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Empresas portuguesas apostam no clima e no trabalho digno. No mar, nem por isso

Empresas portuguesas apostam no clima e no trabalho digno. No mar, nem por isso
João carlos Santos

As grandes empresas portuguesas saem bem na fotografia no primeiro relatório sobre a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Mas ainda há trabalho a fazer

A Universidade Católica juntou-se à Fundação BPI “la Caixa” e à Fundação Francisco Manuel dos Santos para lançar o primeiro estudo sobre a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) por parte das empresas portuguesas. E a principal conclusão é que Portugal “é um país relativamente avançado no progresso da Agenda 2030”, mas ainda há trabalho a fazer por parte das empresas, sobretudo nas Pequenas e Médias Empresas (PME).

Os ODS fazem parte da Agenda para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, uma agenda subscrita por 193 países em 2015 e que fixou 17 objetivos a serem atingidos até 2030. Os objetivos vão da erradicação da pobreza à criação de cidades sustentáveis, passando pela igualdade de género e pelo trabalho digno (veja aqui todos os 17 objetivos).

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável - ONU Portugal (unric.org)

Este ano, Portugal deu um salto da 27ª para a 20ª posição no ranking dos países mais bem encaminhados para o cumprimento nas metas ODS, numa lista liderada pela Finlândia e que tem o Sudão do Sul na última posição (165ª).

Este estudo feito pelo do Center for Responsible Business & Leadership da Católica analisou à lupa o comportamento de 60 grandes empresas e mais de 100 PME para chegar à conclusão que “as empresas portuguesas têm uma grande consciência da importância da Agenda do Desenvolvimento Sustentável”, mas o relatório alerta que “as grandes empresas, fruto de exigências legais e de mercado, apresentam um maior progresso nos ODS que as PME, apesar de existirem ainda desafios transversais a todo o setor privado”.

“Uma enorme perda de oportunidade nos Oceanos”

A outra conclusão do estudo é que as empresas não dão a mesma importância aos 17 objetivos da Agenda 2030. Quando questionadas acerca de quais os ODS que elas incorporam na sua estratégia corporativa, 88,3% das empresas indicam o “Trabalho digno e crescimento económico” e a “Ação Climática”. O ODS menos incorporado pelas empresas portuguesas nas suas estratégias é o da “proteção da vida marinha” e da “erradicação da pobreza”. Estes dois ODS têm “a pior performance no nosso país, o que torna premente a inversão desta tendência de negligência destes objetivos por parte das empresas portuguesas”, referem os autores deste relatório.

A pouco atenção dada pelas empresas à “proteção dos oceanos e vida marinha” salta à vista e causa estranheza porque Portugal possui a terceira maior zona económica exclusiva da União Europeia e a 10º maior no mundo, sendo que 97% dessa zona é composta por mar.

Filipa Pires de Almeida, gestora de projeto e investigadora principal deste estudo, explica ao Expresso que este resultado talvez não seja assim tão estranho porque “as empresas tendem a focar nos objetivos mais ligados às suas operações e àqueles pelos quais são mais pressionadas a responsabilizar-se como o ‘trabalho digno e crescimento económico’, o ‘consumo e produção sustentável’ e a ‘ação climática’. Para a Deputy Director do Center for Responsible Business & Leadership da Católica, o objetivo da ‘proteção dos oceanos e vida marinha’ é estratégico para Portugal mas “é um dos ODS em que o nosso país tem pior performance. Significa, portanto, que as empresas têm uma enorme perda de oportunidade de inovar e contribuir para a economia portuguesa, quando não olham para este ODS como estratégico”.

Além do mar, que objetivos desta agenda das Nações Unidas têm de ser mais trabalhados em Portugal? Filipa Pires de Almeida diz que ainda temos um caminho a percorrer “na agricultura sustentável, na produção e tratamento de resíduos e nos temas da biodiversidade terrestre e florestas”.

Grandes empresas dão formação, a PME não

Neste estudo, quando se pergunta às empresas se alguma vez fizeram uma formação em ODS, fica evidente a diferença que existe entre as grandes e pequenas empresas. 25% das grandes empresas já deram formação aos trabalhadores pelo menos uma vez, e 36,7% já deram formação várias vezes. No caso das PME, 74,8% nunca fez sequer uma única ação de formação sobre o tema.

Outro dado curioso deste estudo é perceber que departamentos, dentro da própria empresa, estão mais ou menos motivados para atingir os objetivos de desenvolvimento sustentável. Por esta ordem, os departamentos de sustentabilidade, os conselhos de administração e os departamentos de comunicação são os que mais se preocupam com esta temática. Os departamentos menos motivados são os de Tecnologias de Informação e os de Finanças/Contabilidade.

Os bons exemplos

O relatório termina com vários exemplos de boas práticas por parte das empresas portuguesas nas várias aéreas dos ODS. Em termos de integração dos ODS nas estratégias empresariais, a equipa responsável pelo estudo dá o exemplo da Navigator Company que criou uma Agenda de Gestão Responsável, denominada Agenda 2030 e que envolveu 540 stakeholders internos e externos. Em termos de comunicação, o bom exemplo vem do Millennium bcp que elaborou um relatório exclusivamente dedicado a reportar o seu contributo para os ODS. Neste reporte, para cada ODS, o banco apresenta o seu objetivo, o seu contributo, as iniciativas implementadas e os resultados alcançados.

Em relação à redução das emissões de carbono, o bom exemplo vem da Caixa Geral de Depósitos que criou em 2007 um programa com o objetivo de reduzir o impacto ambiental das atividades do banco, com medidas que vão de políticas de crédito segmentadas até à instalação de uma central solar térmica no edifício sede, o que permite a produção de energia para autoconsumo. O parque solar flutuante do Alqueva da EDP, que pode abastecer com energia mais de 30% da população naquela região do Alentejo, é o bom exemplo escolhido no capítulo do desenvolvimento de energias alternativas e, no caso da Brisa, os autores do relatório dão o exemplo da estratégia da concessionária para a redução dos acidentes rodoviários.

Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail: clubeexpresso@expresso.impresa.pt

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