Sociedade

Marriott lança campanha contra tráfico humano

25 julho 2022 16:56

associação de apoio à vítima (apav)

A escassez de pessoal no turismo e a guerra na Ucrânia agravaram o problema. Multinacional hoteleira estende iniciativa de alerta a Portugal, com a cooperação da AHP, da APAV, da Polícia Judiciária e do SEF. Identificar e denunciar eventuais situações de trabalhadores vítimas de redes de tráfico é um dos objetivos

25 julho 2022 16:56

O alerta vem da multinacional Marriott, que tem 8 mil hotéis em 137 países - com a escassez de mão-de-obra que se tem vindo a agravar no turismo, as empresas cada vez mais contratam trabalhadores de origens diversas, que podem ter passado por redes de tráfico humano, incluindo exploração sexual.

A Marriott está a estender a Portugal esta campanha de alerta contra situações de tráfego humano de que possam ser vítimas os trabalhadores que estão a chegar à hotelaria, vindos de diferentes origens, o que passa por uma estreita colaboração com a Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) ou a Polícia Judiciária (PJ).

A ideia é que cada colaborador da hotelaria possa estar atento a situações de SOS relativas a colegas de várias nacionalidades recém-chegados a áreas operacionais (como cozinhas ou limpeza de quartos), podendo ajudar a denunciar situações de risco às autoridades e, no limite, contribuir para desmantelar máfias ou redes que estejam a explorar estas pessoas para as distribuirem como força de trabalho.

Uma vez que as "vítimas são silenciosas" e não têm meios ou condições de reclamar, o objetivo é que os outros trabalhadores dos hotéis, com quem convivem em maior proximidade, possam servir como voz para denunciar às autoridades situações de exploração que estejam a sofrer.

"O tráfego humano é algo que está a acontecer nos hotéis a nível mundial, não só na Marriott, e nós não sabemos. Mas todos temos uma responsabilidade a atuar, e ajudar a evitar que estas situações aconteçam", considera Elmar Derkitsch, diretor-geral do Hotel Marriott em Lisboa.

"A guerra na Ucrânia veio acentuar este risco, ao ponto de haver redes que usam os refugiados, muitos jovens, para ditribuir como mão-de-obra, é um facto", constata o responsável hoteleiro.

A realidade é difícil de identificar para grandes estruturas. e "pode acontecer na hotelaria como em outros sectores", frisa Elmar Derkitsch.

"Estas pessoas podem chegar por exemplo num avião, podem ser distribuidas para trabalho escravo, como há casos reportados na agricultura, e muitas são vítimas de exploração sexual", sendo um sinal de alerta "raparigas que entram nos hotéis e não têm passaporte consigo", adverte o diretor-geral da Marriott.

Apesar de ser política da Marriott recrutar pessoas que vêm com toda a documentação necessária, tal não significa que o risco fique eliminado.

"Muitas vezes são pessoas com aparência normal, mas que podem estar envolvidas em situações estranhas, de exploração sexual ou outras, de que já não conseguem fugir, e podemos ajudar a que sejam denunciadas às autoridades. É um pequeno passo, mas é muito importante", sustenta Elmar Derkitsch.

O risco de situações de tráfego humano tem-se acentuado no turismo por os trabalhadores virem cada vez mais de origens diversas, que os hotéis não conseguem controlar

O risco de situações de tráfego humano tem-se acentuado no turismo por os trabalhadores virem cada vez mais de origens diversas, que os hotéis não conseguem controlar

daniel lee/unsplash

Cerca de 70% dos 8 mil trabalhadores dos hotéis Marriott em todo o mundo já receberam formação no sentido de estarem atentos a situações de risco de tráfego humano que possam estar a ser vividas entre o restante pessoal.

O objetivo é que esta "sensibilização" se estenda à restante hotelaria a nível nacional, com a cooperação da AHP, e num momento em que o sector se prepara para ver resultados práticos dos acordos de mobilidade, já retificados pelo Governo português com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), com vista a trazer a Portugal pessoas como força de trabalho de países como Brasil ou Cabo Verde, sendo os acordos extensíveis à India.

A situação de risco é acentuada pelo facto de o emprego ser cada vez mais precário e os hotéis, para suprirem faltas de mão-de-obra, recorrerem de forma crescente a empresas de trabalho temporário, a quem também é pedida esta sensibilização contra casos que possam configurar tráfego humano.

"O crime do tráfico de pessoas continua a afetar milhões de pessoas em todo o mundo e exige cada vez mais o desenvolvimento e constante atualização de medidas eficazes ao seu combate e à proteção das suas vítimas", adverte a Marriott, lembrando que "a ONU estima que nos últimos anos o número de pessoas traficadas dentro das fronteiras dos seus próprios países de origem mais que duplicou, e as estatísticas de vítimas de tráfico transnacional mantém-se extremamente elevadas".

"Há a necessidade de os governos adotarem medidas, nomeadamente de proteção das vítimas, sendo fundamental o envolvimento de todas as pessoas na deteção e denúncia das situações de exploração".

Em Portugal, a Marriott está a organizar a 28 de julho uma iniciativa para debater esta temática junto do sector do turismo, assinalando também o Dia Mundial contra o Tráfico de Seres Humanos, num evento conjunto com a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) e a Associação de Hotelaria de Portugal (AHP).

A 30 de julho, o tema do tráfego humano no sector do turismo será debatido no hotel Sheraton em Lisboa, numa sessão transmitida por 'live streaming'.