Coronavírus

Covid-19. “Por favor, consuma carne nacional”, apela a indústria

27 abril 2020 19:36

mário joão

Os matadouros portugueses estão a reduzir os abates de cinco para três dias da semana e o preço da carne está em queda

27 abril 2020 19:36

A pandemia de covid-19 ditou o encerramento de hotéis e de restaurantes e, depois de um período de duas semanas de boom no consumo da carne, a acompanhar a corrida dos portugueses aos supermercados em cima da declaração de estado de emergência, o cenário é, agora, de abrandamento do consumo e de “grande preocupação”, diz ao Expresso Carlos Ruivo, presidente da Associação Portuguesa dos Industriais de Carnes (APIC).

“Neste momento, os matadouros portugueses já estão a trabalhar apenas três dias por semana e não os cinco dias úteis habituais”, afirma o empresário e dirigente associativo, admitindo que a quebra nos abates de suínos, em abril, ronda 26%.

Num sector que não entrou em lay-off, mas que está a trabalhar a meio gás, o apelo deixado aos portugueses é para consumirem carne nacional e, assim, “ajudarem as empresas do sector a sobreviver e a manter os esforços para garantirem a segurança da cadeia alimentar”.

Na verdade, o país é tradicionalmente deficitário na produção e, no caso da carne de porco, depende em 40% das importações, quase sempre de Espanha. No entanto, com a quebra no consumo em quase 30% esta dependência deixou de existir e os matadouros começaram a ter dificuldade em colocar no mercado a carne de porco portuguesa.

A posição da APIC, “em defesa do consumo de produtos nacionais”, tal como outros segmentos da fileira agroalimentar, é justificada em nome “da defesa da economia nacional”, sublinha Carlos Ruivo, atento ao facto de a pandemia ser uma oportunidade para acentuar esta tendência de “preferir o que é nosso”.

No caso dos produtos transformados, a APIC pede especial atenção ao código de barras: “tudo o que começa em 560 é made in Portugal”, explica a associação. Na carne fresca, “a identificação torna-se mais complicada”, no entanto, acredita, “com a consciencialização dos consumidores, o selo Portugal Sou Eu pode passar a estar presente na carne”.

Ao mesmo tempo, o sector pede alterações no IVA dos produtos transformados, propondo a descida da taxa do imposto de 23% para 6%, tal como a carne fresca, para tornar a oferta nacional mais competitiva.

Atenção ao fim do mês

Para além dos matadouros, a quebra no consumo de carne também afeta diretamente os produtores e está a ter impacto no preço. “O preço por quilo está a descer. No caso da carne de porco, o preço pago ao produtor passou de 1,5 euros para 1,4 euros e nos bovinos já desceu de 3,90 euros por quilo para 3,77 euros”, concretiza.

Agora, a APIC, que representa empresas do setor de abate, desmancha e indústria de transformação de carnes de suíno e bovino, está especialmente atenta para ver o que se vai passar no fim do mês: “as pessoas que continuam empregadas vão receber os seus ordenados, muitas delas com cortes, e o fim do mês é um momento tradicional de compras. Será decisivo para percebermos se vão voltar a comprar mais ou se vão retrair o consumo. E o que as pessoas fizerem vai impactar no nosso trabalho e nas nossas empresas, obviamente",

O universo das 85 empresas associadas da APIC emprega 7.300 pessoas, contribui para a economia nacional com 1,5 mil milhões de euros e representa mais de 75% dos operadores económicos do sector.