&conomia à 2ª

Governo de Salvação Nacional?

1 fevereiro 2021 8:20

1 fevereiro 2021 8:20

Estamos em Estado de Emergência. Esta semana que passou chegámos a contabilizar 303 mortes por Covid-19, fora outras causas, em apenas um dia. Isto não é apenas estatística dos óbitos. É vida. São vidas. Muitas vidas que perdemos. São portugueses. São os nossos compatriotas. Não estamos no plano de “A morte de uma pessoa é uma tragédia, a de milhões, uma estatística.”. Todas estas vidas que perdemos contam, sobretudo para aqueles que perderam aqueles que amam.

Ora, num Estado de Emergência, numa guerra sanitária com uma crise de saúde pública sem precedentes, com ondas de choque nas várias dimensões das nossas vidas, da saúde à economia e à política, é claro, penso eu, que não podemos andar a perder tempo com tricas partidárias, tacticismos de curto prazo e olhares para as sondagens ou para um qualquer focus group.

Acabámos de eleger o Presidente da República. Com uma autoridade robustecida, pelo respaldo de 60% dos votos, pode e deve assumir, neste ponto crítico desta crise que nos assola, ainda mais relevo.

A nossa economia está a afundar. Estão todos, é certo. Mas a nossa está a afundar a grande velocidade e terá efeitos, no imediato e no pós-pandemia, brutais. Serão precisas medidas urgentes. Não é apenas a injecção de liquidez de que muitos economistas já falam. Será toda uma nova estrutura empresarial. Serão postos de trabalho que desaparecem, serão empresas e sectores que já sofrem e vão sofrer modificações radicais, alguns sem possibilidade de retorno. É arrasador ler o que Vítor Sobral afirmou: o sector da restauração não aguenta mais.

Tudo isto deve ocupar a mente e a preocupação dos nossos dirigentes políticos. Esqueçam os vossos Partidos. Esqueçam as vossas taxas de aprovação nas últimas sondagens. Esqueçam. Não digo, obviamente, que não podem criticar, apontar o dedo e dizer o que está mal, o que precisa de ser corrigido e melhorado. Mas exige-se a todos, repito, todos, sem excepção, soluções. Não basta criticar, é preciso mostrar qual a saída, qual a alternativa para que possamos vencer os erros e os obstáculos.

No meio deste caos, não tenho outra palavra para este tempo, exige-se que o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa chame a si, de uma vez por todas, a promoção de um conjunto de soluções.

Não vou tão longe, dada a sua importância e fragilidade bem como o que custou resgatá-la, como disse Manuela Ferreira Leite sobre a suspensão da Democracia. Não vou, porque estamos hoje, com o Estado de Emergência, a viver essa suspensão. Podemos ir votar, é certo, mas não podemos sair, não podemos ter o comércio e restauração abertos, não podemos viajar, não podemos simplesmente passear na rua. A Democracia está suspensa. É a saúde de todos nós o único bem que justifica esta dura limitação dos nossos Direitos, Liberdades e Garantias, circunstância em que, muitos de nós, nunca antes vivemos, pois tínhamos nascido livres e vivíamos livres.

Se estamos sob esta coartação, volto a Marcelo Rebelo de Sousa. Espero que exerça a sua autoridade, a sua magistratura de influência, pois o regime é semi-presidencialista. É tempo de chamar todos os Partidos, com assento parlamentar, juntá-los frente a frente (pode ser por uma qualquer plataforma de vídeo-conferência) e pedir soluções a todos. Debatam. Critiquem-se. Ataquem-se. Ofendam-se. Mas, no fim da discussão de ideias, arranjem soluções sensatas e justas para o país. Apresentem-nos um plano de recuperação exequível, com medidas concretas, sem grandes descrições gongóricas. Dêem justificações fundamentadas às decisões. Olhem para o curto, o médio e o longo prazo. Olhem para a nossa economia. Olhem para o que será o país e as empresas após o fim das moratórias de crédito. Reflictam na decisão de dar dinheiro directamente às pessoas. Olhem para o país como um todo, não discriminando os que estão mais atrás, os que são mais esquecidos. Façam pressão em Bruxelas, encontrem formas de reagir a tudo isto. Não são apenas as ambulâncias que esperam no Hospital de Santa Maria que nos chocam, é toda a gestão sanitária e económica que não pode viver de ideias avulsas, nem pode persistir a navegação à vista, sem um mapa que nos trace a rota de saída. Eu sei que falar é fácil.

Nenhum Governo gere todos os aspectos da vida do país, isso seria numa economia de direcção central com outro regime político, porém é notório que este Governo está fora de pé. Está cansado. Está perdido. Claro que é fácil ser treinador de bancada. Mas um Governo para impor medidas, precisa de autoridade e de um suporte sólido. Precisa de apoios. As vozes que clamam pelo regresso do Governo de Salvação Nacional já começaram a surgir. Ainda este fim-de-semana Pedro Santana Lopes abordava o tema, algo que também Rui Rio já aflorou. Se há momento em que podemos ponderar um Governo assim, penso que é este. Só este. Não sou a favor de consensos por consensos. Acredito que um país só vive com Governo e Oposição fortes. Todavia, as circunstâncias extraordinárias em que estamos reduzem o número de escolhas possíveis. Não há muitos caminhos alternativos. Há um país para cuidar e muita gente para apoiar. E há um país que terá, tão cedo quanto possível, de trabalhar para o dia seguinte.