Sociedade

Caso Hells Angels: juíza manda inspecionar corpos tatuados dos acusados à procura dos símbolos “Outlaw”, “81” e “Filthy Few”. Os advogados falam em humilhação

14 fevereiro 2022 13:11

Sara Pina Cabral ordenou à PJ que faça perícias às tatuagens dos 89 acusados. Advogados põem em causa timing da diligência e vão opôr-se. A operação da PJ contra este grupo de motociclistas com ramificações no mundo inteiro foi lançada em junho de 2018, antes da concentração de Faro. Em causa, para além de crimes de tráfico de droga e associação criminosa, estava uma cilada montada contra Mário Machado

14 fevereiro 2022 13:11

A juíza Sara Pina Cabral decidiu que todos os 89 acusados no processo dos Hells Angels terão de ser alvo de uma perícia às tatuagens com exceção das que estiverem nas “zonas íntimas”. A magistrada, que preside ao julgamento que já decorre há cinco meses, entende que este grupo de motociclistas acusado de, entre outros crimes, associação criminosa e tentativa de homicídio, tem “simbologia própria (…) sujeita a regras”, nomeadamente “à sua utilização na indumentária e à possibilidade de tatuar no corpo alguns dos símbolos”.

Os suspeitos e as respetivas tatuagens foram fotografados pela PJ na altura da detenção, mas Sara Pina Cabral quer uma “análise” mais profunda e, por isso, ordenou à PJ que “com máxima urgência” faça novas perícias e até indicou os símbolos que os polícias devem procurar e que indiciam que o tatuado fará parte dos Hells Angels: “1%”, (símbolo do orgulho em pertencerem a uma minoria); Outlaw, (fora da lei);  “81” (Hells Angels, pela ordem alfabética); “AFFA”, Angels Forever Forever Angels); “Filthy Few” e “Filthy 666 Few”, (poucos e malvados, tradução livre); “Dequaillo”, (quem usou lutou contra a lei ou esteve preso) e Left .

De acordo com um tatuador contactado pelo Expresso, estes símbolos só podem ser usados por membros dos Hells Angels e quem faça tatuagens destas – ou da caveira com asas, símbolo do grupo – e não pertença ao grupo, será alvo de represálias físicas.

O advogado Carlos Melo Alves, que representa seis arguidos no processo, vai opor-se à ordem do tribunal porque entende que “o despacho não é mais do que um meio de prova manifestamente invasivo da integridade pessoal e da reserva da intimidade da vida privada dos arguidos, o qual, diga-se, é até humilhante na medida em que é suscetível de ofender o pudor dos envolvidos”. O advogado argumenta que apesar de a juíza ter deixado de fora da perícia as “zonas íntimas” os suspeitos serão obrigados, ainda assim, a despir-se “perante funcionário da PJ”. De acordo com um requerimento que entregou esta segunda-feira em tribunal, este é um “método proibido de prova” até porque obriga os arguidos a colaborarem na “produção de prova” ferindo assim o princípio da “não-incriminação”.

Correia de Almeida, advogado de 12 arguidos, lembra que muitos dos acusados “estão no estrangeiro” e questiona o timing da decisão: “O julgamento está a decorrer há cinco meses, os suspeitos já foram fotografados, porquê agora?” Este advogado veio pedir uma “aclaração” do tribunal sobre o “fundamento legal” deste pedido e também se vai opor à perícia.

Talvez porque já se passaram cinco meses desde que o julgamento começou, e mais de três anos desde que os suspeitos foram detidos, a juíza também ordenou que “deverão ser fotografadas tatuagens cujo desenho haja sido apagado ou notoriamente alterado”.

A operação da PJ contra este grupo de motociclistas com ramificações no mundo inteiro foi lançada em junho de 2018, antes da concentração de Faro. Em causa, para além de crimes de tráfico de droga e associação criminosa, estava uma cilada montada contra Mário Machado, condenado por vários crimes e ex-líder dos Hammerskins, que tentava fundar em Portugal um “chapter” de “Los Bandidos”, grupo motociclista rival dos Hells Angels. Escapou a um espancamento, porque se escondeu na casa de bando de um restaurante no Prior Velho.

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