Sociedade

A época é de festejos, mas não há milagres: “Não há medicamentos para a ressaca. O melhor remédio é não beber”

1 janeiro 2023 13:08

wilpunt

Dezembro é o mês dos almoços ou jantares de grupo e do Natal com mesa recheada. Chega agora a passagem de ano, mais um momento muitas vezes associado a um consumo excessivo de álcool. O Expresso procurou esclarecer as dúvidas relacionadas com o estado de ressaca, um mal-estar para o qual a solução é não chegar até lá

1 janeiro 2023 13:08

A época festiva em que nos encontramos é propensa a excessos, tanto alimentares como ao nível do consumo de álcool. Há quem procure produtos que ajudem a curar ou aliviar os sintomas associados à ressaca – o mal-estar causado pelo consumo excessivo de bebidas alcoólicas.

Uma busca em vão: o médico e presidente da Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF), José Presa, garante que “não há medicamentos para a ressaca”. “O melhor remédio para a ressaca é não beber”, realça o especialista em medicina interna, com formação em hepatologia.

“Não há nenhuma evidência científica. Pela internet existe muita coisa, até recentemente houve um medicamento que foi muito publicitado para a ressaca. Os estudos que eram apresentados para esse medicamento careciam de validade científica”, salienta José Presa. Trata-se do suplemento Mykrl, lançado no Reino Unido, que prometia reduzir os efeitos associados ao consumo excessivo de álcool.

Consumo em que Portugal “não está muito bem na fotografia” – em média, os portugueses bebem 12 litros de álcool anualmente, de acordo com dados divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) no ano passado. Em 2020, registaram-se cerca de 37 mil internamentos hospitalares associados ao consumo de álcool. “É um problema muito sério.”

Depois dos almoços e jantares ao longo do mês de dezembro, “não é incomum, em meio hospitalar, vermos no mês de janeiro picos de descompensação da doença hepática alcoólica”, aponta José Presa. Também não é por acaso que decorre no próximo mês a campanha “Janeiro Sem Álcool”, promovida pela APEF.

Com a passagem de ano, o Expresso esclarece algumas dúvidas e supostas soluções, assim como, depois de o mal já estar feito, que medidas é possível adotar para tentar aliviar os sintomas que surgem, como dores de cabeça, vómitos, diarreia ou alterações no sono.

Intercalar ingestão de bebidas alcoólicas com água

Uma hipótese que poderá ser positiva se, no final, o consumo de água for superior ao de bebidas alcoólicas. “A água vai encher, aumentar o volume e saciar, acabando por não ter tanta vontade de consumir bebidas alcoólicas. Nesse aspeto, é benéfico”, explica José Presa. “Não é para diluir o álcool, é para reduzir a quantidade de álcool ingerida”, esclarece.

Beber de barriga cheia?

Já a ideia de que é mais adequado beber depois de uma boa refeição corresponde a um “mito”. “Não há nada que o demonstre. A pessoa fica embriagada exatamente da mesma forma, quer coma muito, quer coma pouco”, assegura.

Repouso e hidratação

Quando já se está num quadro de ressaca, o descanso e a água são os únicos elementos a prescrever. “É repousar e, acima de tudo, muita hidratação”, diz o presidente da APEF. E não ingerir mais nenhuma bebida alcoólica.

Em caso de dor de cabeça, pode tomar-se uma aspirina ou um paracetamol. “Mas ficarmos só por aí, não tomarmos nada de outras coisas um pouco esotéricas e que, de novo, carecem de validade científica”, acrescenta.

Uma análise publicada em novembro do ano passado na revista científica Addictive Behaviors concluiu que nenhum de 82 produtos ditos como apropriados para a ressaca – compostos por ingredientes como as vitaminas B ou C – demonstrou segurança ou eficácia.

José Presa alerta para o perigo da compra deste tipo de produtos e substâncias online, uma vez que, além de não estar comprovada a eficácia, não são conhecidas as “condições de transporte” e “o que vem lá dentro”.

Refeições ligeiras

Após um grande consumo de álcool, a opção deve recair sobre refeições ligeiras. “Se submetemos o fígado a uma agressão tão marcada como é pelo álcool, não vamos no dia a seguir fazer uma refeição copiosa, por exemplo rica em gorduras”, ilustra.

No dia seguinte, deve fazer-se uma “refeição leve, com peças de fruta, vegetais e carnes magras”. “Ou seja, aquilo a que o povo chama uma dieta.”

Efeitos da cafeína

Relativamente à cafeína, o que o especialista garante é que tem “inúmeros efeitos benéficos para a saúde”, nomeadamente para o fígado. “O café tem um grande efeito hepatoprotetor, isto é, protege o fígado”, justifica.

“Nestas situações, se a pessoa gostar de café e quiser beber café, pode fazê-lo, sem problema rigorosamente nenhum, desde que não tenha nenhuma contraindicação, obviamente”, indica.