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Morreram os irmãos Mayer

Um era fotógrafo e outro pianista. Ivo Mayer morreu sexta-feira, Augusto faleceu hoje. Augusto era o mais velho, tinha 86 anos, Ivo fizera 84.

O fotógrafo Augusto Mayer, 86 anos, faleceu hoje em Lisboa, no hospital de Santa Maria, onde se encontrava internado, disse à Lusa o historiador de jazz João Moreira dos Santos, sem adiantar outros pormenores.

O fotógrafo faleceu um dia depois do seu irmão, o pianista de jazz Ivo Mayer, de 84 anos, cujo funeral se realiza no domingo de manhã, em Muge, no concelho de Salvaterra de Magos.

Ivo Mayer, um histórico do jazz

Ivo é "um dos históricos do jazz em Portugal", segundo João Moreira dos Santos, estreou-se em 1944 e colocou fim à carreira artística em 1964, quando morreu o seu pai.

Cresceu numa família com tradição musical em que ambos os pais eram instrumentistas não profissionais de guitarra (o pai) e piano (a mãe). "O jazz entrou na sua vida em meados dos anos 1940, quando ainda era estudante", disse o historiador.

Este lisboeta da freguesia de Santa Catarina estudou piano a partir dos cinco anos, e aos 18 concluiu o sexto ano de piano do Conservatório Nacional.

"Inicialmente influenciado pelo pianista norte-americano Carroll Gibbons, líder da orquestra do Hotel Savoy, de Londres, aos 17 anos, fruto da amizade com Gérard Castello-Lopes, expôs-se à música de Duke Ellington, músico que o impressionou e aproximou definitivamente do jazz", disse Moreira dos Santos.

Estreou-se em 1944, no Clube Radiofónico de Portugal, e posteriormente passou a colaborar na Emissora Nacional, integrando um conjunto de música ligeira composto, entre outros, por Fernando Freitas da Silva e Augusto Cabrita, agrupamento com o qual participou na Festa do Fado, no Coliseu de Lisboa.

"A sua ligação a esta estação radiofónica consolidou-se logo no início dos anos 1960, década em que juntamente com Beatriz Sousa Santos manteve, durante três anos, um programa de música ligeira a dois pianos; seguiu-se o programa 'A Nova Onda', em que integrou um conjunto composto por Paulo Gil, Fernando Chiotte, Rui Cardoso e Bernardo Moreira, banda que participou também em programas da RTP", contou o investigador.

"Entre os anos 1950 e 1960, tocou regularmente no Hot Clube, tendo acompanhado diversos músicos estrangeiros de passagem por Lisboa, nomeadamente, o trompetista Red Rodney", acrescentou.

O corpo do pianista está a ser velado na igreja dos Santos Reis Magos, no Campo Grande, em Lisboa, onde, domingo pelas 10h, é rezada missa de corpo presente, seguindo-se o funeral para o cemitério de Muge, no Ribatejo.

Augusto Mayer, a história do jazz

A Augusto "se devem as imagens que permitem contar a história do jazz, entre nós, ao longo de quatro décadas, de 1940 a 1970, atividade que prosseguiu sempre como amador em função da sua paixão por este género musical".

Tal como o irmão Ivo "conviveu desde cedo com a música tocada em casa pelos pais, ambos instrumentistas não profissionais".

O contacto com o jazz surgiu durante o tempo de estudante, através da rádio, "particularmente a BBC, cujo programa 'Music While You Work', transmitido com o objetivo de incrementar a produtividade dos operários durante a II Guerra Mundial, lhe trazia até casa a sensacional orquestra de Glenn Miller".

Começou a cultivar os discos de jazz, alguns trazidos pelos pais do estrangeiro. "Em 1953, em Paris, assistiu ao seu primeiro grande espetáculo de jazz ao vivo, um concerto histórico protagonizado pela orquestra de Lionel Hampton", contou Moreira dos Santos.

"A sua dedicação à promoção do jazz iniciou-se por volta de 1945, data em que começou a colaborar no programa 'Música Moderna', emitido pela Rádio Juventude, ligada à Mocidade Portuguesa", disse o investigador.

"As suas funções, exercidas graciosamente, passavam pela seleção dos discos a difundir, essencialmente as grandes orquestras de swing da época, e prolongaram-se durante cerca de cinco anos", contou.

Ainda em 1945 estreou na Emissora Nacional o programa 'Hot Club', criado por Luís Villas-Boas, que já conhecia.

"Foi, porém, através de um outro amigo amador de jazz que tomou conhecimento da fundação do futuro Hot Clube de Portugal, notícia que lhe bastou para enviar de imediato vários postais para este programa, solicitando a respetiva associação. O seu entusiasmo levou-o a participar ativamente nas primeiras reuniões de sócios, eventos realizados no Café Palladium, e no restaurante Belvedere, ambos em Lisboa", disse Moreira dos Santos.

Na década de 1950 foi vice-presidente e tesoureiro do Clube e "desempenhou um papel relevante ao descobrir aquela que seria a sua sede, na Praça da Alegria, e ao organizar, em 1958, o IV Festival de Música Moderna, substituindo Villas-Boas, ausente em França".

"Ajudou também a tornar possíveis dezenas de 'jam-sessions' promovidas pelo Hot Clube, transportando no seu automóvel inúmeros músicos e respetivos instrumentos", contou.

"Fotógrafo autodidata e amador; profissionalmente, distinguiu-se no comércio de antiguidades, colaborando desde 1950 na ourivesaria fundada pelo pai, em 1917, começou a tirar fotografias de jazz meramente para futura memória pessoal, datando as imagens mais antigas de fevereiro de 1948, data da realização, no café Chave d'Ouro, da primeira 'jam-session' pública promovida em Portugal", disse à Lusa o investigador.

Pelas objetivas das suas máquinas fotográficas passaram, ao longo de quatro décadas, os rostos de quase todos os músicos de jazz portugueses em atividade entre os anos 1940 e 1970 e alguns dos grandes ícones do jazz, nomeadamente Sidney Bechet, Count Basie, Duke Ellington, Oscar Peterson, Quincy Jones, Benny Goodman, Miles Davis, Bill Evans, SarahVaughan, George Wein, Red Rodney e Ronnie Scott.