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Web Summit

Não aprendemos nada com 2016 e isso pode custar muito em 2020: as lições de democracia do dia 1 da Web Summit (e ainda a bondade de Cantona)

05.11.2019 às 19h45

Tony Blair, um dos oradores do dia, considera que a falta de informação sobre a Europa no referendo ao Brexit influenciou os resultados e considera que hoje seria diferente

Tiago Miranda

Cantona quer mudar o mundo e uma app quer mudar-nos os cocktails; o Brexit “é uma péssima ideia” e 16% dos presentes na Web Summit têm boa ideia de Trump; o dono do Facebook permite que os eleitores sejam manipulados e quem permite que essa manipulação seja conhecida não está a ser protegido como devia. Resumo de um dia, o primeiro a sério da Web Summit de Lisboa, em que se discutiram coisas mais ou menos complicadas sobre um mundo definitivamente complexo - e aparentemente repleto de gente desprotegida

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Era um dos nomes mais aguardados do dia. Brittany Kaiser, a whistleblower (denunciante) e antiga diretora de desenvolvimento de negócio da Cambridge Analytica, garantiu esta terça-feira, durante a Web Summit, em Lisboa, que os cidadãos estão hoje tão desprotegidos como estavam em 2016, ano em que a empresa de consultoria política usou dados dos utilizadores do Facebook para influenciar as eleições norte-americanas.

Para Kaiser, “a maior ameaça à democracia não é a interferência externa nas eleições, é a doméstica”, acrescentava horas antes durante um painel no palco principal. E diria depois: “Infelizmente, não aprendemos nada com as eleições de 2016, porque Mark Zuckerberg [líder do Facebook] ainda permite que isso aconteça”. “O que eu vi em 2016 foram casos avançados de instrumentalização dos dados das pessoas”, sublinhou em conferência de imprensa a também cofundadora da fundação Own Your Data. Mas em 2020 os cidadãos de todo o mundo ainda estão desprotegidos, acrescenta.

A antiga diretora da Cambridge Analytica, uma das protagonistas do documentário da Netflix “The Great Hack”, reconhece que não é fácil ser whistleblower nos dias de hoje. Questionada sobre o caso do denunciante português Rui Pinto, detido pelas autoridades portuguesas por causa das revelações no âmbito Football Leaks, Kaiser diz não conhecer o caso, mas acrescenta que é necessário “proteger os denunciantes”. E deixa um apelo: “Encorajo a Comissão Europeia e os Estados Unidos a passarem legislação para proteger os denunciantes.”

A péssima ideia do Brexit e a boa ideia que 16% têm de Trump

O ex-primeiro-ministro do Reino Unido (1997-2007) Tony Blair, outro dos oradores, abriu a sua intervenção dizendo que o Brexit é uma péssima ideia. “Espero que acabe por não acontecer”, afirmou, antes de defender que a votação foi influenciada por muitos factores que nada têm que ver com a questão europeia.

Para Blair, o Brexit “criou uma linha divisória cultural mas também económica” e, quando estiver concluído, as pessoas vão ver que “não resta nada”. E haverá os efeitos, a seu ver negativos, para a economia e as relações internacionais.

“Todos perdem”, concordava esta terça-feira Michel Barnier, negociador chefe da União Europeia para o Brexit, que sublinhou que ratificar o acordo do Brexit “é um passo necessário mas não o fim”.

Referindo que “a UE concedeu” o adiamento da saída, pedido pelo Reino Unido para “concluir o processo de ratificação” do acordo alcançado entre Boris Johnson e os parceiros europeus, Barnier adotou a tónica de responsabilizar os britânicos, como é seu apanágio desde o referendo de 2016.

Noutros momentos do dia, foi das próximas eleições norte-americanas e de Donald Trump que se falou. Numa espécie de combate de boxe em contra-relógio, Joe Pounder, CEO da consultora Bullpen Strategy Group, defendeu que Donald Trump tem sido um presidente bem-sucedido, mas Neal Katyal, advogado e ex-procurador geral dos EUA, bateu-se pela tese contrária.

Já o público, como ficou claro pelos aplausos apenas dirigidos ao adversário de Trump, não aprecia o desempenho do presidente dos EUA. Uma inclinação que seria depois confirmada por uma sondagem: 84% dos que encheram esta conferência consideraram que Trump tem feito um mau mandato; só 16% votaram no sentido contrário.

Cantona quer mudar o mundo, o Facebook os pagamentos

“E se toda a gente que está aqui doasse 90 minutos por semana, a duração de um jogo de futebol, para mudar o mundo?” Foi assim que o ex-futebolista Éric Cantona interpelou a plateia para dar a conhecer a Common Goal, um movimento que desafia os futebolistas e pessoas ligadas àquele desporto a doarem 1% do salário para a comunidade. O ex-número 7 do Manchester United é o embaixador da causa.

“Nunca falei com os meus irmãos sobre dinheiro ou fama, era sobre paixão, sobre ganhar… Fiquei a saber que alguns pais agora falam de dinheiro e fama aos filhos. Dinheiro, pobreza, crescimento… Estamos a perder a essência do jogo”, atirou, fazendo a cama para o tema importante. Se em tempos Sócrates, craque brasileiro do futebol, disse que as suas pernas amplificavam a voz (que pedia liberdade no voto e justiça social), agora é a vez de Éric Cantona pedir algo semelhante: que o futebol ofereça mais dignidade ao mundo. Um por cento de cada vez.

Também o vice-presidente da carteira digital do Facebook, Calibra, Kevin Weil, veio fazer propaganda ao seu projeto. “Podemos fazer pelo dinheiro o que a Internet fez pela informação?”.

No fundo, a Libra e a Calibra querem tornar tudo mais fácil e gratuito. E rápido. E querem que este tipo de serviço chegue às 1,7 mil milhões de pessoas do mundo que não têm acesso a uma conta bancária e que guardam as poupanças numa qualquer esconderijo em casa. Se o conseguirem fazer, “será um mundo melhor”, garante.

“Não será uma viagem curta nem rápida, precisamos de parceiros. Será um trabalho de décadas”, diz. A desconfiança no Facebook, pela história da Cambridge Analytica e da venda de dados também subiu ao palco. Weil desvalorizou: “Os dados financeiros não serão misturados com os dados sociais, mas há pessoas nesta plateia que não vão acreditar em mim e está tudo bem…”, desabafa.

Trotinetas da Uber em Lisboa, internet no deserto e milhões para investir em startups ibéricas

No mesmo dia em que a Uber anunciou que vai lançar 200 trotinetas na capital portuguesa – referindo também a aposta no transporte aquático na Nigéria, nas motas na Índia e nos carros voadores em 2023 -, o Fundo Europeu de Investimento (FEI) e a Instituição Financeira para o Desenvolvimento IFD) anunciavam um fundo para investir em startups ibéricas de software de dados.

O Faber Tech II, que representa um investimento de 30 milhões de euros, é o novo fundo early-stage. O FEI e a IFD investem cada 7,5 milhões de euros neste fundo, devendo os restantes 15 milhões ser captados junto de investidores institucionais e privados.

Outra das revoluções apresentadas durante a Web Summit chegou pela mão da OneWeb. "Não interessa onde estejas, no deserto, na montanha, no meio do oceano ou numa pequena ilha isolada, porque connosco a internet vai ter contigo", afirmava Adrián Steckel, presidente executivo da empresa que está a lançar satélites para garantir o acesso à internet por banda larga em todo o mundo. “A nossa inovação irá mudar vidas.”

O CEO adianta que nos próximos 21 meses serão lançados aproximadamente 35 satélites por mês, com vista à meta ambiciosa de 2 mil satélites. E descarta a possibilidade de colisão. “É uma hipótese mesmo muito remota.”

Mas nem só de oradores e conferências vive a Web Summit. Diversas empresas, de todos os tamanhos, aproveitam o evento para se destacar: seja a EDP através de um ringue de boxe para apresentações rápidas de ideias de negócio, a SAP com um campo de basquetebol inteligente ou até a Accenture com uma app que faz cocktails.