"Padrinho" da inteligência artificial sai da Google para alertar para os perigos "assustadores"
SAIBA MAIS
TECNOLOGIA
Geoffrey Hinton, conhecido como o “Padrinho da Inteligência Artificial (IA)”, despediu-se da empresa norte-americana Google, onde trabalhava há mais de dez anos, para poder alertar de forma mais livre para os perigos da tecnologia que ajudou a desenvolver, avançou o The New York Times.
Hinton, de 75 anos, é um dos principais responsáveis pelos sistemas digitais que servem de motor a programas como o ChatGPT, a famosa plataforma de texto inteligente alimentada por IA.
Após dedicar uma vida ao estudo e à aplicação prática de redes neurais, sistemas matemáticos complexos que aprendem através da análise de dados, sejam eles fotografias ou texto, o psicólogo cognitivo e cientista de computação britânico teve o seu primeiro grande sucesso em 2012.
Nesse ano, juntamente com dois estudantes da Universidade de Toronto, no Canadá, onde lecionava, construiu um sistema com a capacidade de analisar milhares de fotografias e ensinar-se a identificar objetos comuns, como árvores e automóveis.
Por essa descoberta, receberia em 2018 um Prémio Turing, o “Nobel da computação”, a culminação de uma longa carreira académica que começou ainda nos seus dias de estudante na Universidade de Edimburgo, na Escócia.
Apercebendo-se do seu potencial transformador no mercado da IA, a Google comprou a empresa estabelecida por Hinton por 44 milhões de dólares (40 milhões de euros), aplicou o seu sistema a uma vasta gama de produtos e abriu um laboratório de IA em Toronto.
Agora, ao diário norte-americano The New York Times e ao canal britânico BBC, o cientista mostra-se arrependido do seu papel na edificação de uma tecnologia cujos perigos são “assustadores”. Os ‘chatbots’ mais avançados, tais como o ChatGPT ou o Bard, produzido pela Google, “ainda não são mais inteligentes do que nós, mas penso que em breve poderão vir a sê-lo", disse Hinton à BBC.

“Neste momento, o que estamos a ver é que programas como o GPT-4 ultrapassam uma pessoa na quantidade de conhecimentos gerais que têm, e ultrapassam-na por muito”, continuou. "E dado o ritmo do progresso, espera-se que as coisas evoluam muito rapidamente. Por isso, temos de nos preocupar com isto".
Para o cientista, o grande perigo da inteligência artificial está na sua capacidade de desvirtuar os fluxos de informação a que os cidadãos têm acesso no dia a dia. Os artigos que lemos, as imagens que vemos, os vídeos que vemos e ouvimos, tudo isto pode ser falsificado ou adulterado com recurso a programas de IA – até ao ponto em que passará a ser impossível tomar por garantida a sua veracidade.
Nas mãos erradas, estas ferramentas poderão ser utilizadas com fim a espalhar o caos e minar as bases democráticas de várias sociedades: "É difícil ver como se pode evitar que maus agentes utilizem esta tecnologia para coisas más", alertou Hinton ao The New York Times.
Depois, há o risco para os mercados laborais, com milhares de empregos postos em causa por sistemas de automação que ficam mais baratos. Com o possível aumento do desemprego crescerá a precariedade e a instabilidade social. Mais: as máquinas poderão tornar-se mais inteligentes do que os humanos, já que aprendem de forma inesperada e muitas vezes incontrolável.
LEIA MAIS ARTIGOS
WEBSTORY: EXPRESSO
FOTOGRAFIA: JOHNNY GUATTO/UNIVERSIDADE DE TORONTO; MARK BLINCH
<!— netScope v4 – Begin of gPrism tag for AMPs -->