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“Vi situações desumanas de doentes em macas num corredor da urgência durante semanas”: a grande entrevista ao novo bastonário dos médicos

“Vi situações desumanas de doentes em macas num corredor da urgência durante semanas”: a grande entrevista ao novo bastonário dos médicos
José Fernandes

O novo bastonário quer mudar a Ordem dos Médicos para que “tenha uma intervenção social” e avisa que “se houver a necessidade de ponderar o número de vagas para manter a qualidade da formação, a Ordem tomará a sua responsabilidade na defesa da qualidade da medicina”. Em entrevista exclusiva ao Expresso, Carlos Cortes critica a atuação da Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde pelas “medidas desconexas sem paralelo” e só responderá se o estado de graça da equipa ministerial acabou depois de lhes apresentar a sua “visão holística para a saúde”

É patologista clínico e desde a passada quarta-feira bastonário da Ordem dos Médicos. Aos 53 anos, Carlos Cortes quer modernizar a Ordem, criar gabinetes para intervir nas questões de violência doméstica ou sexual, discriminação, migração, ambiente e até na organização das cidades. O bastonário afirma que continua sem ver a Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde a iniciar as reformas necessárias e deixa um recado: irá opor-se a todas as medidas que visem formar mais médicos e ameaçar a qualidade da formação. Em campanha, Carlos Cortes visitou todos os hospitais e confessa: "Vi situações confrangedoras e até desumanas de doentes em macas num corredor da urgência durante semanas porque não tinham onde ser colocados."

A doença do Serviço Nacional de Saúde (SNS) é a falta de médicos?
O problema é a reforma profunda do SNS, e está mais do que demonstrado que não há médicos. O SNS tem tido enorme dificuldade em atrair profissionais, nomeadamente médicos, e incapacidade de os atrair por duas razões. A primeira são condições de trabalho para poderem tratar os doentes. E essa é a missão das ordens, ao serviço dos seus destinatários e que no caso da Ordem dos Médicos (OM) são os médicos, que estão ao serviço dos doentes. Após a democracia tínhamos muito menos condições e o SNS foi criado precisamente porque se entendia que as dificuldades sociais tinham impacto na saúde das pessoas. Estamos novamente nessa fase e é preciso tornar o SNS atrativo, dignificando o papel dos médicos – é um trabalho sindical, mas a OM representa os seus associados.

E esse esforço está a ser feito? Aquilo a que estamos a assistir é ao encerramento de serviços.
O Ministério da Saúde não pode estar de costas viradas para os profissionais como esteve nestes anos. Tem de estar junto deles, tem de formar uma grande equipa com todos. Houve uma espécie de guerra permanente entre quem liderava o SNS e os seus profissionais.

Refere-se à antiga ministra da Saúde Marta Temido?
Não me estou a referir a nenhum ministro em concreto, estou a dizer que isso acontecia. Os médicos precisam de condições para praticarem atos médicos de qualidade e de atração, nomeadamente revisão das carreiras e remuneratória, e não tenho problemas em falar nisso porque a Ordem tem de defender a dignidade dos médicos. Os vencimentos que hoje estão a auferir não estão adaptados ao seu profundo desenvolvimento técnico, à sua grande diferenciação como profissionais de saúde.

Não têm, por exemplo, o mesmo nível remuneratório dos magistrados ou dos professores universitários.
Exatamente. Citou bons exemplos, mas não vou entrar nessa matéria sindical. A OM vai estar atenta aquilo que é a dignificação da profissão médica e que, obviamente, passa também pela questão remuneratória.

O anterior bastonário Miguel Guimarães entregou um documento extenso ao ministro da Saúde como propostas para tornar o SNS mais atrativo e capaz de reter médicos. Revê-se nas propostas?
Está a falar do relatório das carreiras médicas, que foi formalmente apresentado aos médicos na semana passada. É um documento importante, estruturante e uma das primeiras ações que terei como bastonário é dar a conhecer esse documento aos órgãos próprios da OM, para ser discutido e para que possa tomar uma posição mais atenta, mais informada.

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