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Exportações. Têxteis batem recorde, mas fileira do calçado cai 2,4%

rui duarte silva

Nos têxteis fala-se do fim do casamento com a Inditex. No calçado, a mudança de trajetória vive-se “sem dramas” porque o registo “é muito idêntico ao dos dois grandes concorrentes, Itália e Espanha”, diz a APICCAPS

Os números das exportações de 2018 confirmam as previsões: a indústria têxtil e do vestuário bateu o seu terceiro recorde consecutivo e cresceu 2%, para 5,3 mil milhões de euros. Já a fileira do calçado interrompeu um ciclo de oito anos de recordes e perdeu 2,4%, confirmando que "2018 foi um ano exigente, como indicavam as previsões do Fundo Monetário Internacional", diz Paulo Gonçalves, porta-voz da Apiccaps, a associação industrial do sector do calçado.

No caso dos têxteis e vestuário, Espanha continua a liderar o ranking dos principais mercados, com uma quota de 32%, mas perdeu 68 milhões de euros (menos 4%) face ao ano anterior. Itália é o destino que mais cresce, com um salto de 85 milhões de euros (35%).

No top 5 de destinos do sector, França ganha 1%, mas o Reino Unido perde 3% e a Alemanha cai 1%. No mercado comunitário, as exportações dos têxteis e vestuário sobem 1%, para 4,37 mil milhões, e no resto do mundo crescem 5%, para 940 milhões.

Com a balança comercial a registar um saldo positivo de €1,006 mil milhões, a fileira têxtil fala já de "um momento de ajustamento de ciclo". "Ainda não quebramos, como o calçado, mas sentimos que a tendência de crescimento pode inverter-se já em 2019", admite Paulo Vaz, diretor-geral a ATP (Associação Têxtil e Vestuário de Portugal), referindo condicionantes como o Brexit, a diversificação da forma como as famílias aplicam os seus rendimentos, "gastando menos em vestuário, mas mais em viagens e espetáculos" ou os impactos do comércio eletrónico.

Atento à evolução do sector, destaca o crescimento em Itália contra a quebra em Espanha, admitindo que nos têxteis, "neste momento já não casamos com a Inditex", o grupo espanhol que tem sido um grande cliente da indústria nacional, mas "segue num modelo de negócio mais focado no preço" quando o caminho de Portugal deve ser "no sentido da criação de valor, com design, inovação, alta tecnicidade".

No segmento do vestuário, que responde por 3,19 milhões de euros no total das exportações e cresceu 1,4%, César Araújo, presidente da Anivec (Associação Nacional das Indústrias de Vestuários e Confeção), olha para o desempenho em 2018 e fala "de um caminho árduo de diversificação de mercados", destacando o facto de a descida de vendas em Espanha estar a ser compensada por subidas em países como Itália e EUA "que procuram artigos de maior valor acrescentado".

Frederico Martins

Sapatos fazem o trabalho de casa (lá fora)

No calçado, que iniciou a série de recordes 5 anos antes da fileira têxtil, 2018 entrou na história como o ano da quebra do ciclo virtuoso de crescimento das exportações. "Sem dramas. A Indústria portuguesa de calçado teve um registo muito idêntico ao dos dois grandes concorrentes, Itália e Espanha", comenta Paulo Gonçalves, porta-voz da Apiccaps, Associação dos Industriais do Calçado.

Os números disponíveis não separam calçado e componentes, pelo que a percentagem de 2,4% se refere a um total de 1,958 mil milhões de euros de exportações da fileira. Olhando para os números do INE, fica claro que esta descida é comum ao mercado comunitário (menos 48,8 milhões) e ao resto do mundo (menos 1 milhão) e acompanha alguns dos principais destino e alvos promocionais dos sapatos made in Portugal, de França, ao Reino Unido, EUA e Colômbia. Espanha, China e Canadá aparecem, no entanto, com sinal positivo.

No caso específico dos sapatos Made in Portugal, as previsões do Gabinete de Estudos da Apiccaps para 2018 apontavam já para um aumento de 2,4% nos pares de sapatos exportados (85 milhões) e uma descida de 2,85% no valor das vendas ao exterior (1,904 mil milhões).

"Os sectores de atividade são feitos de ciclos" e "na Europa, o grande mercado para o calçado português, houve retração do consumo", comenta Paulo Gonçalves, preferindo destacar o facto de numa série longa, desde 2010, as exportações terem crescido 50% ou 800 milhões de euros, o que permitiu criar 10 mil postos de trabalho.

Em vésperas de começar uma ofensiva comercial em Milão, na Micam, a maior feira do mundo do sector (10 a 14 de fevereiro), com 90 empresas lusas, a Apiccaps garante que a indústria nacional já está "a fazer o trabalho de casa e a preparar novos ciclos de crescimento, designadamente através do reforço na promoção externa, que envolve um investimento de 18 milhões de euros em 60 ações distribuídas pelo mundo ao longo de 2019 , e do reforço da aposta nos mercados extracomunitários. Está, também, a promover um programa específico de apoios às marcas próprias e incremento vendas online.

Só na Micam, onde Portugal está presente com a segunda maior delegação estrangeira, atrás de Espanha, a comitiva de empresas lusas representa oito mil postos de trabalho e 500 milhões de euros de exportações.