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Expresso

O abraço da EPAL às teorias comportamentais

A água é um recurso indispensável e finito. As estratégias de racionamento, que acontecem um pouco por todo o mundo, têm mostrado que existem limites para a capacidade de aumentar a oferta e que iniciativas para alterar a procura são essenciais. Em contexto urbano, a redução da quantidade de água consumida pelas famílias deve ser uma prioridade para os decisores políticos.

Várias estratégias têm sido usadas para promover a conservação e preservação da água em áreas urbanas em todo o mundo. Entre elas, destacam-se as estratégias mais clássicas, como os incentivos monetários que envolvem aumentos de preços ou impostos, bem como campanhas de informação destinadas a incentivar a redução de desperdícios. Em Portugal, por exemplo, a Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza-, baseada no Programa Nacional para o Uso Eficiente da Água tem contribuído para a conservação e preservação dos recursos hídricos providenciando aos consumidores dicas para a poupança de água.

Mas estas formas clássicas de intervenção, quer o aumento de preços, quer as campanhas de informação e sensibilização não são sempre eficazes e têm, por vezes, efeitos perversos. Por exemplo, aumentos de preços quando os preços são baixos e a qualidade da água não é boa, pode desagradar consumidores levando-os a aumentar o consumo como forma de protesto. Mais, as campanhas informativas podem exacerbar o problema de free-riding. Ou seja, se cada consumidor acreditar que estas campanhas têm a capacidade de alterar comportamentos, é possível que se sintam tentados a não ter de alterar o seu próprio comportamento e, pior, sentirem que “não faz mal” consumir mais porque um número suficiente de pessoas reduziu o seu consumo. Por último, é preciso ter cuidado também na forma de conduzir campanhas de informação em alturas de seca ou quando existem outros problemas que fazem diminuir drasticamente a oferta de água. Neste contexto, as campanhas podem gerar pânico e uma corrida desenfreada à compra e armazenamento de água potável.

Atualmente, as estratégias para preservação e conservação de água contam com os avanços na economia comportamental que têm permitido complementar as ferramentas clássicas – preços e campanhas informativas – com outras intervenções. Por exemplo, apelar às normas sociais e à pressão social através da informação na fatura não só do consumo do agregado familiar, mas também da média do bairro ou da cidade. Outras intervenções privilegiam incentivos informais, como o reconhecimento público dos agregados que reduziram substancialmente o seu consumo.

É neste espírito que, a partir deste mês, as faturas da EPAL, Águas do Norte, Águas da Região de Aveiro e Águas de Santo André vão passar a indicar o consumo de água em litros. Cada agregado familiar vai “poder consultar, na fatura, o seu consumo em litros e dividir pelas pessoas do agregado para saber se estão a gastar a mais ou a menos do que a média”. Para além desta medida, haverá também uma campanha de informação e sensibilização para promover a poupança no consumo de água.

Esta medida da EPAL justifica-se com base nos resultados de intervenções experimentais que têm ocorrido um pouco por todo o mundo e que resultam de uma crescente cooperação entre universidades e empresas de fornecimento de água. Por exemplo, na África do Sul, economistas da Universidade da Cidade do Cabo têm estado em colaboração com a rede de fornecimento dos serviços públicos. Um estudo experimental de 6 meses, entre dezembro de 2015 e abril de 2016, que envolveu cerca de 400 000 famílias, mostrou a importância da pressão social e de normas sociais no consumo de água. A experiência testou diferentes instrumentos, um dos quais, com maior sucesso, foi a publicação no website da cidade do nome do agregado familiar que mais reduziu o seu consumo. Esta intervenção, isoladamente, reduziu em média o consumo dos agregados em 2%.

Outro exemplo, em 2014, na Costa Rica, no município de Belém, 5626 agregados foram aleatoriamente distribuídos por quatro condições experimentais. Um grupo de consumidores foi informado sobre o seu consumo e o consumo médio do seu bairro. Um segundo grupo foi informado sobre o seu consumo e o consumo médio da sua cidade. A um terceiro grupo de consumidores foi dado um plano de consumo com metas concretas, incentivando a comparação relativa do consumo individual ao longo do tempo. A quarta condição foi uma condição de controlo, onde a fatura não exibia qualquer informação extra, para além do consumo do agregado. Os resultados mostram que, quando informados sobre o consumo médio do bairro, o consumo médio mensal de água nos meses de agosto e setembro de 2014, por comparação ao grupo de controlo, baixou em 3,7% e 5,6%. Os mesmos resultados foram conseguidos com a implementação de um plano com metas concretas. É de destacar, no entanto, que a intervenção onde os consumidores foram informados acerca da média de consumo da sua cidade (e não do bairro) não teve um efeito significativo na redução de consumo de água.

O facto da EPAL ter introduzido esta alteração nas faturas é bastante positivo e um sinal de abertura para tentar novas estratégias para um uso mais eficiente dos recursos hídricos. Mas, fica no ar a questão se esta intervenção foi previamente estudada experimentalmente, quais os resultados e sobretudo qual a média de consumo que será apresentada na fatura. Como o estudo da Costa Rica mostrou, o impacto pode não ser o mesmo se a média apresentada for a da freguesia, da cidade ou da região.

Em contexto de laboratório, num estudo sobre contribuição para bens públicos que conduzi em coautoria com investigadores das universidades de Purdue e do Arizona, foi mostrado que dar informação sobre a posição relativa da contribuição individual para o bem público face à média tem em geral um impacto positivo, aumentando as contribuições para o bem público, mas existe um senão. Enquanto que aqueles que contribuem abaixo da média reagem positivamente à informação, aqueles que contribuem acima da média, reagem negativamente, reduzindo a sua contribuição. No contexto de consumo de água, pode acontecer que para quem consome abaixo da média, a informação acerca da média de consumo da população tenha efeitos contrários ao esperado, levando ao aumento do consumo. Para que a informação não tenha este efeito perverso é realmente importante que o grupo de comparação seja um grupo com o qual os

indivíduos se sintam identificados e tentados a competir. A pressão social funciona melhor quanto mais próxima for a ligação com o grupo de comparação. Se não existir uma ligação forte com o grupo de comparação, a pressão para competir baixa e a informação dada serve apenas de ponto de referência ao qual os indivíduos se querem aproximar.

Para a EPAL fica a sugestão: experimentar e testar diferentes intervenções. Experimentar sai mais em conta do que intervir em larga escala e permite que se escolham medidas mais eficazes. Por último, a campanha de informação é necessária e deve também focar-se nesta alteração da fatura. Para que alteração tenha efeito é preciso que não seja vista apenas por quem paga as contas, mas partilhada entre todos que compõem o agregado familiar. Incentivar jogos familiares que promovam competição para baixar a média do consumo do agregado, por exemplo através da criação de uma app onde as famílias possam competir entre si, pode ser mais eficaz do que mensagens como “não deixe o chuveiro a correr enquanto se ensaboa”.

Hashim, Matthew; Kannan, Karthik; Maximiano, Sandra (2017). Information Targeting and Coordination: An Experimental Study. Information Systems Research, 28(2), pp. 289-308.

Datta, Saugato; Miranda, Juan José; Zoratto, Laura; Calvo-Gonzalez, Oscar; Darlingm, Matthew; Lorenzana, Karina. 2015. A Behavioral Approach to Water Conservation: Evidence from Costa Rica. Policy Research Working Paper; No. 7283. World Bank.