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“Os incêndios têm mais impacto na nossa pegada carbónica do que a eletricidade”

18 novembro 2022 9:12

Miguel Setas é administrador executivo e responsável por toda a estratégia de sustentabilidade do grupo EDP e falou com o Expresso SER de Sharm el-Sheikh, onde decorre a COP27. Diz que é contra o regresso do carvão e que estamos no bom caminho para a descarbonização. O que nos estraga a pegada carbónica “são os anos maus de incêndios”

18 novembro 2022 9:12

A EDP foi para o Egito com uma delegação de dez pessoas para participar na COP27, a maior cimeira das Nações Unidas sobre alterações climáticas. Miguel Setas, administrador executivo da maior elétrica nacional conversou com o Expresso SER sobre o possível desfecho da cimeira, nomeadamente sobre a temática polémica do financiamento e dos “danos e perdas”. Diz que mesmo sem o gás russo, a Europa não vai passar frio, nem agora nem no próximo Inverno.

Setas é contra o regresso ao carvão para produção de eletricidade como fizeram a Espanha e a Alemanha, e afirma que o país está bem encaminhado para antecipar para 2045 a meta da neutralidade carbónica. O que estraga a média, em termos de pegada carbónica, são os fogos em Portugal: “Para nós, tem mais impacto hoje anos maus em termos de incêndios na nossa pegada carbónica do que emissões da produção de energia elétrica”.


Acredita que vamos sair do Egipto com algum tipo de acordo, nomeadamente sobre os “danos e perdas”?
A COP26 foi uma COP mais de compromissos e esta COP27 é uma COP de ação e de sentido de urgência. É uma COP que sai de uma visão muito centrada no clima para uma visão mais integrada sobre o impacto na natureza, o impacto social e a transição justa. E é uma COP que sai do hemisfério norte para ir para o hemisfério sul. E, nesta perspetiva, há quatro temáticas que estão em cima da mesa: a mitigação, a adaptação, os “danos e perdas” e o financiamento.

Uma das coisas que se tem estado a discutir aqui, é como os países desenvolvidos vão compensar os países em desenvolvimento, ou seja, como é que o hemisfério norte vai compensar pelos danos que o hemisfério sul tem estado a sofrer com as mudanças climáticas. Como é que o hemisfério norte ajuda a financiar a transição climática de uma maneira inclusiva. Há países que ainda nem estão a falar de transição: nós temos 4 mil milhões de pessoas a viver com menos de 5,5 dólares por dia, ou seja, metade do mundo vive hoje com menos de 6 dólares por dia. Eu acho que estas 4 mil milhões de pessoas têm de ser compensadas pelas mudanças climáticas e a compensação passou a ser o tema central da COP27.

Mas ainda vamos a tempo de ter um compromisso concreto em Sharm el-Sheikh?
Vejo as partes muito empenhadas em sair daqui, pelo menos, com aqueles 100 mil milhões de dólares. Os 100 mil milhões que colocaram em cima da mesa no ano passado. Todos os discursos que vemos aqui são discursos inflamados, muito assertivos, de que agora é o momento de ação e que não se pode voltar atrás. Mesmo o reafirmar da meta de 1,5º é um compromisso que nós assinámos em Glasgow. Portanto, acho que há vontade política.

Por falar em discursos inflamados, concorda com o tom dramático de António Guterres quando disse que estamos “numa autoestrada a caminho do inferno climático, com um pé no acelerador”?
Vamos aos factos. De acordo com a ciência, nós temos de chegar a 2050 com menos 43% de emissões. Nas contas que se fazem hoje, nós vamos chegar com menos 6%. Portanto, estamos longe e as estimativas que se fazem de aumento da temperatura já são entre 2,5º a 2,8º. No "cenário ótimo", tudo a correr bem, vamos para 1,8º, acima de 1,5º. Mas o cenário mais provável já é um cenário de 2,5º a 2,8º.

Participou nesta COP27 num debate sobre o REPowerEU, com a comissária europeia para a Energia, Kadri Simson. O REPowerEU procura também reduzir a dependência face ao gás russo. Ainda vamos a tempo de evitar que a Europa passe frio, não diria neste Inverno (as reservas estão cheias), mas no próximo?
Tenho uma visão otimista sobre isso. Do ponto de vista energético, para este inverno nós temos a situação completamente controlada, com as reservas de gás a níveis historicamente altos e os fornecimentos de GNL (Gás Natural Liquefeito), para substituir o gás russo, são adequados. A Europa está preparada, incluindo a Alemanha que era dos países que tinha uma dependência maior do gás russo: chegaram a ter 60% de dependência do gás da Rússia. A Europa como um todo dependia 40% do gás russo e nós hoje já estamos com entre 5 a 10% de dependência. A Alemanha também está a trabalhar para reduzir essa dependência, em particular com unidades de gasificação flutuantes: tem seis ou sete novas unidades. O Nord Stream tinha uma capacidade de fornecimento de cerca de 55 bcm, assumindo que esse fornecimento está todo comprometido, os alemães têm hoje 35bcm em GNL adicionais que vão estar disponíveis no próximo Inverno.

Resumindo, não vamos passar frio.
Não vejo esse risco nesta altura. Acho que a Europa é um continente extremamente evoluído, maduro. O REPowerEU estabelece até uma meta ainda mais ambiciosa de penetração de renováveis, de 40% para 45%. Acho que o quadro de políticas públicas e o quadro regulatório são bastante claros. Há um desafio depois que é refletir isto tudo nos estados-membros, e aí temos realidades mais dispares em países como a Polónia ou como a Roménia.

Sente-se aqui nestes corredores de Sharm el-Sheikh muito sentido de urgência. Sabemos que ainda há muitos desafios, até porque os grandes emissores têm metas que não têm um ritmo tão elevado de descarbonização como a Europa, mas acho que o caminho faz-se caminhando. Mesmo que algumas das metas possam ser utópicas, são importantes para nos fazer caminhar de uma forma acelerada.

Miguel Setas num debate na COP27 com a comissária europeia para a Energia, Kadri Simson.

Miguel Setas num debate na COP27 com a comissária europeia para a Energia, Kadri Simson.

Portugal está em condições de antecipar neutralidade carbónica para 2045 e atingir a nova meta de ter, daqui a quatro anos, 80% da energia produzida com renováveis?
Estamos a trabalhar nesse sentido. E como sabe, a EDP, ela própria, tem objetivos bastantes agressivos de chegar a 2025 sem carvão (não só em Portugal, mas no resto das geografias). O principal emissor de carbono já o fechámos, era a Central de Sines, e ainda temos umas centrais térmicas (a gás natural com base em ciclo combinado) e vamos levá-las até 2030. O nosso objetivo é chegar a 2030 com 100% de energia produzida com fontes renováveis.

Portugal tem uma das posições mais destacadas na Europa em termos de penetração de renováveis, por causa da nossa matriz hidroelétrica muito relevante, e a penetração do solar e do vento também já começa a ter escala. No caso da EDP nós já temos 70% da nossa energia produzida com fontes renováveis a nível global e queremos chegar aos 100% em 2030. Portugal tem sido, de facto, um bom aluno. Apesar de sermos um país pequeno, nós somos respeitados aqui nestes fóruns internacionais. Fizemos o nosso trabalho de casa, nomeadamente com o ‘phasing out’ do carvão.


Fizemos bem em não voltar atrás com as centrais a carvão, como fez Espanha ou a Alemanha por causa da guerra?
Faz sentido, nós revemo-nos totalmente nessa direção, uma decisão acertada, e que concorre para a transição energética. Temos hoje alternativas que asseguram a estabilidade do sistema, não vemos necessidade de estar a reverter essa decisão.

Não nos faz falta o carvão?
Para nós, é mais impactante no nosso footprint de emissões os incêndios, – 2017, como sabemos, foi um ano fatal – tem mais impacto hoje anos maus em termos de incêndios na nossa pegada carbónica do que emissões da produção de energia elétrica. Há outros setores da economia, em particular a preservação das florestas, que têm um papel fundamental na nossa pegada carbónica e nos objetivos que Portugal quer atingir. A trajetória das emissões portuguesas vinha a descer na última década, regista um pico em 2017 por causa dos incêndios, depois volta a descer, e nos últimos anos voltou a ter um agravamento por causa dos incêndios. Querendo controlar a nossa pegada carbónica, essa é uma agenda que temos de privilegiar.

Sobre a EDP, quantas pessoas tem a vossa delegação na COP27 e o que tem estado a fazer no Egipto?

Temos aqui uma equipa de dez pessoas, dividimos entre a primeira e a segunda semana, com representações do Brasil, de Portugal, de Espanha, das nossas principais geografias. Tivemos presença em vários painéis, sobre política energética, transição justa, sobre hidrogénio e tecnologia.

E nesses painéis contam o que têm feito no sentido de descarbonização da empresa?
Sim, contar o nosso caso de investimento, partilhar as nossas preocupações e ouvir outros casos que nos podem inspirar.

O que mais se orgulham de mostrar lá fora?
O nosso negócio é totalmente radicado numa agenda sustentável. 80% do nosso investimento é em renováveis, 15% em redes para garantir a transição energética e os outros 5% em soluções para os clientes finais. Hoje, não temos de andar a fazer greenwashing ou embelezar uma história que não seja verdadeiramente sustentável. Do nosso Capex (despesas de investimento) de 24 mil milhões de euros até 2025, 80% são energias renováveis. Queremos chegar a 2030 carbonicamente neutros.

E fazemos isso numa lógica de transição justa, ou seja, não deixar ninguém para trás. Um exemplo disso foi o caso de Sines, ou seja, cuidar dos trabalhadores que lá estavam, cuidar da comunidade local, arranjar projetos de empreendedorismo local, fazer projetos de atração de turismo, de requalificação de profissionais e, agora, quando se proporcionar, fazer o Green H2 Atlantic que é o projeto de hidrogénio verde, e a requalificação daquele espaço para um hub de hidrogénio.

Nós trazemos aqui uma história, que é uma história muito coerente, somos a terceira empresa elétrica em termos de proporção de energia renovável na Europa. Trazemos aqui uma história tão fácil de contar que não temos de andar a esconder nada.

E nas novas tecnologias, no que estão a apostar além do hidrogénio?
Nas novas tecnologias, quatro coisas muito importantes: 1) hidrogénio verde, 2) capacidade de armazenamento, 3) floating offshore com o windfloat em Viana do Castelo (era até agora a maior instalação de floating offshore, com uma capacidade de 25MW, mas a Noruega ultrapassou-nos), e ainda temos 4) Alqueva com os painéis fotovoltaicos flutuantes.