Sociedade

Caso dos Hammerskins: testemunhas contrariam versão da acusação do Ministério Público, juiz concede estatuto de vítimas a comunistas agredidos

8 março 2022 13:52

A versão dos comunistas agredidos depois de um comício difere da acusação do MP. Militante agredido diz que o homem acusado pelo MP não lhe bateu

8 março 2022 13:52


Disse Maria Castro: “Eu chamava-me Paquete, mas entretanto divorciei-me”. Tem pouco mais de um metro e meio, e o contraste com o homem a quem aponta o dedo não podia ser maior. É grande, corpulento e é julgado por três crimes de agressões a dois militantes do PCP. “Não estou a dizer que foi ele. Passaram-se sete anos e a minha memória já não é a mesma. Mas se tivesse que escolher um, escolhia-o a ele”. 

No dia 20 de setembro de 2015, a militante do PCP saiu de um comício do partido no Coliseu dos Recreios e caminhava em direção ao Rossio com o camarada Valentim Marques. “Estavam três senhores, três brutamontes em frente à ‘Ginjinha’. Viram que o Vitorino [Marques Almeida] trazia um autocolante da CDU e começaram logo a agredi-lo à chapada, ao murro e ao pontapé. Eu comecei a gritar e vai um brutamontes e empurra-me contra a mesa”. 

João Vaz, o guarda prisional acusado de ser um supporter dos Hammerskins Portugal, é segundo o MP, o homem que empurrou esta cantoneira aposentada da CML. Quando prestou declarações, o arguido garantiu que se limitou a separar uma zaragata que rebentou entre skinheads e comunistas porque Vitorino Marques Almeida terá tentado tirar uma t-shirt a um dos presentes.

A versão foi desmentida por Maria Castro: “Não houve discussão. Foi do autocolante. Eles bateram-lhe tanto, tanto, tanto, que ele ficou estendido no chão como morto. Eu só dizia fala, Vitorino, fala. Mas ele tinha sangue a escorrer do ouvido e não disse nada. Tenho 72 anos e ter visto aquilo é a maior dor que eu tenho.” 

Segundo a acusação do MP, Vitorino Marques Almeida e Maria Paquete foram agredidos quando foram em auxílio de um terceiro militante, Augusto Pinheiro, que em tribunal contou uma versão diferente. “Eu saí mais cedo porque ia ter com os meus netos. Ia beber uma ginjinha e vejo um grupo de dez ou quinze homens, todos de cabeça rapada e de preto e percebi logo o que era. Enrolei a bandeira do PCP que tinha na mão e arranquei o autocolante da camisola e voltei para trás”.

Tarde demais. “Chamaram-me nomes. Que nomes? Posso dizer? Aí tenho de dizer. Foi filho da puta, cabrão, comunista de merda, vamos cortar-te o pescoço”. Continua: “Apanharam-me por trás e deram-me estaladas, socos e pontapés. Roubaram-me a bandeira e partiram-na”. Nesta altura, o funcionário da divisão de trânsito da CML, com pouco mais de 60 anos e voz sempre enervada, pede uma pausa. “Eu não fiz mal a ninguém, não disse nada a ninguém e fui agredido. Fiquei mal e ainda não estou bem. Mas fui trabalhar no dia a seguir”. Vitorino Marques Almeida, afinal, não o terá ajudado. “Eu passei por ele quando vinha para trás e avisei-o para tirar o autocolante, mas ele não me ligou e disse que não fazia mal a ninguém. A mim, ninguém auxiliou.”

Augusto Pinheiro aponta para João Vaz, um dos dois arguidos que compareceram nesta sessão do julgamento do 27 suspeitos de pertencerem ao chapter português dos Hammerskins, e acusa: “Este senhor fazia parte do grupo”. Mas descansa-o: “Não fazia parte do grupo de quatro que me agrediu. Mas fugiu e deixou cair a carteira que eu apanhei. Mais tarde, apareceu na esquadra, já com outra roupa, para recuperar a carteira, mas eu só a dei à polícia”.”Eu saí mais cedo porque ia ter com os meus netos. Ia beber uma ginjinha e vejo um grupo de dez ou quinze homens, todos de cabeça rapada e de preto e percebi logo o que era. Enrolei a bandeira do PCP que tinha na mão e arranquei o autocolante da camisola e voltei para trás “. Na acusação, o MP sustentava que João Vaz fazia parte do grupo que agrediu o militante do PCP.

Vitorino Marques Almeida, o homem agredido, afinal, por causa de um autocolante, fez um depoimento tão impressionante quanto inútil. Não se lembra de nada das agressões e contou ao tribunal que a vida nunca mais foi a mesma. Tem problemas físicos, psicológicos e comportamentais. “No outro dia mandei uma beata pela janela. Eu dantes nunca fazia isso, nunca”. Perdeu os dentes e a placa está a cair: “Não tenho dinheiro para o dentista nem para qualquer outro médico”. No final, o juiz Noé Bettencourt anunciou que lhe foi concedido o estatuto de vítima, tal como a Augusto Pinheiro. Se houver condenações, poderão receber uma indemnização. 27 arguidos respondem por crimes que vão da discriminação racial a homicídio qualificado tentado. O julgamento está a decorrer há duas semanas.