Sociedade

Um Natal mais sustentável em seis estratégias e 12 dicas: “Celebração e consumo não deveriam ser sinónimos”

mihailomilovanovic

O pinheiro de plástico é mais ecológico que o natural? O papel de embrulho pode ser reciclado? Como posso evitar desperdiçar na ceia? O Expresso conversou com quatro jovens ativistas sobre como tornar a celebração do Natal mais amiga do ambiente

23 dezembro 2022 10:47

Tiago Serra Cunha

Grafismo

Jornalista

Seis milhões de pratos cheios de comida.

13 milhões de copos descartáveis.

54 milhões de luzes de natal.

1,2 mil milhões de toneladas de pinheiros.

12 milhões de rolos de papel de embrulho, num total de três milhões de árvores abatidas.

Estes são os números que estamos a descartar todos os natais. Segundo um estudo da Quercus, divulgado em 2020, a percentagem de lixo produzido durante as festas aumenta 24% relativamente ao resto do ano.

“Noto cada vez mais preocupação das pessoas em fazer melhor e não saberem por onde começar”, afirma Tiago Matos, engenheiro do ambiente. “No Natal, o que sinto é que são um pouco mais descuidadas, muito por serem vítimas do marketing.”

Por isso, o também ativista que mantém uma página no Instagram sobre sustentabilidade (@tiago.greentribe) defende a necessidade de "ressignificar o Natal”. “Perdemos completamente o sentido do Natal com o sentido de consumismo. O oferecer por oferecer, o gastar as poupanças em prendas que não são úteis, mas que fica bem dar, a quantidade de prendas que são dadas a cada pessoa, o stress que se vive à procura de prendas. Continuamos a viver o Natal em stress, de forma geral.”

d.r.

“Celebração e consumo não deveriam ser sinónimos, mas o Natal, tal como nos habituámos a celebrá-lo, depende quase exclusivamente da nossa capacidade de compra”, corrobora Joana Guerra Tadeu, também conhecida por “ativista imperfeita” nesta rede social. “Coincidentemente, o caminho mais rápido para celebrar o Natal de forma mais sustentável é consumir menos”, acrescenta.

Nesta linha de pensamento, Rita Tapadinhas (@plant.a.choice) propõe dois princípios gerais que crê poderem-se “aplicar não só ao Natal como em qualquer altura”: ter um consumo consciente e reduzir o desperdício.

Para isso, “há várias coisas que se pode fazer e normalmente começa sempre pelo antes, pela preparação”, defende o biólogo Ayala Botto, também autor de uma página sobre sustentabilidade e educação ambiental no Instagram.

O Expresso falou com vários ativistas e influencers com presença nas redes sociais ligada à sustentabilidade sobre dicas concretas para tornar as celebrações deste ano mais amigas do ambiente.

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Pinheiro natural ou de plástico?

Mas vamos por partes. Pinheiros e luzes são uma das imagens de marca desta quadra festiva. Aqui, o ideal é sempre reutilizar o que temos em casa, concordam os quatro jovens.

“Em casa do meu pai usamos um pinheiro artificial comprado pela minha avó nos anos 70 e as bolas da árvore de minha casa foram compradas pela minha mãe nos anos 90. Prolongar a vida daquilo que já existe é o gesto mais consciente que podemos ter enquanto consumidores seja do que for”, argumenta Joana Guerra Tadeu.

“A escolha da árvore de Natal tem diferentes impactos no ambiente”, explica Tiago Matos. “Um pinheiro natural de 2 metros emite 3,5 kg de CO2 se depois for transformado em biomassa e 12 kg de CO2 se for para aterro. Já uma árvore de Natal artificial da mesma altura emite 40 kg de CO2. Ou seja, para esta compensar devemos usá-la durante 12 anos para compensar a escolha em relação ao pinheiro natural com descarte correto. A minha tem 17 anos, por exemplo.”

d.r.

Optando por um pinheiro natural, o ideal será apostar em projetos como o Pinheiro Bombeiro, recomendam os quatro. Nestes, as árvores já tinham sido cortadas para prevenção de incêndios e podem ser devolvidas para serem corretamente descartadas, além de as receitas reverterem para fins solidários.

Se quiser adquirir novas árvores ou decorações, sugere Ayala Botto, encontra uma enorme variedade de artigos em segunda mão.

Quanto às luzes, a preferência deve ser sempre por sistemas LED. “O LED reduz até 80% dos gastos de energia”, explica o biólogo. Se estas necessitarem de pilhas, troque as descartáveis pelas reutilizáveis. Se forem ligadas diretamente na ficha, pode instalar disjuntores e temporizadores para evitar deixar as luzes ligadas quando ninguém está por perto para usufruir delas. Assim conseguirá poupar no que poderá “representar uma grande fatia da energia gasta nesta época”.

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As decorações são… descartáveis?

Quanto às demais decorações, o princípio básico mantém-se. “A decoração mais sustentável é aquela que já temos”, sintetiza Joana Guerra Tadeu.

“Na minha família, muito porque a minha mãe foi educadora de infância e professora de 1.º ciclo, é tradição agarrar em materiais que seriam lixo e transformá-los em decorações como ornamentos para árvore de Natal ou argolas de guardanapo que marcam os lugares na mesa da ceia - este ano fiz, com a minha filha, um presépio em Móbil usando um ramo que ela apanhou em Monsanto e a caixa de uma encomenda.”

Rita Tapadinhas acrescenta: “Com materiais como caixas de cartão, o interior dos rolos de papel, rolhas de cortiça, folhas aromáticas e restos de tecido conseguimos criar muita coisa. Aqui há muitas ideias na internet. E não estamos a consumir nada em excesso ou que já não existisse. Conseguimos reduzir o consumo.”

Instagram

Lembrando que criar estes enfeites pode ser uma atividade em família, numa altura em que geralmente já passamos mais tempo juntos, a fundadora não deixa de reiterar que “muitas pessoas provavelmente já têm decorações de anos passados”. “Às vezes podemos ser só criativos na forma como utilizamos as decorações (num local ou arranjo diferente) e já parece uma coisa nova sem estarmos a consumir mais”.

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A lista ao Pai Natal pode ser mais amiga do ambiente?

Mas a sustentabilidade também pode chegar aos presentes debaixo do pinheiro e no sapatinho.

“Se calhar não é uma opinião que toda a gente partilhe, mas eu acho que neste momento - em que estamos numa crise ambiental e à beira de uma crise económica - faz sentido ponderar um bocadinho até que ponto temos de estar a dar prendas em exagero e principalmente prendas que às vezes são só para cumprir uma obrigação e depois não são úteis”, reflecte Rita Tapadinhas.

Joana Guerra Tadeu também defende “não dar presentes a pessoas de quem não gostamos ou que não gostam de nós”. “Parece óbvio, mas a época presta-se a este tipo de palermices. Depois, não oferecer presentes que não são desejados - um bocadinho de abertura e honestidade leva a uma redução de desperdício nesta frente.”

Em baixo, uma lista de dicas para tornar a lista de prendas tendencialmente mais sustentável:

  • Preferir “mais experiências do que algo físico”, referem Joana Guerra Tadeu e Ayala Botto. Sejam bilhetes para concertos para o teatro, jantares ou idas ao spa ou ao zoo, este tipo de presentes “elimina o impacto da produção de um objeto que pode acabar a não ser utilizado”;
  • Comprar em segunda mão e evitar a fast fashion, são outros princípios propostos por Ayala Botto;
  • Oferecer produtos que introduzam as pessoas ao mundo da sustentabilidade também uma ideia comum. “Por exemplo um shampoo sólido é algo que se calhar a pessoa não vai comprar por si própria para experimentar, mas se lhe for oferecido e a pessoa gostar, possivelmente vai então comprar e fazer essa mudança”, elabora o biólogo;
  • “Escolher presentes que apoiem negócios locais, portugueses e/ou com uma componente social relevante”, sugere Tiago Matos;
  • “Quando são pessoas que já têm tudo, também é uma prenda bonita oferecer um donativo a uma ONG que esteja alinhada com causas com as quais a pessoa se identifique”, aconselha Rita Tapadinhas;
  • Na mesma linha, Joana Guerra Tadeu alerta para “não cair em campanhas de social washing, ou seja, não comprar um presente só porque está associado a uma campanha solidária”. Prefira uma prenda útil ou um donativo direto;
  • Crie desafios familiares e trocas de prendas em esquema de amigo secreto, acrescenta Ayala Botto.

d.r.

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Sabia que muito papel de embrulho não pode ser reciclado?

Acompanhando os presentes, os embrulhos acabam por ter um impacto ambiental significativo.

“Há muito gasto no papel dos embrulhos, papel esse que não é reciclável porque normalmente é papel misturado com plástico (o que o torna muito difícil de reciclar)”, alerta Ayala Botto.

“Os embrulhos acabam por ser um descartável porque têm uma utilização muito curta”, corrobora Rita Tapadinhas. “E por isso faz todo o sentido utilizar materiais que já existiam, para não estarmos a criar mais lixo a partir de materiais novos, virgens, que foram criados com o único propósito de embrulhar um presente.”

Estas cinco dicas podem ajudá-lo a dar asas à imaginação:

  1. reutilize o papel de embrulho de outros natais e celebrações;
  2. utilize jornais, revistas, panfletos, e outros papéis;
  3. use caixas de cartão velhas, como as das encomendas;
  4. dê uma nova vida a roupas velhas e outros tecidos sem utilidade (Rita Tapadinhas sugere aprender a arte japonesa do Furoshiki para fazer embrulhos com têxteis sem necessidade de coser);
  5. desenhos de crianças, tintas, fitas, linhas, raminhos, folhas, bolotas ou pinhas são algumas das sugestões de Joana Guerra Tadeu para substituir os laços.

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Como reduzir o desperdício alimentar?

“Nós sabemos que no Natal gostamos de comer muito e que normalmente também sobre muita comida”, admite Ayala Botto. Reduzir o desperdício passa assim pela preparação.

“A chave está no planeamento: conversar sobre as expectativas dos convidados para planear o menu (se numa consoada com sete pessoas todos trouxerem comida para sete acabam com comida para 49 pessoas...), ajustar as quantidades (considerar fazer meia receita ou um quarto de receita no que toca aos doces se o objetivo for a variedade), preparar o frigorífico e o congelador para receber quaisquer sobras que precisem de refrigeração, e preparar recipientes para distribuir as sobras pelos vários agregados familiares”, defende Joana Guerra Tadeu.

Tiago Matos sugere “contabilizar o desperdício alimentar na vossa consoada”. “No ano passado, contabilizei, em euros, a quantidade de comida que foi para o lixo. Na minha ceia, a minha família desperdiçou 30€. Guardem os talões das compras, e tudo o que for ao lixo, pesem. Aí conseguem perceber o quanto desperdiçaram.”

Por outro lado, “comprar alimentos a granel pode sempre ajudar-nos a medir um bocadinho melhor as quantidades”, acrescenta Rita Tapadinhas.

d.r.

Comprar produtos locais e de época, fazer compostagem dos alimentos que se estraguem, não utilizar loiças descartáveis, reciclar óleos alimentares e usar o forno de forma consciente são outras recomendações para uma consoada mais sustentável.

Outra é fazer uma refeição ou ter um prato de base vegetal. “No entanto, esta questão cultural do bacalhau, do polvo, do cabrito, do peru, é muito difícil de tirar”, admite Ayala Botto. “Aqui percebemos que é uma época especial, mas se calhar, se tivermos alternativas, as pessoas ao comerem também um prato vegetal, se calhar vão comer menos do bacalhau, por exemplo.”

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A sustentabilidade pode ser tema da consoada?

Com a família toda reunida, puxar o tema da sustentabilidade pode por vezes não criar conflito ou desconforto. Porque se os quatro ambientalistas concordam que o interesse e abertura para falar destes temas aumentou, também é verdade que nenhum deles acredita que esta é já uma preocupação generalizada.

“Por vezes, mesmo pessoas que já deram mais passos no sentido da sustentabilidade acabam por ‘fechar mais os olhos’, porque em tempo de reunir mais a família, preferem ‘não chatear’ para ‘não cair tudo em cima de mim’”, reflete Ayala Botto.

“Ou não. Uma maneira de ajudar nesta mudança é precisamente falar com os familiares e aproveitar um momento em que estão todos juntos para abordar certos temas e chamar a atenção, não de forma acusatória, mas para informar, brincando até com a situação, de forma a deixar as pessoas a pensar nas atitudes pontuais. [Nesse sentido], sim, [o Natal] é uma oportunidade de falar e de mudar hábitos.”

Joana Tadeu Guerra acrescenta: “diria que pensar e conversar sobre o consumo como ato político, nesta época e noutras de grande consumismo (como o regresso às aulas), é extremamente relevante para o progresso moral da sociedade e o desenvolvimento sustentável”.