Sociedade

Jovem que planeou ataque na Faculdade de Ciências condenado a pena de 2 anos e 9 meses por arma proibida - mas foi absolvido de terrorismo

Jovem que planeou ataque na Faculdade de Ciências condenado a pena de 2 anos e 9 meses por arma proibida - mas foi absolvido de terrorismo

João Carreira foi absolvido dos crimes de terrorismo de que tinha sido acusado. Vai cumprir a pena num estabelecimento destinado a inimputáveis. Advogado do jovem estudante considera que houve uma “vitória da defesa” e ainda não decidiu se vai recorrer da decisão

João Carreira, de 19 anos, acusado pelo Ministério Público de planear um ataque terrorista em fevereiro deste ano à Faculdade de Ciências, em Lisboa, conheceu esta segunda-feira a sentença no Campus da Justiça. O estudante daquela faculdade foi travado nessa altura pela Polícia Judiciária depois de um alerta do FBI.

O juiz Nuno Costa condenou-o a 2 anos e 9 meses de prisão pelo crime de arma proibida, salientado o “elevado” número de armas que a Polícia Judiciária encontrou no seu apartamento, nos Olivais, no dia da detenção. João Carreira vai cumprir a pena num “estabelecimento destinado a inimputáveis”, não concretizando se irá continuar internado no Hospital-Prisão de Caxias.

E considerou que “a comunidade não está preparada para receber o senhor João nem o senhor João está neste momento pronto para voltar a uma vida cá fora pela perigosidade que revelou neste caso”.

Mas o magistrado decidiu absolvê-lo dos dois crimes de terrorismo de que estava acusado. Seria considerado terrorismo se o crime cometido “fosse repetido” - e o arguido tencionava suicidar-se depois de cometer o ato na Faculdade de Ciências. “O plano dele esgotava-se na atuação que ia levar a cabo com o seu suicídio.”

Além disso, o magistrado alegou que João Carreira não pertencia a uma rede terrorista como por exemplo o Estado Islâmico. E deu o exemplo dos lobos solitários que agem a solo mas inspirados nesses grupos extremistas. “E nada disso aconteceu aqui.”

O juiz lembrou também que não fazia sentido a acusação de tentativa de crime de terrorismo nem treino para terrorismo já que João Carreira não preparava qualquer viagem para o seio de uma organização terrorista.

“A marca de um crime de terrorismo é a intenção em como o agente atua. Ficou demonstrado neste caso que o arguido admitiu que pretendia fazer vítimas indiscriminadas na Faculdade de Ciências para demonstrar em que Portugal os assassinatos em massa também ocorrem. Essa intenção estava aqui presente. Os atos concretos que pretendia praticar também se enquadram nos crimes de terrorismo. Por essas duas vias estariam preenchidos os elementos do crime de terrorismo. No entanto, se a visão legal fosse apenas esta, cairiam na prática deste crime situações muito alargadas que não ofereciam perigo para o bem jurídico”, argumentou o juiz Nuno Costa.

Para Jorge Pracana, o advogado de João Carreira, foi “uma clara vitória da defesa” já que como defendia desde o início do julgamento, não estavam em causa crimes de terrorismo. Mas ainda não sabe se vai recorrer da decisão. “Primeiro tenho de ler o acórdão. Esta pena é mais de metade do que está estabelecido para um crime de detenção para arma proibida.” O mínimo seria de um mês e o máximo de cinco anos e quatro meses de prisão.

MP tinha pedido pena não inferior a três anos

Há um mês, o Ministério Público tinha pedido nas alegações finais a condenação do estudante pelos crimes de treino para terrorismo e detenção de arma proibida a uma pena não inferior a três anos e meio de prisão efetiva num estabelecimento prisional com acompanhamento psiquiátrico.

Citada pela agência Lusa, a procuradora Ana Pais argumentou que João Carreira afirmou durante o julgamento que se propunha a realizar três homicídios por forma a que a sua ação, no mínimo, pudesse ser considerada um “assassinato em massa”. E que este confessara que “não tinha um alvo em particular”, podendo matar colegas, professores ou funcionários daquela faculdade.

Ana Pais frisou ainda que “houve intenção” do arguido em praticar os atos de que foi acusado, tendo mesmo comprado as armas como facas, uma besta e cocktails molotov para cometer o ato terrorista para obter o estatuto de "assassino em massa" e ficar "famoso", ou seja, obter os “5 minutos de fama”.

Já o advogado de João Carreira tinha pedido a sua absolvição, alegando que este vivia num “mundo virtual” e garantindo que o réu não é violento, e que “tudo não passou de representação”.

“Queria esfaquear-me na barriga. Inspirei-me num vídeo jogo”

Em outubro, quando depôs no início do julgamento, João Carreira confessou ao mesmo juiz: “Queria depois do ataque cometer um suicídio. Queria esfaquear-me na barriga. Foi inspirado num vídeo jogo. A pessoa espeta a faca na barriga e morre.”

João Carreira começou a idealizar esse plano de ataque na universidade em janeiro de 2022. “Atribuo essa ideia ao facto de ter tido covid-19 e uma depressão, de estar em Lisboa a viver e de querer chamar a atenção das pessoas da comunidade.” Mas garantiu: “Não pretendia atingir ninguém em especial”, respondeu ao juiz quando lhe perguntou se ele pretendia atacar um professor ou um colega em específico.

João Carreira revelou então na sala de audiências que já tinha interesses vindos de trás em assassínios em massa, nomeadamente de tiroteios em escolas. “Começou em 2018, depois de ter visto vídeos sobre um assassínio em massa, e continuei a ver mais vídeos desses. Estava fascinado com esses vídeos de assassinatos. Queria saber mais sobre essas pessoas. O interesse ia aumentando e contactei com pessoas através das redes sociais.”

A única dessas pessoas com quem falava sobre os assassínios em série que conheceu pessoalmente foi Micaela. “Falávamos no Tumblr, desde junho de 2018. Em outubro de 2021 encontrei-me com ela. Só uma vez. Tive uma atração por ela. Era um amor platónico. Mas os pais dela não gostaram de mim quando fui a casa dela. E não nos vimos mais. Fiquei um bocado deprimido.”

A sua depressão pela rejeição de Micaela contribui para pensar no plano de ataque, assumiu o réu que garante, no entanto, não lhe ter falado nesse plano. "Ela também era depressiva. Tentou cometer um suicídio. Só voltei a falar com ela em janeiro. Mostrei-lhe fotos da besta, contei-lhe que estava muito triste.” Sobre Micaela disse ainda que queria fazer um ato de suicídio com ela. Mas desistiu da ideia, assegurou.

Assumiu que terá falado com uma colega da universidade sobre esse plano. “Uma rapariga nepalesa do mesmo ano na faculdade, no 1.º ano.” O juiz quis saber porque decidiu contar o plano a essa sua colega. “Pensei que podia confiar nela e acreditei que ela tinha pensamentos semelhantes. Falávamos no Discord [rede social].”

No Tumblr conheceu um utilizador em 2020. “Ele tinha interesse por assassinatos em massa.” Só o conhece pelo nickname. Com ele, falou sobre um plágio que poderia custar-lhe a carreira académica. “Foi um trabalho feito nas férias de Natal [2021]. Quando estava com covid e fiquei muito deprimido. Copiei por um colega meu, na cadeira de Introdução à Programação Informática.” Mas a questão do plágio não teve influência na ideia do ataque à faculdade, garantiu.

Em janeiro de 2022, comprou armas através do OLX: uma besta e uma faca militar. E adquiriu uma arma numa loja de caça. Também pretendia usar o martelo no ataque. Mas não sabe explicar como. Queria comprar as armas que “pareciam fixes” por uma questão estética.

Confessou que os produtos inflamáveis que tinha em casa faziam parte do plano. “Não pensei bem nisso. Ia dar-lhes uso. As garrafas de vidro iam ser usados para fazer Cocktails Molotov.”

“Talvez fosse para o auditório e usar os Cocktails Molotov, as setas, matar e esfaquear pessoas.” Queria que as pessoas se assustassem e saíssem dali. Mas disse não ter a certeza se iria ficar à porta à espera delas.

João Carreira contou ao coletivo de juízes que aprendeu a fazer Cocktails Molotov na Internet e já tinha álcool etílico nas garrafas de vidro em casa para esse efeito. Queria que as garrafas estivessem já prontas para ir para a faculdade de ciências de Lisboa.

Ainda sobre as armas, disse ter experimentado “pouco” a besta, no quarto, tendo comprado esta arma no final de janeiro.

Ao total, diz ter gastado 400 euros em armas, que nunca saíram do apartamento. Nas poucas vezes que navegou na darkweb, em 2019 ou 2020, procurou sites para comprar armas de fogo. Mas eram muitos caras. “Sabia que legalmente não podia ter armas”.

Contradições e adiamentos

Como ia executar esse plano?, perguntou-lhe o juiz nessa primeira audiência do julgamento. “Queria levar as armas para a faculdade. Ir à casa de banho preparar-me e fazer o ataque durante cinco minutos.” Os cinco minutos do ataque tinha a ver com o tempo que a polícia ia chegar à faculdade. Como acontece num videojogo que costuma jogar.

No quarto do apartamento onde vivia, nos Olivais, tinha um calendário, escrito em português e em inglês, em que dizia que devia ter feito o ataque na segunda-feira, dia 7 de fevereiro. Mas também escreveu “sexta-feira dia 11, Dia Final”. Sabia que nesse dia iria haver um exame às 13h. “Iria dirigir-me ao auditório do Bloco 3”. Escolheu esse bloco para não permitir que as pessoas desse auditório lhe atirassem com cadeiras.

No trajeto entre casa e a faculdade, “iria transportar o material numa mala de viagem e numa mochila”, revelou. Fez algum ensaio, ou reconhecimento, para avançar com o ataque?, perguntou-lhe o juiz. “Não me lembro.” Depois, garantiu: “Não.”

João Carreira admitiu minutos depois ao juiz que foi adiando o ataque. Começou por planeá-lo “para dia 3, depois para dia 4, a seguir para o dia 7, depois para dia 9 e por fim para o dia 11”. Seria preso pela equipa de contra-terrorismo da Polícia Judiciária no dia 10, quinta-feira.

E porque razão João Carreira não avançou com o plano num daqueles dias? “Porque não queria. Acho que não queria fazer aquilo realmente.” Esta indecisão deveu-se ao facto de achar que não tinha “coragem para matar uma pessoa”. Uma das contradições que ficaram patentes no seu depoimento. Disse depois em tribunal ter comprado o material apenas para “exibi-lo a algumas pessoas” nessas comunidades virtuais. “Todos terão os seus 15 minutos de fama, como diz o Andy Wahrol.”

A escola era mais importante para ser o local de ataque porque sabia que “chama mais a atenção”. As pessoas sentem “mais fascínio dos ataques feitos por adolescentes”.

Hoje tem tido acompanhamento médico no Hospital-Prisão de Caxias. “Tenho estado bem. Não estou deprimido.” Atualmente diz ter a consciência de que “é errado matar pessoas”. Algo que não acontecia em fevereiro.

Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail: HFranco@expresso.impresa.pt

Comentários

Assine e junte-se ao novo fórum de comentários

Conheça a opinião de outros assinantes do Expresso e as respostas dos nossos jornalistas. Exclusivo para assinantes

Já é Assinante?
Comprou o Expresso?Insira o código presente na Revista E para se juntar ao debate
+ Vistas