Web Summit

Web Summit: 'O papel da tecnologia na luta contra a crise global de saúde mental' que já afeta mil milhões de pessoas

5 novembro 2022 20:05

Rita Coelho

Rita Coelho

Jornalista

twitter david walsh

Um em cada sete jovens, à escala global, sofre de algum tipo de transtorno mental, de acordo com os dados mais recentes da ONU

5 novembro 2022 20:05

Rita Coelho

Rita Coelho

Jornalista

A sétima edição da Web Summit teve como um dos principais temas em discussão a saúde mental. Em vários momentos da conferência foram referidos os dados mais recentes da Organização das Nações Unidas (ONU) - mil milhões de pessoas em todo mundo sofre de algum tipo de transtorno mental, sendo que isto inclui cerca de um em cada sete jovens.

Num dos palcos da conferência esteve Russell Glass, o presidente executivo (CEO) da Headspace - uma aplicação que apoia a saúde mental com exercícios de mindfulness e meditação guiada -, à conversa com o editor-chefe da Euronews Next, David Walsh. Num painel intitulado "O papel da tecnologia na luta contra a crise global de saúde mental", moderador e convidado falaram de como a tecnologia pode atender às necessidades dos pacientes de maneira económica e acessível.

David Walsh abriu a conversa com a apresentação de algumas das causas que justificam a crise de saúde mental vivida em todo mundo, como “a guerra, a covid-19 ou as alterações climáticas”, questionando o convidado sobre se a tecnologia será um “pau de dois bicos”.

"Não evoluímos como seres humanos em consonância com a evolução tecnológica que observamos. Há estudos que mostram que a qualidade do sono das crianças piorou, ou que os jovens podem entrar na puberdade mais cedo devido ao tempo prolongado que passam a expostos à luz azul dos ecrãs. São tudo consequências negativas do avanço tecnológico que como seres humanos não conseguimos acompanhar”, disse Russell Glass. Referiu também o uso da tecnologia para tratar o problema da saúde mental “nunca será suficiente, pois só consegue ir até certo ponto, e na saúde mental é preciso o elemento emocional".

Ainda assim, o CEO admitiu que a tecnologia tem permitido o crescimento da conversa sobre o tema e identificou alguns métodos que têm contribuído na luta. “A Inteligência Artificial (IA), por exemplo, já consegue, através de sensores, identificar sinais no comportamento humano relacionados com questões mentais. Por outro lado, há os Chatbots, que também conseguem perceber sinais através de conversas com o utilizador”, referiu.

Para Russell Glass há três problemas a resolver relativamente à melhoria dos cuidados de saúde mental que são transversais a qualquer parte do mundo. “O 1.º é o estigma associado - muitas pessoas não têm coragem de dizer que precisam de ajuda. O 2.º é o acesso a cuidados de saúde específicos. E o terceiro é a falta de preços acessíveis - porque até quando há acesso, é tudo muito caro”, salientou.

Em vários países, como, por exemplo, Portugal, “esperam-se meses por uma consulta gratuita no sistema nacional de saúde, pois estes não estão preparados. Em vários países nem sequer se aceita que existe um problema de saúde mental, é até uma questão cultural”, destacou Glass.

No mundo empresarial, o tema da saúde mental tem vindo a tornar-se cada vez mais relevante. Segundo o relatório de 2022 “Workforce Attitudes Toward Mental Health” da Headspace, referido na palestra, 70% dos funcionários faltaram ao trabalho, pelo menos uma vez no último ano, devido a problemas de saúde mental. “As empresas estão finalmente a perceber a importância da saúde mental dos trabalhadores e 2/3 até já têm o tema no top 3 das preocupações para os próximos anos”, revela o CEO.

Questionado sobre o que é que as empresas podem fazer, Glass simplificou, “Falar mais sobre a importância da saúde mental, normalizar, permitir conversas sobre o tema, treinar quem for necessário para saber responder às necessidades dos funcionários. Cada vez mais os trabalhadores falam com as chefias sobre planos de saúde que abranjam o apoio à saúde mental, e elas devem procurar arranjar soluções".

Quanto ao futuro dos tratamentos na área, Russell Glass não tem dúvidas que passa pela evolução tecnológica também. “Por exemplo, na Headspace usamos a Inteligência Artificial (IA), pois é mais eficaz a perceber o que a pessoa precisa no momento, além de que ajuda os profissionais de saúde a recomendar, com base nas informações guardadas pela IA, o caminho mais indicado a seguir com cada paciente”, explica.

"Há trabalho a fazer. Ainda que as coisas estejam a melhorar, houve evolução nos últimos meses, mas ainda estamos longe do que precisamos”, concluiu o CEO da Headspace no final do painel, sublinhando que “a prevenção é criticamente importante”.