Sociedade

Ainda não é tempo de escolher o parceiro a partir de algoritmos, mas cientistas estão cada vez mais perto da fórmula das relações felizes

Nada indica que os semelhantes sejam mais felizes juntos

noel celis

Esta ainda é a alvorada da revolução dos dados na tomada de decisões pessoais. Se, em questões judiciais e em ambiente hospitalar, os algoritmos já demonstram ser mais bem-sucedidos do que os seres humanos, no que diz respeito aos relacionamentos românticos, os estudos mais recentes revelam que as pessoas ainda devem escolher sem auxílio de dados e modelos. Mas os investigadores já conhecem as qualidades mais preditivas da satisfação romântica

23 agosto 2022 22:56

Já não é de hoje que as provas mostram que os algoritmos são superiores aos humanos a tomar decisões difíceis. Isto porque as pessoas tendem a ter dificuldades em ponderar acontecimentos pouco prováveis ou a compreender cenários complexos, cheios de eventos simultâneos. Em 1954, o psicólogo norte-americano Paul Meehl publicou um livro controverso: "Predição Clínica vs. Estatística: Uma Análise Teórica e uma Revisão das Evidências". Na obra, o pensador afirmava que algoritmos mecânicos que se apoiavam em dados poderiam prever melhor o comportamento humano do que psicólogos clínicos com anos de estudo.

Em "Thinking Fast and Slow", do economista e psicólogo Daniel Kahneman, são apresentadas várias situações em que o julgamento humano tem um baixo desempenho quando comparado com a aplicação de fórmulas matemáticas. O cálculo da longevidade de pacientes com cancro, a ponderação do tempo de internamento hospitalar, diagnósticos de doenças cardíacas, mas também medidas económicas, a compreensão das perspetivas de sucesso de novos negócios, a avaliação dos riscos de créditos concedidos pelos bancos, a quantificação da satisfação profissional futura de trabalhadores e, mesmo, avaliações da adequação de pais adotivos e das probabilidades de reincidência entre infratores juvenis e de comportamento violento estão entre os casos mais notórios. Mas um algoritmo também se sairia melhor do que um juiz a decidir se um réu deve ou não ser libertado, do que um médico a analisar se um utente deve ser submetido a cirurgia e do que diretores de estabelecimentos de ensino a optar pelos professores que devem ser promovidos.

Perguntas como com quem "X" se deve casar e onde "X" deveria morar podem ser determinantes e as bases de dados dão, cada vez mais, ajudas fundamentais. Tal como uma aposta ganha no mundo do desporto - onde os algoritmos têm uma utilidade superior à dos olheiros -, as decisões da vida pessoal podem ser tomadas a partir da organização de um conjunto infindável de dados recolhidos pelos smartphones e pelos computadores.

"O melhor preditor de satisfação no relacionamento é a crença de que o parceiro está comprometido"

"O melhor preditor de satisfação no relacionamento é a crença de que o parceiro está comprometido"

ian forsyth

O que distingue um casal feliz de um infeliz?

Os dados ainda não respondem completamente à pergunta, mas já permitem apontar para algumas pistas, no sentido de resolver o quebra-cabeças. Um estudo que envolveu 86 investigadores recolheu informações sobre mais de 11 mil casais e usou modelos de aprendizagem de máquina para entender o que prevê a satisfação romântica. Os autores descobriram que muitas características frequentemente desejadas, como a atratividade e a altura de um parceiro, praticamente não têm correlação com a felicidade a longo prazo. Pelo contrário, as qualidades mais preditivas da satisfação romântica tendiam a ser psicológicas, entre as quais se encontravam a "capacidade de crescimento" e um estilo de "apego seguro".

Em declarações ao Expresso, Samantha Joel, psicóloga e autora do estudo, conta ter descoberto algumas das características mais favoráveis à felicidade dos casais: "O melhor preditor de satisfação no relacionamento é a crença de que o parceiro está comprometido com o relacionamento. Outros bons preditores incluem sentir-se próximo, apreciado e sexualmente satisfeito com o companheiro."

No entanto, destaca a investigadora da Western University, no Canadá, o algoritmo não foi "muito bom a prever mudanças na satisfação do relacionamento ao longo do tempo". E isso significa que, se uma pessoa se sente próxima e apreciada pelo seu parceiro, acreditando no seu sentido de compromisso, é mais provável que esteja satisfeita com a ligação romântica naquele dado momento. Mas não se manterá necessariamente feliz no futuro.

O algoritmo também ainda não explica como a extroversão, o narcisismo, as crenças sobre relacionamentos, a religião e as visões políticas se combinam para gerar uma relação de sucesso. Nada indica que os semelhantes sejam mais felizes juntos, por exemplo.

"Nas nossas análises, usámos o método 'floresta aleatória'; o algoritmo usa todos os preditores fornecidos para tentar antecipar a variação na satisfação do relacionamento, e também usámos uma técnica de seleção de variáveis ​​chamada VSURF, que descarta os preditores que não estão a contribuir para o modelo", explica Samantha Joel. A investigadora garante que as descobertas já levantam a ponta do véu sobre o que distingue os casais felizes dos infelizes. Mas "isso não nos diz muito sobre a mudança", ou seja, sobre como tornar mais felizes os pares infelizes. "Como não conseguimos prever muito bem as mudanças, suspeito que estejamos muito longe de conseguir fazê-lo. Eu costumava pensar que existiria um mundo em que poderia tomar decisões pessoais de acordo com os dados. Mas, com estes resultados, tornei-me mais cética. Este estudo demonstra o quanto ainda não entendemos acerca dos relacionamentos humanos."