Sociedade

Exército aumenta controlo médico nos Comandos e inclui despiste a anabolizantes

24 novembro 2022 19:01

tiago miranda

Exército anunciou que, na sequência da revisão feita ao 138.º curso de Comandos por um grupo de trabalho criado no início deste mês, foi aprovado pelo Chefe do Estado-Maior do ramo o “reforço da monitorização sanitária e controlo do estado de saúde ao longo curso, atualização da gestão de risco e do programa de desenvolvimento de robustez psicológica”

24 novembro 2022 19:01

O Exército vai reforçar o "controlo do estado de saúde" dos militares do curso de Comandos, tanto física como psicológica, e aumentar "a abrangência" de exames médicos, incluindo análises de despiste de substâncias estimulantes, anabolizantes, ou "narcótico analgésicas".

Em setembro, o Expresso noticiou que havia suspeitas de consumo de substâncias anabolizantes na sequência do internamento do instruendo dos comandos que teve de ser submetido a uma transferência de fígado. Mas o Exército nunca confirmou esses indícios nos soldados do curso 128º que foram hospitalizados.

Quando questionado pelo Expresso, no mesmo mês, na sequência de uma reportagem sobre o uso de substâncias dopantes nos Comandos, o Exército já respondeu que “não houve qualquer caso detetado de consumo de qualquer uma dessas substâncias dopantes.” E explicou que no início dos cursos de comandos “é entregue um guião do instruendo em que é referido que não estão autorizados a tomar qualquer tipo de complementos ou suplementos, salvo indicação médica”. Inquirido sobre a periodicidade das análises à urina e ao sangue aos recrutas, para melhor identificar substâncias proibidas, o Exército chegou a referir é realizado um “controlo analítico” três semanas antes do início do curso.

Agora, o ramo anuncia um controlo mais apertado: em comunicado, o Exército anunciou esta quinta-feira que, na sequência da revisão feita ao 138.º curso de Comandos por um grupo de trabalho criado no início deste mês, foi aprovado pelo Chefe do Estado-Maior do ramo o "reforço da monitorização sanitária e controlo do estado de saúde ao longo curso, atualização da gestão de risco e do programa de desenvolvimento de robustez psicológica".

Foi também decidida a "adequação do faseamento do curso, de modo a garantir a progressividade da formação e a salvaguarda da integridade física, psicológica e sanitária dos formandos, considerando uma fase preparatória para aclimatização, monitorização, testagem e adaptação gradativa dos militares à dinâmica das exigências do curso".

A duração do curso de Comandos passa de 16 para 17 semanas.

Quanto às "ações de controlo médico", vai ser aumentada a "abrangência dos exames médicos, nas fases de admissão e de frequência" deste curso, "incluindo testagem serológica para SARS-CoV-2 e análises de despiste de substâncias estimulantes, narcótico analgésicas, anabolizantes, diuréticas e hormonais dos candidatos e formandos".

O ramo decidiu ainda aumentar o recurso a meios tecnológicos, como sensores biométricos, "para monitorização, segurança e avaliação fisiológica dos formandos, com vista a um maior controlo da imprevisibilidade, de provas que exigem um maior esforço físico e psicológico dos formandos".

O Exército decidiu ainda aumentar a preparação dos formadores do curso, através de "sessões fundamentais, no âmbito da gestão do risco, fisiologia do esforço, stress térmico e lesões de calor, e de avaliação dos indicadores de stress psicológico em contexto de treino de alta intensidade".

A equipa do 138.º curso de comandos será reformulada, com o Exército a salientar que não estarão integrados "os três militares aos quais foram instaurados processos disciplinares decorrentes dos acontecimentos ocorridos no início do curso".

O 138.º curso de Comandos, que estava suspenso depois de várias hospitalizações de militares incluindo a de um formando que necessitou de um transplante de fígado, vai ser reiniciado no próximo dia 28, com 36 formandos que "foram submetidos às ações de controlo médico adequadas", lê-se na nota.

No passado dia 9 de novembro, o Exército instaurou processos disciplinares a três militares da equipa de instrução do 138.º curso de Comandos por "eventual violação dos deveres de obediência, zelo e responsabilidade" e criou um grupo de trabalho para rever este curso.

De acordo com a nota enviada hoje pelo ramo, este grupo "multidisciplinar" foi "coordenado por um oficial superior da Inspeção-Geral do Exército e composto por oficiais superiores, de diferentes âmbitos de 'expertise', oriundos das áreas operacional, formação militar, saúde militar e psicologia militar".

O grupo de trabalho apresentou as suas propostas ao chefe do Estado-Maior do Exército, general Nunes da Fonseca.

Em setembro, o Estado-Maior do Exército ordenou a interrupção do 138.º Curso de Comandos até ao apuramento do processo de averiguações àquela formação.

Na altura, o Exército indicou um total de seis intervenções em estabelecimento hospitalar no âmbito do 138.º curso: ao militar que foi transplantado, a um segundo militar que sofreu uma interrupção respiratória e que teve alta nos dias seguintes, e ainda a quatro militares no Hospital das Forças Armadas, no polo de Lisboa, "decorrente da revista de saúde feita a todos os instruendos, em 08 de setembro".