Economia

LACS, o novo centro criativo do país, abre em março

18 fevereiro 2018 10:00

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

O LACS tem 5000 m2 e será um dos poucos espaços de escritórios 
a abrir este ano 


foto josé caria

Fica na antiga cantina do porto de Lisboa, no Cais da Rocha do Conde d’Óbidos, e “estará aberto a todos”

18 fevereiro 2018 10:00

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

“Foi ali que tudo começou”, diz o engenheiro Miguel Chito Rodrigues apontando para o restaurante Último Porto, no Cais da Rocha do Conde D’Óbidos, em Lisboa. “Estávamos em 2015, e eu estava a fazer um projeto no Brasil, o Rio Marina Resort, e estava sempre a ir e a vir. Numa das vezes que estava cá em Portugal fui almoçar com um amigo, o Gustavo Brito [arquitecto, fundador da loja de decoração Paris-Sete e do Santos Design District], e falámos sobre o que se estava a passar em Lisboa. Concordámos que a cidade estava a mudar, não só em termos de turismo mas também culturalmente, e ficámos com vontade de fazer qualquer coisa. Saímos do restaurante e reparámos neste prédio. Nessa mesma tarde fomos à Administração do Porto de Lisboa e a partir daí já não parámos”, conta ao Expresso.

Estava dado o primeiro passo para o nascimento do Lisbon Art Center & Studios — ou LACS —, um novo polo criativo e um espaço de coworking e de escritórios flexíveis, aberto 24 horas por dia e sete dias por semana, que vai ser inaugurado a 15 de março deste ano. Ou seja, estava escolhido o local: um edifício de 5000 metros quadrados (m2) no Cais da Rocha do Conde D’Óbidos, onde antes funcionavam as cantinas e os balneários do porto de Lisboa. “Estava abandonado e devoluto há mais de 20 anos. Tinha um buraco enorme no telhado e chovia cá dentro. Estava tudo podre”, diz Miguel Chito Rodrigues. “Mas era perfeito”, salienta.

De facto, encontra-se a escassos metros das passagens de peões para a 24 de Julho e para a Infante Santo, o Cais do Sodré está a uns 20 minutos de distância a pé, e do terraço que substituiu o tradicional telhado tem-se uma vista desafogada e em 360 graus sobre o rio, o porto de Lisboa e as docas, a 24 de Julho, a zona de Santos e o Museu Nacional de Arte Antiga, que fica mesmo em frente, mas do outro lado da linha do comboio. Até dá para ver uma nesga do Palácio Ramalhete, na Rua das Janelas Verdes, onde Madonna estará agora a viver.
Depois foi preciso “ganhar” o concurso para ficar com a concessão do edifício durante 19 anos, “porque o porto de Lisboa não vende os prédios”, começar o projeto e a obra — que obrigou à demolição total do interior e vai terminar agora no final do mês de fevereiro — e, mais importante, desenvolver o conceito do espaço, continua Miguel Chito Rodrigues. Ele e Gustavo Brito são os mentores deste projeto, que conta ainda com a participação do empresário Filipe de Botton, responsável da Logoplaste e da geladaria Santini, e ainda José Raimundo, vogal na administração do Montepio.

“Não somos 
um centro de escritórios”

Se há algo que está bem definido no LACS é o conceito. É verdade que haverá uma área dedicada ao coworking, situada no piso 0, onde qualquer pessoa pode chegar à hora que quiser e ocupar ou reservar uma mesa para trabalhar, seja por umas horas, um dia inteiro, uma semana ou um mês. Mas haverá ainda cerca de 20 estúdios e 10 ateliês envidraçados, nove salas de reuniões, que podem ser alugadas conforme as necessidades, balneários, uma copa e também espaços abertos ao público em geral, como a cafetaria, a sala de eventos, localizada no piso 3, e o terraço, onde haverá restaurantes para desfrutar da desafogada vista sobre a cidade.

Ou seja, “não é o típico coworking”, diz Miguel Chito Rodrigues. É, sim, um “cluster criativo”, explica, e com a particularidade de apostar apenas “em empresários ligados às artes, ao design e às novas tecnologias”. “Queremos ter aqui pessoas vocacionadas para as indústrias criativas e que haja uma grande diversidade de nacionalidades, culturas e interesses. Não queremos que isto seja um centro de escritórios, mas sim um espaço onde as empresas e os empresários ligados às artes possam partilhar e desenvolver ideias. Isto é um local para onde se vem trabalhar com vontade e não aborrecido”, explica Filipe de Botton.

Além disso, não querem empresas a ocupar grandes áreas, precisamente para permitir que haja mais rotatividade e comunicação entre o maior número possível de pessoas, o que é outro dos grandes conceitos do espaço. Aliás, conta Miguel Chito Rodrigues, já chegaram a recusar um grupo internacional que queria ocupar os 5000 m2 todos. Por isso mesmo, neste momento, a área máxima que já está contratada é para o Rock in Rio e para a EDP Inovação, que ali vão ter, cada uma, 50 pessoas fixas em dois estúdios, logo no piso 1, onde se situa a entrada, mesmo de frente para o cais. Existe também a possibilidade de uma única empresa ocupar a totalidade do piso 2 com 150 pessoas, mas o negócio não está ainda fechado. Até porque a procura pelo espaço tem sido muito acima da oferta disponível.

Escolher entre
 3000 interessados

Durante os cerca de 60 minutos que o Expresso esteve no local houve pelo menos três interessados a visitar o LACS, ainda em construção e cheio do pó branco das obras, mas com os espaços já bem definidos: cowork, cafetaria e balneários no piso 0, estúdios e ateliês no piso 1 e 2, sala de eventos no piso 3, e no topo o terraço, onde ficarão os restaurantes. “Temos uma lista de 3000 candidatos, mas isto só dá para 600 pessoas”, conta Filipe de Botton.

O conceito, a localização, a vista e o próprio edifício, com 300 janelas e muita luz natural, justificam parte desta elevada procura, que irá ajudar os quatro sócios a concretizar o objetivo de ter o LACS ocupado a 100 por cento no primeiro ano. Mas explica-se também pela falta de escritórios que existe neste momento em Lisboa e pelo aumento do interesse por este tipo de espaços, que incentivam a partilha de ideias e permitem uma total flexibilidade de recursos. Além disso, proporcionam uma redução dos custos fixos que pode variar entre 30 a 40 por cento, revela Miguel Chito Rodrigues.

“Queremos rotatividade”

Filipe de Botton considera que não é por haver muita procura que vão conseguir recuperar o investimento de 3 milhões de euros que fizeram antes dos cinco anos que calcularam que iria demorar. “Temos uma procura muito forte, mas não queremos cristalizar empresas, queremos rotatividade, e temos de ter preços razoáveis”, diz.

E para Miguel Chito Rodrigues não podiam ser mais razoáveis. “Em Londres, um espaço deste género custa mil libras por mês, e no LACS oscila entre 120 e 220 euros. Há outros espaços semelhantes em Lisboa mais caros”, nota.

Filipe de Botton remata: “Temos a vantagem de ter vários tipos de espaços diferentes e serviços adicionais, como a cafetaria e os balneários. Aliás, temos um menu com todas as opções, umas mais fixas, para os que gostam de se sentar sempre no mesmo lugar, e outras mais flexíveis, para os mais nómadas ou para um estrangeiro que venha a Lisboa em trabalho. O mundo mudou. Temos de ser menos formatados.”