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Vírus de Marburg: o “primo do ébola” tem uma taxa de mortalidade média superior a 50%

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Dois casos de infeção foram diagnosticados recentemente no Gana e ambos os doentes morreram. Surtos e infeções esporádicas desta que é uma “doença grave” têm sido identificados em países africanos ao longo dos últimos anos, conforme explica ao Expresso o virologista Paulo Paixão

19 julho 2022 20:06

No domingo, as autoridades do Gana anunciaram os primeiros casos de infeção pelo vírus de Marburg, confirmados pela Organização Mundial da Saúde (OMS): um homem de 26 anos foi internado a 26 de junho e morreu no dia seguinte e um homem de 51 anos, internado a 28 de junho, morreu no próprio dia – ambos da região de Ashanti.

O reconhecimento da doença deu-se em 1967, quando dois surtos ocorreram simultaneamente nas cidades alemãs de Marburg e Frankfurt e em Belgrado, na Sérvia. Desde então, de acordo com a OMS, têm sido notificados surtos e casos esporádicos em Angola, República Democrática do Congo, Quénia, África do Sul e Uganda.

Este vírus é um “primo do ébola” – fazem parte da mesma família e têm um comportamento semelhante –, indica ao Expresso o virologista Paulo Paixão, mas o ébola é “o mais conhecido e o que tem causado muito mais surtos”. Ambos “partem sempre de um reservatório animal”. No caso do vírus de Marburg, estão em causa sobretudo os morcegos. Segundo a OMS, a infeção humana resulta inicialmente da exposição prolongada a minas ou cavernas habitadas por colónias de morcegos Rousettus. “Em certas zonas de África, as pessoas comem e caçam morcegos”, acrescenta o especialista.

Depois, começa a transmissão entre humanos. “Através do sangue é o mais comum, mas pode ser pelas fezes e urina. Há muitas formas de transmitir, mas é tudo o que seja por contacto” com o que está contaminado, afirma o antigo presidente da Sociedade Portuguesa de Virologia. Um aspeto determinante prende-se com o facto de o vírus persistir nas superfícies “durante muito tempo”, daí que as cerimónias fúnebres que envolvem contacto direto com cadáveres – uma “tradição muito forte” em várias zonas africanas – representem “uma forma importantíssima de transmissão”.

Paulo Paixão salienta ainda que “não há transmissão por via aérea”. Desta forma, se forem aplicadas “regras de cuidado em termos de contacto”, é possível evitar a transmissão, que “tem de ser muito bem vigiada”. No caso mais recente do Gana, a diretora regional da OMS para África, Matshidiso Moeti, já assegurou que “as autoridades de saúde responderam rapidamente, obtendo um avanço na preparação para um possível surto”. Foram identificados e estão a ser acompanhados “mais de 90 contactos”.

Mortalidade elevada

“Em termos de gravidade é terrível. A mortalidade pode chegar aos 50%”, sublinha o virologista. De acordo com a OMS, a taxa de casos fatais tem variado entre os 24% e os 88% em surtos anteriores, o que faz uma média de 56%. Atualmente, não há vacina ou tratamentos antivirais aprovados. Ainda assim, segundo a organização, “cuidados de apoio – reidratação com fluidos orais ou intravenosos – e o tratamento de sintomas específicos melhoram a sobrevivência”.

O período de incubação da doença varia entre os dois e os 21 dias. Quanto aos sintomas, o que a caracteriza é a febre hemorrágica, que funciona como um “sinal mais distintivo”, uma vez que até surgir “estão descritas outras manifestações muito inespecíficas, como mal-estar e diarreia”, explica Paulo Paixão. Dores de cabeça, dores musculares, náuseas e vómitos estão entre os sintomas enumerados pela OMS.

Quando não há “manifestação hemorrágica”, os casos são “difíceis de diagnosticar”. “Só depois do diagnóstico laboratorial é que se pode ter a certeza”, refere o especialista. A OMS indica que “pode ser difícil distinguir clinicamente” o vírus de Marburg de outras doenças infecciosas como a malária, a febre tifoide ou a meningite. Em Portugal, se houver um “caso suspeito importado” de uma região com infeções confirmadas, o hospital de referência em Lisboa é o Curry Cabral e “as amostras são enviadas para o Instituto Ricardo Jorge, que é o único laboratório que pode fazer essas análises”, esclarece Paulo Paixão.