Sociedade

Seca: produtores agropecuários transbordam desespero, admitem desistir e pedem apoios do Governo

1 fevereiro 2022 22:26

“Se até meio de fevereiro não chover, começa a ficar bastante complicado. Nós vivemos disto e, para alimentar os animais, menos sobra para nós”, conta um pastor do Alto Douro. “Se não cair chuva urgentemente, os animais até morrem à sede e as pastagens não rebentam. Vai ficar muito mal e não vai ser fácil”, afirma um outro produtor

1 fevereiro 2022 22:26

“Estou a pensar abandonar a minha exploração pecuária onde tenho ovelhas para a produção de leite. Não há pastos e os animais têm de comer as reservas que estavam destinadas para o início da primavera. Por outro lado, as rações e as forragens estão muito caras. Não há rendimento”, queixa-se, à Lusa, Cristiano Pires, que trabalha na terra em Castelo Branco, no concelho de Mogadouro.

Este jovem agricultor preparava, igualmente, sete hectares de terra para a plantação de vinha e apontou o dedo aos preços elevados dos combustíveis, “já que com a terra seca há mais gastos de gasóleo e o desgaste das alfaias agrícolas é muito maior, o que encarece os fatores de produção”.

Cristiano Pires refere ainda que os custos de produção devido à seca “mais que duplicaram e há explorações agrícolas que não se aguentam”. “Desde que sou agricultor é a primeira vez que encontro uma terra tão seca e tão difícil de trabalhar”, assegura.

Já na aldeia de Santiago, também no concelho de Mogadouro, Dinis Pereira, proprietário de um rebanho com 90 cabeças de gado, diz que já começou a comprar forragem em Espanha e a outros agricultores da região porque o seu stock está a esgotar. “Hoje tive de trazer o gado para uma terra preparada para produzir centeio e destinada para o mês de maio, e já tenho de meter aqui as ovelhas”, conta.

O pastor Pedro Alves relata que é difícil encontrar água. “Estamos em fevereiro e nunca vi nada assim. Os animais, como estão a comer mais alimentos secos, como a palha, têm mais necessidade de beber água, o que é outro problema acrescido”, salienta.

No concelho de Vimioso, Vítor Miranda, produtor de gado para carne, afina pelo mesmo diapasão, interrogando-se como é que os agricultores e produtores precários vão poder enfrentar esta seca. “Terá de haver ajudas por parte do poder autárquico e do Governo central, senão vamos passar um mau bocado”, afiança.

“Os animais chegam da serra com fome”

Situação idêntica verifica-se no Alto Minho, onde os maiores produtores de gado caprino estão preocupados com a falta de pasto para os animais por causa da seca e temem pelo futuro das suas explorações se a chuva teimar em não cair.

Alexandre e a mulher Rosa Fernandes, cada um com a sua exploração agrícola, juntam, todos os dias, o rebanho com 460 cabras de raça bravia e rumam à serra de Gião, montanha situada na vertente sul da serra do Soajo, junto ao vale do Rio Lima.

“Tenho 200 cabras paridas [em fase de aleitamento das crias] que estão a ter mais dificuldades com o leite. Nas duas últimas semanas notei uma quebra enorme, para metade, no leite e é preciso para tratar dos cabritinhos”, conta Alexandre. O pastor viu-se “obrigado” a comprar rações e feno para compensar “sobretudo as cabras paridas”, porque “se falha o leite, as crias não crescem” e Alexandre quer “servir bem” os clientes que procuram o seu cabrito para a Páscoa. “Tive de reforçar a dose, porque os animais chegam da serra com fome e estou a pôr-lhes uma média de 20 a 30 fardos de feno, por dia, na corte”, especificou.

“Em seis toneladas de ração e feno gastei entre quatro a cinco mil euros. Mandei vir de Espanha porque sai a melhor preço”, explica, admitindo as dificuldades. “Se até meio de fevereiro não chover, começa a ficar bastante complicado. Nós vivemos disto e, para alimentar os animais, menos sobra para nós”, observa, referindo que uma ajuda do Estado é sempre bem-vinda. “Eu não sou pedincha, tenho subsídios e apoios, mas da maneira que isto vai, se continuar este tempo mais 15 dias, torna-se bastante complicado”, reconhece o pastor.

Em abril do ano passado, Dário Lima viu um relâmpago matar-lhe 68 cabras. Agora, já refeito da tragédia, o pastor de 53 anos reorganizou o rebanho e continua a atividade de toda uma vida. Tem 350 cabras e 50 vacas. “Há pouco pasto nos campos e no monte, e as águas são poucas. Para já, às cabras boto-lhes feno nas manjedouras. Cinco fardos todas as noites. As vacas andam na serra, comem o que apanham”, relata Dário Lima. “Se não vier a chuva em fevereiro ou março, para o ano vai ser pior, porque as águas vão embora. Vem o verão, os montes secam e não há pastos. Temos de comprar mais feno. Aqui colhemos pouco feno e temos de mandar vir de Espanha. Se não vier a chuva em abril e maio, os fenos não puxam e havemos menos no próximo ano”, alerta.

Ricardo Santos, de Cabreiro, dono de mais de 40 cabeças de gado, entre éguas e vacas, queixa-se que “os pastos estão todos secos e a pouca coisa verde” que ainda resiste acaba “queimada pela geada”. Também ele deixa o mesmo aviso: “Se não cair chuva urgentemente, os animais até morrem à sede e as pastagens não rebentam. Vai ficar muito mal e não vai ser fácil”, confessa.

Produtores de leite temem “forte impacto no setor”

Os produtores de leite do Norte do país manifestam uma “preocupação a médio prazo” com a seca que se tem feito sentir na região, alertando que tal pode vir a ter “um forte impacto no setor”.

Por enquanto, a falta de chuva ainda não está a ter consequência imediata na alimentação dos animais, uma vez que estão a ser usadas as forragens de milho e erva armazenadas no ano anterior, mas há apreensão sobre o desenvolvimento das próximas culturas, que servirão de alimento para o futuro.

“Se vivêssemos apenas de pastagens, como quem tem rebanhos, já estaríamos a sentir. Mas a maioria dos nossos produtores trabalha com forragens armazenadas. No entanto, se continuar a não chover os problemas vão surgir a médio prazo”, começou por dizer Carlos Neves, secretário-geral da APROLEP.

Este dirigente da Associação dos Produtores de Leite de Portugal deu conta que a falta de chuva inviabiliza a operação de “cobertura de estrume para adubar os campos” para desenvolver as culturas, lembrando que a maior utilização de água dos poços e minas das explorações para regar os campos acarreta custos extras.

“Se não houver chuva, não só vamos gastar mais dinheiro para colocar as máquinas a regar os campos, até porque a eletricidade está mais cara, como também corremos o risco das captações de água secarem, se os níveis freáticos não forem repostos”, acrescentou Carlos Neves.

O Secretário-geral da APROLEP lembra que no cenário das culturas, que servem de alimento para os animais, não se desenvolveram, será preciso “comprar mais ração e palha, o que representa novos custos”.

“Se já agora as margens no preço do leite para os produtores estão esmagadas, com mais despesas ainda ficará pior. Não sei como as pessoas vão aguentar. Precisamos mesmo de chuva nesta primavera”, alertou o dirigente.

No entanto, Carlos Neves garantiu que os produtores de leite não estão de braços cruzados, estando planeadas conversações com agrónomos “para estudar soluções de antecipar sementeiras ou tentar utilizar variedades de plantas que precisem de menos água”.

“É importante que o Governo defina medidas de apoio aos setores mais afetados”

Já a Federação das Associações de Agricultores do Baixo Alentejo (FAABA) alertou, esta terça-feira, que a seca está a afetar “gravemente” a atividade agropecuária da região e reclama medidas do Governo para apoiar os setores mais afetados.

Em comunicado, a FAABA manifesta “a sua grande preocupação relativamente à agricultura de sequeiro, à pecuária extensiva e também à falta de reservas hídricas, quer para o abastecimento animal, quer para o regadio”. A federação descreve situações que poderão levar a que “a sustentabilidade económica de muitas explorações agropecuárias” da região “fique gravemente comprometida”. Por isso, defende, “é importante que o Governo defina medidas de apoio aos setores mais afetados”, como ajudas diretas à pecuária e às culturas de outono-inverno. 

“No imediato, é também importante a autorização para o pastoreio de pousios e superfícies de interesse ecológico, como forma de mitigar a falta de pastagem para o gado”, refere a Federação das Associações de Agricultores do Baixo Alentejo. “As pastagens não existem, o que tem levado os agricultores a recorrerem às reservas de feno e palhas” para alimentar o gado, as quais, “em muitos casos”, estão “praticamente esgotadas”, frisa a FAABA. 

Isso leva a uma situação em que muitos agricultores “estão a ser forçados a adquirir largas quantidades de alimentos concentrados e outros suplementos” para conseguirem “garantir a alimentação animal”. A situação de seca, adverte a FAABA, “tem sido ainda agravada pelos custos dos fatores de produção”, como rações, combustíveis, sementes, fertilizantes e energia, os quais “sofreram agravamentos extraordinários nos últimos meses, nunca vistos nos tempos mais recentes”.