Sociedade

Operação Miríade. Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas só teve “perceção da dimensão” do caso na segunda-feira

11 novembro 2021 13:48

miguel a. lopes

No final de dezembro de 2019 o CEMGFA foi informado de uma “denúncia relativa à participação de dois militares”. Na primeira vez que se pronunciou publicamente sobre o caso, o almirante António Silva Ribeiro sublinhou: “Não podemos confundir nem associar aquilo que poderá ser um comportamento de natureza criminal com aquilo que é o extraordinário trabalho que os comandos têm feito na República Centro-Africana”

11 novembro 2021 13:48

O Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA), o almirante António Silva Ribeiro, só teve perceção da dimensão das suspeitas de tráfico de diamantes, ouro e droga a envolver militares portugueses na República Centro-Africana (RCA) na segunda-feira. No final de dezembro de 2019 foi informado de uma “denúncia relativa à participação de dois militares”, disse na primeira vez que se pronunciou publicamente sobre a Operação Miríade. “Não havia nem nunca houve a perceção, logo de início, de que o problema fosse desta dimensão. Só tivemos essa compreensão exatamente ao mesmo tempo que os senhores tiveram”, precisou, falando aos jornalistas.

Questionado sobre o motivo por que não alertou o Presidente da República, que é o comandante supremo das Forças Armadas, Silva Ribeiro remeteu para as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa e de João Gomes Cravinho. “Essas circunstâncias já foram esclarecidas pelo senhor Presidente da República e pelo senhor ministro da Defesa”, disse. Marcelo revelou na terça-feira que o ministro da Defesa lhe “explicou” que “na base de pareceres jurídicos tinha sido entendido que não devia haver comunicação a outros órgãos, nomeadamente órgãos de soberania, Presidência da República ou Parlamento”.

O CEMGFA recorda que “as denúncias vieram pela cadeia hierárquica”. E que “mal houve um indício de que poderia haver algum ilícito criminal, relacionado com a atividade de militares portugueses na RCA, os militares comunicaram-na pela cadeia hierárquica até que ela chegou ao Estado-Maior-General das Forças Armadas e depois foi comunicado à Polícia Judiciária Militar”. O almirante acrescentou que os dois militares sobre os quais recaíam, na altura, as suspeitas “tinham estado em anteriores missões”. E insistiu que “quem detetou estas circunstâncias foram os militares do Exército na RCA”.

“Não podemos confundir nem associar aquilo que poderá ser um comportamento de natureza criminal, realizado por alguns militares e ex-militares, com aquilo que é o extraordinário trabalho que os comandos têm feito na RCA”, destacou ainda o CEMGFA. “Não se pode confundir o valor, o prestígio, a altíssima competência e os extraordinários serviços prestados à pátria pelos comandos com aquilo que poderá ser, e tudo indica, o comportamento ilegal de alguns militares dessa força”, reforçou. E deixou a garantia de que “as Forças Armadas continuarão a cumprir as suas missões com brio e relevância e serão absolutamente intolerantes com quaisquer comportamentos que se desviem dos valores militares e dos princípios éticos da nossa instituição”.

Tratou-se de “um fenómeno localizado com um grupo restrito dos militares naquela ocasião e que nunca mais se repetiu desde aí”, especificou, pelo que os militares atualmente em missão e os locais não devem recear represálias. Os locais, de resto, fazem “ovações às nossas tropas sempre que elas passam” por reconhecerem “o contributo para a paz e tranquilidade” dos militares portugueses na RCA. O almirante Silva Ribeiro não deixa, no entanto, de sentir “uma profunda tristeza” e manifestar “profundo repúdio”. Ainda assim, não se sente “envergonhado” com o caso porque “as Forças Armadas não são aquilo”.