2 junho 2020 14:35
Já arrancou a terceira fase do Inquérito Nacional Serológico, para determinar os anticorpos da população portuguesa contra a covid-19
nuno botelho
Projeto está pronto a arrancar e visa apurar a prevalência da doença em Portugal, a tempo de prevenir o embate de uma eventual segunda vaga. Estratégia assenta em duas vertentes: uma linha nacional e outra de âmbito local ou sectorial. Definir uma "população sentinela" será o primeiro passo
2 junho 2020 14:35
Apurar a prevalência da covid-19 em Portugal, a tempo de prevenir o embate de uma eventual segunda vaga, é um dos objetivos do estudo serológico projetado por um grupo multidisciplinar de cientistas. Para o efeito, os especialistas propõem uma estratégia concertada, assente em duas vertentes: uma linha nacional, e outra local ou sectorial, a implementar em três fases (com o possível envolvimento de autarquias e estruturas regionais/locais de saúde).
De acordo com o plano desenhado, o roteiro começará por fazer “uma primeira fotografia do impacto da doença através de um estudo-piloto nacional, com uma amostra representativa da população”, adianta o comunicado que divulga a proposta. De acordo com a precisão desejada das estimativas de prevalência a nível nacional, deverá ser necessária “uma amostra aleatória de 5000 testados”, é detalhado.
Assim, o inquérito nacional de sero-prevalência da covid-19 proposto incluiria a realização de “um questionário e a colheita de uma amostra de sangue aos participantes e a subsequente realização de testes serológicos para permitir conhecer se a pessoa teve contato e resposta ao vírus mas, também, estimar quantos desses tiveram sintomas ou foram assintomáticos”, conforme refere André Peralta dos Santos, da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa.
A proposta é acompanhar o primeiro grupo “como população sentinela”, a partir da qual os cientistas pretendem conduzir um estudo que permita “monitorizar periodicamente as ondas da epidemia ao longo do tempo”. “Avaliar regularmente a quantidade de pessoas com anticorpos contra este coronavírus, é um importante indicador epidemiológico na gestão a médiolongo prazo da epidemia e no ajustamento das medidas de mitigação”, realça Pedro Pita Barros da NOVA SBE.
“Numa terceira fase, e após obtenção da estimativa fiável da prevalência da infeção em território nacional, os peritos propõem a realização de um estudo mais vasto com maior granularidade regional e com poder estatístico para gerar estimativas de seroprevalência com grande precisão”, precisa o mesmo comunicado.
A definição dos parâmetros necessários para condução de um estudo nacional permitirá, segundo o grupo de peritos, abrir caminho para a colaboração “com outros estudos parcelares de igual rigor, a serem promovidos por municípios ou organizações da sociedade civil”, numa colaboração “que será de grande utilidade para complementar a linha de trabalho nacional”. Estes estudos, é defendido, “podem focar a sua atenção em áreas específicas da população ou setoriais, entre os quais profissionais de saúde, autoridades de segurança pública e profissionais de lares de idosos”.
Dinamizado pelo Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), e com a colaboração do Instituto Nacional de Estatística (INE), o roteiro foi desenhado em conjunto com especialistas da Escola Nacional de Saúde Pública, Universidade Nova de Lisboa (ENSP-NOVA), do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS), do Instituto de Saúde Baseada na Evidência da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, da NOVA SBE, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa), e do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, da Universidade do Porto, entre outros.
Segundo Carlos Penha-Gonçalves, coordenador do grupo de trabalho e investigador do Instituto Gulbenkian de Ciência, a “estratégia de base científica está concluída e pronta para ser implementada por entidades públicas e/ou privadas”.