Sociedade

Portugueses criam duas invenções por dia

12 agosto 2010 22:22

Joana Pereira Bastos (texto) e Cristina Sampaio (ilustração) (www.expresso.pt)

Universidades e empresas nacionais apostam cada vez mais na investigação e no desenvolvimento de produtos inovadores. O número de patentes registadas em Portugal para proteção de inventos está a crescer 40% ao ano.

12 agosto 2010 22:22

Joana Pereira Bastos (texto) e Cristina Sampaio (ilustração) (www.expresso.pt)

Da educação à economia, não faltam más notícias nos jornais, nem estudos que revelam o atraso de Portugal e colocam o país no fundo da tabela nas mais variadas comparações internacionais. Mas no que toca à criatividade e à inovação o cenário é bem diferente. As invenções portuguesas estão a aumentar a um ritmo de 40% ao ano desde 2004. E a evolução é tal que Portugal já é o país da Europa com maior crescimento nos pedidos de patente para proteção de inventos no espaço comunitário.

Desde a descoberta de novos fármacos à criação de equipamentos para utilização de energias renováveis, passando pela conceção de sistemas de rega inteligentes ou dispositivos que permitem medir a dor, são de todos os tipos os pedidos de patente que chegam ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). Só em 2009 foram recebidos 723, a uma média recorde de dois por dia.

António Campinos, presidente do INPI, assegura que os investigadores portugueses "estão cada vez mais a dar cartas no mercado global", sobretudo em domínios como a química, farmacêutica, informática e telecomunicações ou em áreas de ponta como a biotecnologia e a nanotecnologia.

"É quase demasiado bom para ser verdade, mas o certo é que, no que diz respeito à inovação e ao desenvolvimento tecnológico, Portugal está a crescer a um ritmo muito superior à média da União Europeia. Ao nível da ciência, já temos um desempenho comparável ao dos países mais desenvolvidos da Europa e até do mundo", concorda António Cruz Serra, presidente do Instituto Superior Técnico (IST), em Lisboa, a instituição portuguesa de ensino superior que detém mais patentes.

Laboratórios em vez de sebentas

Muitas outras escolas estão determinadas em seguir o exemplo do Técnico. Em várias universidades e politécnicos nacionais, o ensino já não se faz apenas com sebentas, mas cada vez mais com tubos de ensaio. Longe dos anfiteatros, é nos laboratórios e centros de investigação que as instituições mais têm apostado nos últimos anos.

"Havia a ideia de que o mundo académico era muito teórico, feito só de papel e caneta, mas isso está a mudar a uma velocidade vertiginosa. Neste momento, há mais de 1100 alunos de doutoramento no IST, o que era absolutamente impensável há três ou quatro anos. Se nessa altura alguém tivesse a ousadia de propor essa meta como objetivo estratégico, toda a gente se iria rir", exemplifica o presidente da instituição.

Apesar de relativamente recente, a verdade é que a mudança de paradigma e a aposta crescente na investigação já estão a dar resultados: no ano passado, pela primeira vez, o número de publicações científicas produzidas em Portugal e citadas internacionalmente foi superior à média europeia, revela o responsável do INPI.

Mas a investigação não é apenas uma aposta das universidades. As empresas nacionais têm investido cada vez mais na criação de produtos e equipamentos pioneiros. Tanto que em 2009 o investimento privado em inovação superou o investimento público, "algo inédito na história do país", continua António Campinos. O facto é ainda mais surpreendente se se tiver em conta que as verbas do Orçamento do Estado afetas à ciência não só não diminuíram como têm vindo a aumentar e no ano passado chegaram mesmo a 1,4% do PIB.

Empresários mais inovadores

"Há uma mudança muito evidente de mentalidades entre os empresários, sobretudo os mais jovens. As empresas portuguesas têm vindo a internacionalizar-se e já perceberam que a única forma de conseguirem competir em mercados mais exigentes é através da inovação e da propriedade industrial", explica António Câmara, professor universitário e fundador da Ydreams, empresa especializada em tecnologias de interação, que já desenvolveu mais de 500 projetos em todo o mundo.

Nem a crise veio travar o novo ímpeto inovador de universidades e empresas. Pelo contrário. Parece até ter servido como uma alavanca da criatividade, já que o crescimento do número de patentes disparou em 2008 e 2009, exatamente quando a conjuntura económica mais se agravou.

Crise "aguça o engenho"

"Há mais investigação em períodos de depressão económica. Aconteceu o mesmo em 2002, quando atravessámos outra crise. Nestas alturas o número de empresas a contactar as universidades para projetos de investigação é sempre maior, porque os empresários percebem que essa é a melhor forma para poderem crescer e resistir à crise", diz o presidente do Técnico.

Segundo António Campinos, do INPI, a lógica é simples. Se a invenção é sempre uma resposta a um problema ou a uma carência e em períodos de crise as carências são maiores, então é também nessas alturas que há mais criatividade e motivação para inovar. De preferência criando novas soluções que permitam às empresas baixar custos de produção e vender mais. "Costuma dizer-se que a necessidade aguça o engenho. Não pode ser mais verdade. Sobretudo num país como Portugal, que já praticamente não dispõe de matérias-primas. A única com que ainda podemos contar é a que sai das nossas cabeças".

Cristina Sousa, membro do grupo de investigação em Inovação e Conhecimento do Centro de Estudos sobre a Mudança Socioeconómica do ISCTE

Os portugueses são conhecidos pela capacidade de "desenrascanço". Isso é um sinal de criatividade? A criatividade portuguesa é reconhecida internacionalmente. Os nossos criativos que vão lá para fora acabam por brilhar e ganhar imensos prémios. E temos sectores que já são extraordinariamente criativos e inovadores, como o software ou a biotecnologia, por exemplo. Mas, no geral, o panorama do emprego em Portugal ainda não fomenta muito a criatividade.

Porquê? Porque estamos a fazer a transição de um modelo competitivo baseado em baixos custos para um modelo baseado na inovação e isso é muito complexo. Muitas empresas ainda não deram o salto e estão presas algures a meio do caminho. Já começaram a fazer alguns investimentos em inovação, mas em pequena escala. Nos sectores mais tradicionais, como o calçado, por exemplo, até já podem ter um excelente criativo que faz uns modelos ótimos, mas o grosso são operários a trabalhar em linhas de montagem e que se limitam a fazer operações repetitivas e rotinizadas. E ter apenas um ou dois criativos é totalmente diferente de ter 10 ou 20.

A crise pode ajudar à inovação? As épocas de crise são boas para a inovação porque as empresas que estão mais ameaçadas sentem mais a necessidade de arregaçar as mangas e procurar soluções inovadoras. É uma questão de sobrevivência.

Invenção pioneira no mundo nunca foi patenteada

É considerada uma das maiores invenções made in Portugal dos últimos anos, mas nunca foi registada. No início da década de 1990, a Brisa criou a Via Verde e tornou-se a primeira empresa do mundo a desenvolver um sistema de portagem automática aplicável de forma universal a todo o país, independentemente da autoestrada utilizada, do local de entrada e saída ou da instituição bancária associada à conta do automobilista.

A tecnologia baseada em radiofrequência era de origem norueguesa, mas a ideia de a aplicar ao sistema de portagens, através de uma antena e de um identificador, foi nacional e totalmente pioneira. No entanto, a empresa não ficou com quaisquer direitos sobre a invenção, uma vez que nunca a registou. "Não pedimos a patente porque, na altura, o registo de patentes em Portugal ainda estava muito verde e havia pouco conhecimento sobre a forma como as coisas se faziam. Foi uma pena", lamenta Jorge Sales Gomes, diretor do departamento de inovação da Brisa.

Pena parece pouco. Se tivesse a patente internacional da invenção, "a Brisa seria atualmente um gigante mundial", assegura António Campinos, presidente do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Não é caso para menos. Ainda hoje, a Brisa é todos os meses contactada por empresários do mundo inteiro - dos EUA à Austrália, do Brasil à África do Sul - interessados em perceber melhor como o sistema funciona para poderem também aplicá-lo nos seus países. Mas a empresa aprendeu a lição.

Agora, tem advogados especialistas em patentes e um departamento de inovação que trabalha com uma rede de 60 investigadores. Acabou de ganhar a patente nacional de um sistema de reconhecimento automático de matrículas para cobrança eletrónica de portagens e já pediu a extensão dos direitos para os Estados Unidos e para todo o mercado europeu.

Texto publicado na edição do Expresso de 7 de agosto de 2010