vários biliões”, diz Isabel Vaz.

Esta solução tecnológica serviria não apenas para as mulheres mas também para os homens provarem as suas roupas antes de comprarem na internet. “A diferença é que as mulheres se costumam ver sempre mais gordas, enquanto os homens se veem sempre muito mais magros e giros. Eles veem aquilo no Bradley Cooper e depois pensam que vão ficar como ele... e não ficam”, ironiza a CEO.

A ferramenta poderia ser vendida não só às marcas que têm lojas na internet como também à Farfetch, a empresa tecnológica de origem portuguesa que está a vingar no concorrido mundo do comércio eletrónico de marcas de luxo e que já vale mais de 7 mil milhões em Wall Street, na Bolsa de Nova Iorque.

A estratégia de Isabel Vaz para transformar esta sua ideia em dinheiro seria precisamente vender a solução às empresas tipo Farfetch, multimarca, ou às próprias marcas “e procurar uma comissão nas roupas que ia conseguindo vender com a aplicação digital twin”. Para o consumidor, o serviço seria grátis.

Além de provar a roupa escolhida pelo cliente, o fashion digital twin também poderia fazer sugestões recorrendo à inteligência artificial e aos padrões de pesquisa detetados em cada consumidor: “Aqui, a piada é que a sugestão aparecia no nosso próprio avatar e não naquelas raparigas lindíssimas.”

Isabel Vaz apostaria também na relação com as marcas e na personalização dos artigos para se diferenciar da concorrência, permitindo aos consumidores alterarem para as características dos artigos através da sua plataforma. “Hoje, só tens à venda uns sapatos azuis com aquele salto, mas com esta plataforma, que eu gostaria de implementar já, podias escolher outra cor e fazer o salto com outra pele... A moda será feita por ti própria.”

A tecnologia manda
Para Isabel Vaz, “todos estes desafios são giríssimos do ponto de vista da transformação digital, da experiência com o cliente e das novas gerações que aí vêm”, mas só quem tiver as ferramentas tecnológicas mais sofisticadas é que conseguirá bater a concorrência. “Reparem que a vantagem da Farfetch é a sua plataforma tecnológica espetacular. Portanto, as primeiras pessoas que eu levaria para a minha startup seriam engenheiros do Técnico [IST], que é a minha casa.”

Com os €50 mil, Isabel Vaz começaria por reunir algumas pessoas para montar um plano de negócio “muito bem feito”, de modo a convencer os investidores a entrarem com mais dinheiro. “Precisamos de um bom financeiro, de um operacional e de malta tecnológica. Portanto, acho que com cinco pessoas podíamos começar isto, obviamente com todos em igualdade de circunstâncias e a pôr massa nisto.”

A abordagem com os investidores passaria por “ter um plano com pés e cabeça e bem estudado”, mostrar “um piloto já com uma marca” e provar que, do lado da startup, “nós também estaremos lá todos — skin in the game — a pôr o nosso dinheiro”.
O investimento necessário para desenvolver esta ideia seria de €10 milhões. “Isso é o que permite fazer uma ferramenta supersofisticada e eliminar do jogo os outros rivais que não têm dinheiro. Foi assim que a Uber e outras plataformas se conseguiram impor. Tinham ali um avanço.” Esta CEO defende que a sua aplicação deve estar pelo menos “três anos à frente” em termos de avanço tecnológico e que a base de engenharia que existe em Portugal chega para a desenvolver: basta olhar para a Farfetch.

“O que a internet trouxe, o que a globalização trouxe é que uma startup feitinha aqui em Portugal pode ser, de facto, global. Qualquer pequena empresa, desde que tenha uma plataforma robusta, consegue realmente chegar a milhões de pessoas.” É neste contexto “absolutamente fascinante” que Isabel Vaz aconselha a “malta nova que está a começar” a olhar para o “ciclo de valor do cliente” em cada indústria e a ver como pode melhorar essa experiência do cliente “à luz da transformação digital e das tecnologias hoje disponíveis”.
Quanto a ideias, “só temos de ser simples, não vale a pena muita complicação”. É o caso deste seu avatar: “Não devia divulgar esta ideia, porque estou a achá-la fantástica! Agora vão pôr isto no Expresso e toda a gente vai saber... Vou ficar com um melão, sobretudo com a pessoa que concretizar a ideia”, ironiza Isabel Vaz.

Tendências da Área

Muito luxo tecnológico
SUBIDA
A indústria do luxo está em acelerado crescimento e as tendências estão a mudar com a introdução de mais tecnologia nas linhas de produção, sobretudo na last mile — quando as marcas apostam em levar a costumer experience até à casa do cliente de forma mais rápida e eficiente. Este segmento de negócio tem crescido 6% ao ano (números de 2018).

100
é a percentagem de pessoas nascidas após 1980 que utiliza os canais digitais para a compra de produtos de luxo. As expectativas das vendas online são de €91 mil milhões até 2025, três vezes mais do que o valor atual. Em 2017, os consumidores chineses foram responsáveis por €23 mil milhões em compras de produtos de luxo

Plano de negócio

Como criar um gémeo digital

  • Fontes de receita: Subscrição por parte das marcas e comissão sobre vendas
  • Custos: Contratação de programadores, equipa de design e comercial. Forte investimento inicial na disseminação do conceito
  • Escolha de mercados e penetração nos mesmos (mass market vs. pequenas séries)
  • Levantamento de financiamento via Business Angels ou programas Horizonte 2020

Está com valores recorde o número de aquisições e alienações de empresas. Em média, cada transação foi de cerca de €125 milhões, o que demonstra a atratividade do mercado para os investidores. EUA, Itália e França continuam a ser os países mais ativos nas aquisições.

As tendências e o plano de negócio para a ideia de Isabel Vaz são da responsabilidade da EY.

Artigo originamente publicado no Expresso de 30 de março de 2019

Isabel Vaz é uma dos dez gestores de empresas que aceitaram o repto do jornal Expresso e da consultora EY a fazerem “RESET” e a refletirem sobre o desafio que é gerir uma empresa e ter de recomeçar de novo. Acompanhe no site do Expresso as suas dicas e conselhos.