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CGD concedia crédito sem olhar para os riscos das empresas

Luís Barra

Relatório preliminar da auditora EY concluiu que, pelo menos até 2015 o rating não era “um elemento central no desenho das políticas de crédito”, recomendando uma mudança de procedimentos no banco estatal

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

“As políticas de crédito não concretizam uma relação entre o rating (e eventualmente outros fatores) e a elegibilidade da operação para a concessão de crédito ou limites de exposição”. Esta é uma das conclusões do relatório preliminar da auditoria que a EY fez aos atos de gestão da Caixa Geral de Depósitos (CGD) entre 2000 e 2015.

O relatório data de dezembro de 2017 e resultou de um requerimento de março desse ano do Secretário de Estado Adjunto e das Finanças. Até hoje o Governo não o divulgou. O documento, que o Expresso sabe tratar-se de uma versão preliminar, foi revelado pela comentadora política Joana Amaral Dias na CMTV e expõe as fragilidades da concessão de crédito da CGD ao longo de década e meia.

Nesse relatório a EY nota que “o rating não é um elemento central no desenho das políticas de crédito, nomeadamente não é elemento de elegibilidade para a decisão de concessão”.

O documento diz também que na CGD “não existe um normativo de crédito que estabeleça a monitorização regular do risco das carteiras de crédito”. E que o normativo em vigor no banco estatal “não determina suficientemente a periodicidade mínima de reavaliação dos colaterais por tipo de colateral”.

Um dos períodos que a EY detalha é o de 2006 a 2011. E nessa altura, concluiu a auditora, “o processo de decisão estabelecido não considerava o rating um elemento relevante, mesmo nos pareceres de risco”. A auditora diz que “as decisões eram tomadas sem que o escalão de decisão justificasse a decisão, mesmo quando as propostas dos pareceres de risco não eram acomodadas ou as condições requeridas em normativo não eram verificadas”.

O relatório diz ainda que “estes procedimentos eram agravados pela inexistência de políticas de crédito com objetivos e limites que balizassem as decisões e se constituíssem como uma métrica de controlo”.

A EY recomenda no seu relatório preliminar que as estratégias da CGD “devem materializar-se em políticas de crédito que integrem de forma explícita os ratings / graus de risco e que os relacionem com escalões de decisão de crédito, limites de exposição, níveis de colateralização e pricing das operações”.

Só em sete operações o banco perdeu 580 milhões de euros, revela a auditoria, que também conclui que a instituição concedia prémios aos seus gestores de forma avulsa, mesmo em períodos em que tinha prejuízos.